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Ausência que se faz presente

Artes e Espetáculos | Kiko Rieser 27/06/13 - 05h Kiko Rieser

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A Cia Dos à Deux, fundada em 1997 em Paris pelos brasileiros André Curti e Artur Ribeiro, abriu há pouco uma sede paralela no Brasil, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, onde desenvolveu seu primeiro espetáculo criado de fato no país: “Ausência”.

Na mesma linha de todos os outros espetáculos da companhia, “Ausência” é teatro gestual, calcado em ações físicas que praticamente prescindem de palavras – elas surgem apenas numa curta gravação em off já no final da peça. Outra novidade no histórico da Dos à Deux é que esta é a primeira vez em que nenhum dos dois fundadores está em cena. Responsáveis pela dramaturgia e pela direção, André e Artur convidaram Luís Melo para interpretar o único personagem em cena.

A ação se passa em Nova York, em 4 de abril de 2036. A cidade passa por um caos jamais visto, em que a população é exortada a não sair à rua e, no caso de fazê-lo, é necessário o uso de máscaras de oxigênio. Tudo isto ficamos sabendo pelo programa da peça. No palco, não há referências temporais ou espaciais, mas as consequências dessa hecatombe iminente se fazem sentir no cenário (uma casa em destroços, com tijolos e canos aparentes), na trilha sonora (com um tom de suspense e diversos ruídos como sirenes, grunhidos e rangidos de metais), na iluminação soturna e na trajetória do personagem. Em um completo desespero que acelera seu ritmo e o faz praticar ações repetitivas, ficam evidentes a angústia e a solidão que o exasperam. Ele põe sua máscara, encara a porta, abre, volta, abre a janela, observa, fecha, volta, tira a máscara, tira mais um rato preso na ratoeira e assim por diante, repetidas vezes. Sua única companhia é um peixe vermelho, que vive na pouca água que resta naquele ambiente. Sua relação com o animal passa o tempo todo pelo dilema de tomar a água ou poupar o amigo. Para enganar a solitude, ele também constrói uma espécie de boneca, com quem cria um idílio amoroso. O personagem tenta o tempo inteiro edificar relações de quaisquer tipos para enganar a dissolução completa que está à sua volta e a frustração de não consegui-lo cresce vertiginosamente até o paroxismo.

O espetáculo já está há três semanas em temporada no SESC Ipiranga, às 21h aos sábados e 18h aos domingos, permanecendo em cartaz até o dia 28 de julho.

A Cia Dos à Deux mantém, desde sua fundação, além do núcleo de produção francês, uma parceria com a Galharufa Produções, empresa carioca capitaneada pelo diretor de produção Sérgio Saboya e responsável por toda a trajetória de “Ausência”. A Galharufa, além do próprio Saboya, conta com dois produtores executivos (que logo serão três, após um processo seletivo que ora está em curso) e dois assistentes administrativos. O rigor absoluto dos dois diretores também recai sobre a produção, que fala com eles quase diariamente e lhes envia, na França, o registro em vídeo de cada apresentação.

O espetáculo vem percorrendo diversas cidades desde setembro de 2012, quando estreou no Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro, cumprindo uma exitosa temporada de um mês, com cinco apresentações semanais, de quarta a domingo. Para a montagem e esta primeira ida a cartaz, o projeto contou com o apoio do FATE (Fundo de Apoio ao Teatro), edital da prefeitura do Rio de Janeiro.

Em seguida, contemplada com o edital da Caixa Cultural, a peça cumpriu duas semanas de apresentações em Brasília, no Teatro da Caixa, seguindo então para a França, onde, sob a batuta da produtora francesa Nathalie Redant, realizou um mês de temporada em Paris e mais três apresentações em festivais de diferentes cidades. Na sequência, o trabalho retornou ao Brasil e às mãos da Galharufa, apresentando duas sessões em Porto Alegre, dentro do programa Palco Giratório, do Sesc. No início do ano que vem, o projeto já tem destino certo: o nordeste Brasileiro, contemplado pelo Programa Petrobrás Distribuidora de Cultura.

Uma curiosidade é que em nenhuma das viagens brasileiras a equipe contou com um produtor local. O único membro da produção presente na temporada paulistana, o produtor executivo Augusto Oliveira, conta que é uma opção pautada por um caráter financeiro. Ele afirma que, sendo cada vez mais difícil fazer teatro no Brasil, não foi possível contar com produtores locais nas viagens do “Ausência” por não haver verba para tal, embora ele confesse que essa figura só teria a somar.

Para Augusto, que trabalha na Galharufa há três anos, das cidades para as quais o espetáculo viajou São Paulo é a mais fácil de trabalhar, não só pela larga oferta de hotéis, restaurantes, lavanderias e lojas para se comprar qualquer tipo de material, como pelo preparo e pela qualificação dos profissionais.

A temporada paulistana vai indo bem, segundo ele, mas com um pouco menos de público do que em outras cidades, obtendo uma média de 60% de lotação da casa (213 lugares). A provável razão é o difícil acesso ao Sesc Ipiranga, que, além de ficar num bairro um pouco afastado do centro, não é próximo ao metrô (a estação Alto do Ipiranga fica a mais de meia hora de caminhada) e é atendido por poucas linhas de ônibus.

A produção conta com assessoria de imprensa da Arte Plural, anúncio de uma página no Guia Off de Teatro e apoio cultural da Rede Globo, que exibe gratuitamente vinhetas do espetáculo. Augusto conta que o resultado de uma entrevista com Luís Melo sobre este trabalho no SPTV foi imediato: no dia seguinte, o teatro estava lotado.

No entanto, a longa trajetória da Dos à Deux unida à presença de Luís Melo (que, além de estar em cartaz numa novela de grande audiência, possui um público fiel ao seu trabalho em teatro) garantem uma frequência respeitável de espectadores, que nunca deixam o teatro esvaziar. Também é certamente fundamental um trabalho que o Sesc Ipiranga vem fazendo de levar ao seu teatro espetáculos que já cumpriram temporadas de sucesso em outros espaços de São Paulo (prática atípica para o Sesc, que costuma apenas abrigar obras que estejam estreando na cidade) e/ou que tenham atores de grande exposição midiática. Ao que parece, esse esforço vem rendendo bons frutos.

Ficha Técnica
Dramaturgia, direção e concepção: André Curti e Artur Ribeiro;
Interpretação: Luis Melo;
Música original: Fernando Mota;
Acessórios, peruca e maquiagem: Maria Adélia;
Cenografia: Fernando Mello da Costa;
Iluminação: PH e Artur Ribeiro;
Figurinos: Ticiana Passos;
Design gráfico: Roberta Freitas;
Fotos: Renato Mangolin;
Cenotécnica: Dodô Giovanetti;
Pintura de texturas: Ana Paula Cardoso;
Assistência de acessórios: Álvaro Mendeburu;
Assistência pintura texturas: Clara Feijó;
Operação de luz: PH;
Operação som: Luciano Siqueira;
Produção Executiva: Augusto Oliveira;
Contrarregra: Jesse Natan;
Equipe de produção: Alex Nunes, João Eizo, Letícia Verônica, Pedro Yudi e Roberto Jerônimo;
Direção de Produção na França: Nathalie Redant;
Direção de produção: Sérgio Saboya.

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De 8 de junho a 28 de julho
Sábados, 21h e Domingo, 18h
R$ 30,00 – inteira, R$ 15,00 – (usuários matriculados no SESC e dependentes, maiores de 60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino), R$ 7,50 – (trabalhador do comercio e serviços matriculados no SESC e dependentes)
Ingressos a venda na rede SESCSP
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

SESC Ipiranga
Rua Bom Pastor, 822 – Ipiranga – São Paulo – SP
Telefone: 11 3340-2000
Acesso para portadores de necessidades especiais

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Kiko Rieser

Kiko Rieser

Diretor teatral e dramaturgo por paixão, tesão, obsessão. Produtor por falta de opção. Amante das rimas em "ão" e dos bares com ladrilhos verdes e garçons com gravata borboleta, onde ainda pode-se escrever um poema no guardanapo ou na bolacha do chopp. Um cara à moda antiga, com amor pelo futuro. Anacrônico a todos os tempos, contemporâneo de si e só, no desejo de se fundir à massa em solidão compartilhada.

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