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A Cia Pessoal do Faroeste em pleno diálogo com seu tempo e espaço

Artes e Espetáculos | Kiko Rieser 13/09/13 - 10h Kiko Rieser

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A criação da Lei de Fomento ao Teatro, quando Celso Frateschi estava à frente da Secretaria Municipal de Cultura na gestão da prefeita Marta Suplicy, possibilitou que muitas companhias de São Paulo se estabelecessem de forma sólida, desenvolvendo uma pesquisa continuada. Deste modo, surgiram por toda a cidade diversas sedes de grupos, desde espaços pequenos para ensaios até teatros com mais de uma sala de espetáculo. Muitos desses grupos sediados passaram a desenvolver uma forte relação com o entorno de onde estão inseridos. São casos notórios: os Satyros, que inauguraram um processo de revitalização da Praça Roosevelt; o Oficina Uzyna Uzona, que trouxe moradores da região para dentro do teatro num movimento de emancipação artística chamado Bixigão; entre outros. No entanto, é inegável que a Cia Pessoal do Faroeste é o coletivo que mais dialoga artisticamente com o seu tempo e espaço.

Essa apropriação geográfica e histórica se deu de forma gradual. Em 2001, com três anos de formação, a companhia firmou uma parceria com o Instituto Cultural Capobianco, ocupando por dois anos o teatro da instituição, na Rua Álvaro de Carvalho. Através da Lei Mendonça, de renúncia fiscal, o grupo teve patrocínio da Construcap, construtora ligada ao instituto. Este foi o único patrocínio privado em toda a história do grupo e a primeira vez que houve alguma estabilidade financeira, possibilitando que se verticalizasse a pesquisa estética que vinha sendo desenvolvida. Em 2002, o Pessoal do Faroeste foi contemplado com a primeira edição da Lei de Fomento. Até hoje, é o segundo grupo que mais edições do Fomento venceu, tendo sido premiado por 6 vezes.

Em 2006, inaugurou sua primeira sede, na Al. Cleveland, próximo à Al. Glete – então epicentro da área chamada de Cracolândia –, no bairro da Luz. À época, o grupo produzia a Trilogia Degenerada (formada pelos espetáculos “Re-bentos”, “Labirinto desencarnado” e “Os crimes do Preto Amaral”) e a ida para a Luz se deu justamente para pesquisar de perto os cortiços da região, especialmente um que ficava ao lado do espaço locado para sediar os trabalhos. Este espaço, antiga oficina mecânica, estava bastante deteriorado, cheio de manchas de óleo no chão e sem nenhum preparo para abarcar um trabalho teatral. O dramaturgo e diretor Paulo Faria, que foi quem decidiu alugar o local, conta que assim que os atores foram para lá, ficaram muito receosos com a degradação do prédio e da região e duvidaram que a empreitada pudesse dar certo. No entanto, confiaram no diretor do grupo e lá se assentaram. Fizeram, pouco a pouco, reformas e o espaço foi se adequando e virando de fato o teatro da companhia.

cia-pessoal-do-faroeste_bx_lienio-medeirosSeis anos depois, em 2012, foram despejados. No entanto, a região da Luz já tinha adentrado simbolicamente o teatro e os espetáculos da companhia passavam invariavelmente por temáticas próprias do bairro. Por isso, foi decisão unânime dos integrantes não abandonar a área. O novo prédio escolhido para sediar o Pessoal do Faroeste, e que o vem abrigando há um ano e meio, fica na Rua do Triunfo, a poucas quadras do antigo espaço. Nessa época, começava a ser posto em prática um processo de gentrificação na região, formado pelo Projeto Nova Luz, criado pelo então prefeito Gilberto Kassab e hoje felizmente engavetado pelo seu sucessor, e pela internação compulsória dos viciados em crack promovida pelo Governo do Estado. A conjuntura do bairro havia mudado bastante e o foco de concentração dos usuários de drogas passou a ser justamente a Rua do Triunfo. A realidade agora batia à porta do Pessoal do Faroeste e, mais do que nunca, houve uma tomada de posicionamento artístico radical. O primeiro espetáculo feito no novo espaço foi “Cine Camaleão, a Boca do Lixo”, recriando a história do local, berço da pornochanchada da década de 1970. Ainda hoje, há na rua diversas produtoras de filmes pornográficos. É, portanto, uma das regiões mais plurais da cidade, onde essas produtoras convivem com a ‘alta’ cultura (Sala São Paulo, Pinacoteca do Estado, Estação Pinacoteca, Museu da Língua Portuguesa), diversas etnias (comunidades judaicas e japonesas), polos de cultura alternativa (Oficina Cultural Oswald de Andrade, Sesc Bom Retiro, Universidade Livre de Música Tom Jobim) e muitas pessoas em situação de rua.

No segundo espetáculo produzido ali, o Pessoal do Faroeste chegou ao paroxismo tanto de sua pesquisa de linguagem quanto de sua apropriação artística do entorno. “Homem não entra”, em cartaz até o dia 30 de setembro, é, segundo Paulo Faria, a primeira peça verdadeiramente pertencente ao gênero Faroeste já escrita. De acordo com ele, mesmo “Faroeste Caboclo”, primeiro trabalho do grupo baseado na canção homônima de Renato Russo, tinha lampejos de melodrama, o que foge do faroeste clássico, que tem regras bastante rígidas, todas abarcadas neste último trabalho: sempre aborda um fato histórico que se passa numa terra sem lei, em processo de civilização, onde abundam ícones do progresso (especialmente cavalos e trens) e o bem luta contra o mal, representados nas figuras do herói e do vilão. Em “Homem não entra”, esse maniqueísmo aparece bastante diluído, segundo Paulo, por herança do western spaghetti, subgênero do faroeste clássico. A peça fala sobre o Decreto de 30 de dezembro de 1953, emitido pelo então prefeito Jânio Quadros, que expulsava as prostitutas da Zona Livre, no Bom Retiro. Elas acabaram por se refugiar na Rua do Triunfo, tal qual os usuários de crack expulsos da Al. Glete. O paralelo histórico é claro e preciso e a dramaturgia assinada a quatro mãos por Paulo e Rodrigo Pereira deixa evidente como alguns ciclos se repetem ao longo da história, privilegiando sempre a classe dominante. Através de um fato passado exatamente há 60 anos, o grupo fala da realidade em que está inserido hoje.

Voltar ao faroeste depois de 15 anos para agora se aprofundar na linguagem não foi casual. Paulo Faria vem se especializando em escrever gêneros específicos, sempre ligados à cultura popular, mas um tanto esquecidos ao longo do tempo. O resgate desses gêneros vem atender uma vontade de ser popular sem alimentar o status quo da cultura de massa. Aliar algo de fácil reconhecimento por parte de qualquer público a uma vasta gama de informações, desenvolvendo uma ponte histórica, é o objetivo que o dramaturgo e diretor vem perseguindo há anos e que atinge sua excelência nesse “Homem não entra”. Ele afirma que esse desejo de falar a todos tem estado mais perto de sua realização plena desde que Mel Lisboa, atriz de grande apelo midiático, entrou no grupo, num momento que coincidiu com a mudança de sede. Sua entrada ampliou o número de espectadores e levou à Cracolândia a classe média, fazendo com que muitas pessoas entrassem em contato direto com uma realidade que só conheciam de forma distante, filtrada pela parcialidade da imprensa.

paulo-faria_bx_lienio-medeirosA companhia, no entanto, sente falta de um diálogo mais aprofundado com os usuários de crack que habitam a rua. Apesar do apoio tácito dado ao grupo, que já promoveu debates com o Aquele Abraço (movimento que luta contra a internação compulsória dos usuários), e de muitas vezes indicarem o teatro para espectadores que estão perdidos pela região, os viciados convivem sem se interseccionar ao trabalho desenvolvido ali. Alguns até já entraram para assistir às peças, mas não ficaram até o final, saindo para fumar pedra, em virtude da crise de abstinência que algumas dezenas de minutos trazem.

O acesso ao trabalho do grupo é universal, já que os ingressos não têm valor pré-definido: cada um paga quanto puder ou quiser. Quando essa liberdade começou a ser aplicada, dava-se a contribuição na entrada. Percebeu-se então que isso constrangia as pessoas, tanto as que não podiam pagar um valor razoável quanto as que desejavam doar uma alta quantia, mas não queriam ostentar diante de outros. Por isso, hoje, cada espectador recebe um envelope que entrega ao final do espetáculo, no qual deposita sua parte. Com essa mudança, o valor arrecadado cresceu, embora permaneça diverso entre as pessoas. Já se recebeu desde um real até um cheque de trezentos reais ou mesmo uma nota de cem euros. Alguns que não podem pagar deixam um poema ou um desenho.

Mesmo com a participação de Mel Lisboa, a companhia não consegue patrocínio e depende exclusivamente da Lei de Fomento, que dá um apoio ainda exíguo, que permite a estabilidade do espaço, mas obriga os integrantes a ter outros trabalhos para se sustentar. O aluguel de R$ 8.500,00 do prédio consome de 30 a 40% do subsídio. Na última edição que ganhou, o grupo teve um corte de cem mil reais no orçamento. Um dos absurdos do parecer da comissão: uma sugestão de diminuição na rubrica que corresponde ao aluguel, como se fosse possível baixar um valor fixo imposto por terceiros. Recentemente, os Satyros deram uma declaração de que teriam que deixar a Praça Roosevelt porque o aluguel de sua sede havia subido para sete mil reais. Pensavam em ir para a Luz, disseram. Talvez não soubessem que mesmo nessa região degradada da Cracolândia o mercado imobiliário se impõe de forma implacável, tornando cada vez mais difícil a sobrevivência de um grupo.

Mesmo possuindo duas salas de espetáculo, o Pessoal do Faroeste não abre suas portas para qualquer um. Por uma questão de acústica, é impossível ter dois espetáculos ao mesmo tempo, então apenas uma das salas é usada por vez. A sala principal fica para os espetáculos da casa e a outra é por vezes cedida a trabalhos de outros, desde que tenham alguma semelhança estética ou temática com o projeto que a companhia vem desenvolvendo. Também, por princípio, não é cobrado aluguel fixo dos visitantes, apenas 20% da bilheteria arrecadada.

O grupo tem uma relação com o entorno tão emblemática no panorama teatral da cidade, que recentemente recebeu um convite para realizar, em parceria com o Sesc, o Seminário Ciclo de Olhares – Luz e Sombra de São Paulo, amplo projeto multimídia sobre o bairro que será apresentado na frente da Sala São Paulo. Que essas vozes se façam cada vez mais ouvir!

Homem não entra
De 2 a 30 de setembro de 2013
Segundas-feiras, 20h
Na hora, o público define o valor no fim do espetáculo

Ingressos Antecipados (por telefone): R$ 40,00

Sede Luz do Faroeste
Rua Do Triunfo, 301 – Santa Efigênia – São Paulo – SP
Tel.: 11 3362 8883

Fotos: Liênio Medeiros e Rodrigo Reis (banner)

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Kiko Rieser

Kiko Rieser

Diretor teatral e dramaturgo por paixão, tesão, obsessão. Produtor por falta de opção. Amante das rimas em "ão" e dos bares com ladrilhos verdes e garçons com gravata borboleta, onde ainda pode-se escrever um poema no guardanapo ou na bolacha do chopp. Um cara à moda antiga, com amor pelo futuro. Anacrônico a todos os tempos, contemporâneo de si e só, no desejo de se fundir à massa em solidão compartilhada.

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