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Inovadores no trapézio!

Artes e Espetáculos | Rodrigo Najjar 13/12/13 - 12h Rodrigo Najjar

trapezio

A única fonte de lucro, a única razão para investir em empresas no futuro é a sua capacidade de inovar e sua capacidade de se diferenciar.” Foi isso que disse o CEO da General Electric, Jeffrey Immelt. Concordo com ele. Sim, é óbvio, mas mesmo assim não é tão fácil para uma empresa entender o que isso significa e principalmente adquirir uma atitude que possibilite a geração de ideias e fomente a criatividade e a inovação.

As ideias são a maior fonte de lucro. Ideias criativas, originais, adequadas a cada mercado e muito bem implementadas são a galinha do ovos de ouro da economia moderna. As empresas, antes centros de execução e eficiência, hoje precisam ser centros de pensamento criativo, boas ideias e capacidade (e coragem) de implementação.

Se as ideias tomam o papel de protagonista nesse momento da economia – e no futuro cada vez mais -, fica claro que precisamos saber como lidar com elas e precisamos cultivar ambientes, processos e comportamentos que fomentem sua profusão. Fica bastante evidente a urgência da integração entre pensamento racional e pensamento emocional (que também chamamos de pensamento convergente e divergente). O pensamento divergente é aquele que cria, o pensamento convergente é aquele que avalia e faz escolhas. Um é emocional, criativo, o outro é racional e lógico. As ideias, pra serem orgânicas, devem vir de insights criativos e os insights criativos não ocorrem sem uma generosa dose de pensamento emocional, ou divergente. Não tem escapatória: em algum momento, devemos nos deixar levar sem querer controlar. A atitude propícia à criatividade e à inovação implica em saber como lidar com momentos de incerteza, risco e ousadia.

Nos treinamentos da Playstorming, sempre chegamos numa parte em que temos que falar desse salto no ar que a criatividade exige. Lembro de uma ocasião, alguns anos atrás, em que frequentei um curso de técnicas circenses. Lá, podíamos escolher entre diversas modalidades do circo, mas como sempre gostei dos riscos, escolhi as aulas de trapézio. Claro que nos primeiros 2 minutos percebi que eu nunca eu nunca seria um trapezista de verdade, mas percebi também que havia naquele curso uma sabedoria e uma experiência que me interessava. Muitas vezes o corpo ilustra algo que se passa na mente fazendo uma metáfora daquilo que sentimos ou pensamos. Havia um momento no curso de trapézio em que tínhamos que tentar soltar um trapézio e pegar o outro. Não era um salto propriamente dito, era apenas passar de um trapézio ao outro em um micro voo no ar. Mas mesmo assim parecia impossível. Todos que tentavam caíam na rede. O professor, um velho trapezista aposentado, nos explicou que o nosso erro era tentar pegar o segundo trapézio com uma mão ao mesmo tempo em que, com a outra, ainda estávamos agarrados ao primeiro. “Você tem que que largar totalmente o primeiro trapézio antes de pegar o segundo – ele dizia – se você não tiver coragem de se soltar no ar por uma fração de tempo, nunca conseguirá chegar com as duas mãos no segundo trapézio.” Para largar um trapézio e pegar o outro, necessariamente temos que ficar no ar por algumas frações de segundo. Há um ponto cego em que não se enxerga o trapézio novo ao largar o anterior. É preciso suportar a vertigem do vazio para se alcançar o novo. Tentar segurar o trapézio novo sem antes abandonar o antigo vai fazer a pessoa ser estirada por ambos, ficar crucificada no ar e estragar o salto. Para trocar de trapézio, temos que voar soltos pelo espaço.

Tempos depois, percebemos que esse momento de soltar o trapézio ilustrava exatamente o que estávamos vivendo nas empresas em que trabalhávamos. Numa empresa, é preciso abandonar os velhos paradigmas para adotar uma cultura de inovação, ousada e criativa. Para criar algo novo, deve-se abandonar a segurança, a necessidade de pisar em terra firme o tempo todo. As empresas, para inovar, devem correr riscos. São riscos controlados, mas ainda assim são riscos, ainda assim há que se suportar a vertigem de largar um trapézio sem saber exatamente onde está o novo trapézio.

Essa tem sido uma parte importante dos nossos treinamentos: o momento em que trabalhamos a capacidade de abandonar o controle por algum tempo e se lançar no salto criativo da inovação. Sempre dá medo, mas sem isso não alcançaremos nunca a criatividade e a inovação. Nesses momentos, precisamos aprender que “controlar” tudo o tempo todo nem sempre é a melhor estratégia. Há o momento de se lançar em saltos sem saber muito bem onde eles vão dar. Muitas vezes o incentivo é mais valioso do que controle. Precisamos aprender a soltar o controle e correr riscos em alguns momentos. É assim no trapézio, é assim nas empresas e… Na vida.

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Rodrigo Najjar

Rodrigo Najjar

É ator, diretor, pesquisador e documentarista. Trabalha com pesquisa etnográfica aplicada ao design e inovação, e é professor de pesquisa etnográfica e comportamento no Master “Industrial Design” e “Design estratégico” no Istituto Europeo di Design em São Paulo. Estudou Artes Cênicas e Artes Visuais, trabalhou como apresentador e produtor de televisão. Como ator fez teatro, cinema, dublagem. Hoje tem a Playstorming, uma empresa de treinamento e consultoria em criatividade e inovação. Site Playstorming: http://www.playstorming.com.br

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