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A reificação do mundo corporativo em “Contrações”

Artes e Espetáculos | Kiko Rieser 24/10/13 - 03h Kiko Rieser

contracoes

Vivemos hoje o que muitos chamam de “Terceira Revolução Industrial”, a revolução tecnológica, em meio à era do capitalismo financeiro. Em quase todo o mundo, há uma legislação trabalhista consolidada que, ao menos em tese, garante que não haja abusos como salários de fome, jornada desmedida de trabalho, instabilidade no emprego etc. No entanto, sabe-se que em países em desenvolvimento o salário mínimo não supre nem as mais básicas necessidades e que mesmo nos rincões de algumas nações ricas existem escravidão e subempregos. O que nem todos sabem, ou talvez fingem ignorar, é que o capitalismo selvagem é implacável com aqueles que não detêm os meios de produção, usando as mais diversas armas de dominação. É sobre esse tema pertinente que a peça “Contrações”, de Mike Bartlett, ora levada aos pacos do CCBB pelo Grupo 3 de Teatro, joga luz.

O texto, de realismo fantástico, evidencia como o mundo corporativo ultrapassa a barreira profissional, invadindo a vida pessoal de funcionários até a sua desumanização. Emma, uma jovem de classe média que trabalha na área comercial de uma grande empresa, é chamada para prestar esclarecimentos sobre a natureza de seu envolvimento com um colega. No seu contrato de admissão, consta que ela deve informar à sua gerente qualquer contato de ordem sexual e/ou romântica, estando essas duas categorias descritas fria e detalhadamente numa cartilha da corporação. A partir de então, tem início um monitoramento constante sobre a funcionária, que é obrigada a dar detalhes absolutamente íntimos do namoro que começa a desenvolver. As intervenções em sua vida privada ganham um tom altamente cômico justamente pela dimensão absurda e inacreditável com que são perpetradas pela empresa.

O grande mérito da peça de Bartlett é evidenciar, em cada detalhe, o quanto, pouco a pouco, as subjetividades de Emma vão se desfazendo em prol de paradigmas, rótulos e definições que a gerente lhe determina, sempre de acordo com as normas da empresa. A própria superiora não tem qualquer individualidade, sendo que nem suas palavras nem seu ponto de vista lhe pertencem. Dela nada se sabe, exceto a função que ocupa. Sua tarefa é fazer de sua subordinada o mesmo, um braço da Companhia, que apenas se mova de acordo com os interesses do cérebro corporativo. Alguns adeptos do teatro épico ou seguidores de Peter Szondi talvez digam que o caráter dramático (dito aqui enquanto forma narrativo-literária e não enquanto gênero teatral) da peça não dá conta da macroestrutura que critica. No entanto, a gerente reificada é a alegoria perfeita do sistema ao qual se submete, sem que em momento algum deixemos de entender também sua qualidade de vítima. Ela tem o poder dramático de representar ao mesmo tempo o oprimido e o opressor, trazendo consigo para a cena a dialética do modo de produção do qual faz parte.

A encenação dirigida por Grace Passô elimina as elipses entre as cenas, fazendo com que Emma nunca saia da sala da gerente, sendo chamada de volta sempre que está para cruzar a porta. Esse recurso não apenas amplia o absurdo da situação (com tons kafkianos), tornando-a mais cruel, como cria um fluxo na relação entre as duas personagens que vai se desenvolvendo num crescente, como uma queda no abismo. Esse processo de desumanização do texto se faz presente no palco de forma quase sensorial, através de efeitos bem ajambrados (como fumaça, pingos no duto de ar condicionado que cruza o cenário e o uso de cada vez mais casacos pelas atrizes), representando um frio que vai se intensificando ao longo do espetáculo. A ambientação minuciosa inclui alguns momentos de ruídos sonoros e falhas na luz, como a nos dizer que aquele universo está em um permanente curto-circuito, prestes a ruir: o sistema é autofágico e, em algum momento, quebra.

Outra opção bastante significativa na montagem são os operadores de luz e som que ficam o tempo inteiro em cena, como colegas da repartição assistindo a tudo por trás dos vidros da sala da gerente. Representando o ‘big brother’ descrito por Orwell, são parte do prisma de monitoramento corporativo, onde não há privacidade. No entanto, a relação dessas figuras com a ação principal é parca e esquemática, consistindo sempre no mesmo gesto de reprovação de Emma quando, em momentos críticos, começa a tocar uma música, sempre a mesma. Afora esses momentos, não há nada na interpretação da funcionária que esteja de acordo com essa permanente vigília, embora ela se mostre textualmente preocupada com a invasão de sua privacidade (outro tema bastante propício para este momento, em que se discute a polêmica das biografias não autorizadas). Ela fala e age como se de fato estivesse num ambiente privado com a gerente, sem se preocupar se os outros ouvem as acusações constrangedoras da superiora ou veem o seu próprio descontrole. Deste modo, as figuras de fora da sala acabam como decorativas, que mais jogam contra a ação do que a enriquecem.

Débora Falabella, como Emma, ao longo da montagem vai se animalizando suavemente, se arqueando, se contraindo (como sugere o título da peça), enfraquecendo, perdendo sua expressão. Ao final, seu olhar vazio e sua fragilidade física são um retrato exato da desumanização. A mesma intensidade da dor que apresenta no início, quando se vê privada daquilo que lhe é mais caro, permanece até o final, convertida em catatonia. Yara de Novaes, no papel da gerente, tem em suas mãos uma personagem difícil, porque é propositalmente superficial e com uma trajetória sem transformações. Porém, ela a representa com uma docilidade (uma das mais poderosas armas de dominação) que vai crescendo na mesma proporção com que Emma se coisifica, aumentando gradualmente a crueldade da situação. Seu choro final, no entanto, repleto de auto-piedade, vai absolutamente na contramão do processo sem possibilidade de redenção que a peça de Bartlett retrata.

O figurino de André Cortez veste as duas personagens com a mesma estampa e cortes similares, variando apenas as cores. Assim, concretiza o padrão que a empresa imprime aos funcionários, anulando-lhes as individualidades, e mostra que a gerente é potencialmente uma versão futura de Emma. A trilha sonora de Morris Piccioto, contudo, usa esquematicamente poucas canções, em principalmente dois estilos: um sóbrio, que atua apenas como música ambiente, não trazendo qualquer clima à cena (e não serve à frieza da ação, pois esta é antes uma anulação da personalidade do que uma impessoalidade formal); e outro carregado nos metais, que traz uma animação que tampouco condiz com a montagem.

Ficha Técnica
Texto: Mike Bartlett
Tradução: Silvia Gomez
Direção: Grace Passô
Elenco: Débora Falabella e Yara de Novaes
Cenário e Figurinos: André Cortez
Iluminação: Alessandra Domingues
Direção Musical e Trilha Sonora: Morris Picciotto
Direção de Produção: Gabriel Paiva
Idealização: Grupo 3 de Teatro

Contrações
De 19 de outubro até 9 de dezembro
Sábados às 17h30 e 20h, domingos às 18h e segundas às 20h
Duração: 80 min
Classificação indicativa: 14 anos
Ingressos: R$ 10.

CCBB
Rua Álvares Penteado 112
Próximo às estações Sé e São Bento do Metrô

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Kiko Rieser

Kiko Rieser

Diretor teatral e dramaturgo por paixão, tesão, obsessão. Produtor por falta de opção. Amante das rimas em "ão" e dos bares com ladrilhos verdes e garçons com gravata borboleta, onde ainda pode-se escrever um poema no guardanapo ou na bolacha do chopp. Um cara à moda antiga, com amor pelo futuro. Anacrônico a todos os tempos, contemporâneo de si e só, no desejo de se fundir à massa em solidão compartilhada.

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