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O encontro das artes com os negócios inovadores

Artes e Espetáculos | Giovana De Figueiredo 29/11/13 - 12h Giovana De Figueiredo

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Numa pesquisa realizada pela Fundação Dom Cabral, “Inserção da Arte na Educação de Executivos”, procurou-se analisar se os processos de concepção artística teriam ligações com atividades de gestão.

A maioria dos 52 executivos entrevistados (96%) reconheceu: existe uma conexão entre arte, trabalho e gestão, e praticamente a metade deles associou essa ligação ao desenvolvimento de habilidades e perfis úteis às empresas, que se manifestam, na prática, em um espírito criativo, empreendedor e gerador de novas ideias, o que agrega certamente mais valor para a empresa.

Aliando raciocínio criativo aos negócios, o Playstorming opera nas intersecções entre os processos de inovação e o pensar e fazer artístico. Sim, essas conexões existem e se revelam em alguns valores e devires semelhantes:

1 – Interdisciplinaridade dos times de inovação & Equipe artística diversificada
Vale para as duas áreas: o fato de cruzarmos diferentes formações técnicas e intelectuais, pontos de vista, experiências e sensibilidades variadas, irá garantir maior quantidade de insights, de habilidades criativas e maior destreza na implementação das ideias. Equipes interdisciplinares têm de coletar e absorver grande quantidade de informação, muitas vezes de natureza estranha e contraditória, e para tal devem estar focadas numa direção muito bem definida. Isso exige profissionais muito confiantes em suas especialidades, inclusive porque precisarão ir além delas.

Os ganhos: estimular nas pessoas a capacidade de escuta e a prática da empatia, promover novas e inimagináveis associações de informações e, ao validar o caráter não-hierárquico das estruturas colaborativas, favorecer de forma inestimável a delicada arte da cocriação. Afinal, o engajamento verdadeiro só acontece quando todos se sentirem donos das ideias e dos resultados.

2 – Empatia Experienciada & “Vestir o personagem”
Na construção dramática, a empatia é a matéria-prima essencial e o ponto de partida para qualquer composição, seja para atores, dramaturgos ou diretores. Profissionais verdadeiramente inspirados das artes cênicas são observadores obstinados, estão sempre tentando se colocar sob a pele alheia para exercer um entendimento absolutamente pessoal do outro. Esse material, organicamente percebido e assimilado, será o estofo do “ser humano” que será representado pelo ator.

Pelo viés corporativo, a aclamada “empatia” nada mais é do que a tentativa de se colocar no lugar do cliente para tentar prever seus desejos, necessidades e insatisfações. É sobre o potencial de cada pessoa, em uma organização, de ter uma intuição visceral para quem compra seus produtos e serviços. Mas também é um processo interno, de engajamento de colaboradores mobilizados em prol da realização de uma causa, que voluntariamente vão dedicar seus esforços num objetivo comum. Essa participação ativa é um processo emocional e está diretamente ligada à capacidade das lideranças de se comunicar com as equipes,para que estas se sintam capazes de contribuir e participar.

3 – Atitude exploratória & Improvisação
“Não à perfeição com hora marcada”. Mas: o que é perfeito?
O que já existe já sabemos (commodities, clichês, o oceano vermelho*), mas inovação é uma viagem ao desconhecido, ao experimental, ao risco. O estado mental é o mesmo nas artes e nas equipes: é realmente sobre conseguir se manter no controle e confortável em situações instáveis e incertas, onde tudo ainda é um tanto obscuro, onde ignoramos quais serão os resultados. Podem acreditar, é possível ter confiança e até prazer ao passar pelo processo. Para tal, é preciso ser capaz de permanecer no momento e aceitar a realidade daquilo que é dado, mesmo que não concordemos ou não gostemos dessa realidade ainda. Infelizmente, nós crescemos em uma cultura que promove o imediatismo e o pensamento reto: “Pense antes de falar”, “Saiba aonde você está indo”, “Tenha um plano”, “Aqui estão as instruções de como você deve fazer isso”. As escolas ensinam mais por roteiros prontos e menos pela experiência. Elas nos ensinam “o que” pensar, não “como” pensar.

4 – Tolerância aos erros para gerar diferenciação & Necessidade de erros para construção artística
É necessário conceder a uma equipe criativa o tempo, o espaço e o investimento para cometer erros. Ambos os processos (artístico e corporativo) alternam movimentos entre o analítico e o intuitivo. Hoje é uma questão de sobrevivência a empresa ter antenas ligadas no domínio dos instintos. Nas artes dramáticas, exatamente a mesma coisa: entremear análise lógica com laboratórios vivenciados (pesquisa de campo). É estar dentro e fora. Ao mesmo tempo. Esse equilíbrio será atingido depois de muitos pontos de interrogação na cara, de muitas noites insones, de muita tentativa e erro que, aliás, não é nem nunca foi o oposto do sucesso: é parte constituinte dele. Em outubro de 2010, algumas das maiores empresas do Vale do Silício, na Califórnia, participaram de um evento que começou como brincadeira: o FailCon (Congresso do Fracasso). Durante um dia inteiro, empresários, marqueteiros, investidores, desenvolvedores de softwares, jornalistas e outros profissionais estiveram juntos com o propósito de compartilhar erros e exaltar o valor do fracasso. O resultado do evento? Um paradoxal sucesso. Empresas célebres pela capacidade de inovar, como Google, Digg e PayPal, lá estiveram para prestigiar um dos mais importantes elementos da inovação: a tolerância aos erros (e a capacidade de aprender com eles).

5 – Consumidor: protagonista na cultura da experiência & Público: o que dá sentido ao espetáculo
Okay: A arte é humanista. O mercado é monetarista. Então, onde achamos uma intersecção aqui?
No superobjetivo**! No teatro, na boa dramaturgia, é a ideia a ser lançada de forma indireta, orgânica e projetiva à plateia. É o ensinamento que promove reflexão e consciência rumo à humanização do público. Na empresa? É saber o que pensam, o que esperam, do que precisam, do que precisam e ainda nem sabem, e planejar e agir conforme tais percepções. É valorizar a capacidade de empatia e tentar enxergar através do olhar do consumidor. Também porque, na era da informação, o poder foi dividido com o público, que pode espalhar suas impressões e causar, em poucas horas, forte comoção em relação a uma marca. Ou seja, alguma transparência*** é um bom trunfo hoje em dia, porque sugere humanização, seja admitindo os próprios erros, seja demonstrando flexibilidade e humor.

* O conceito de oceano vermelho/oceano azul foi lançado pelo professor sul-coreano W. Chan Kim: o oceano vermelho refere-se ao mercado atual, representado por todos os setores existentes, onde a oferta é maior do que a demanda e as práticas comerciais são “sangrentas”. O Oceano azul representa a construção de um novo espaço de mercado inexplorado, com a criação de demanda e oportunidade de alto crescimento lucrativo, tornando a concorrência irrelevante.

** Superobjetivo: termo empregado por Constantin Stanislavski, ator, diretor, pedagogo e escritor russo de grande destaque (1863-1938) para designar o tema principal de uma peça. Para Stanislavski, o superobjetivo é o elemento que dá sustentação e sentido à peça. Assim, personagem, objetivo, emoção, interrelacionamento, situação, enfim, todos os elementos constitutivos de um enredo, devem dirigir-se a um mesmo alvo, fundir-se numa mesma corrente principal, que é o superobjetivo.

*** http://trendwatching.com/pt/trends/12trends2012/?flawsome

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Giovana De Figueiredo

Giovana De Figueiredo

Estudou administração de empresas e análise de sistemas, mas precisava criar. Abandonou os negócios e os computadores e tornou-se atriz, diretora e roteirista. Com sólida formação artística passou por todos os estilos teatrais, mas a comédia sempre falou mais alto. Criou e dirigiu ações de marketing e endomarketing, intervenções teatrais, espetáculos corporativos e treinamentos nas áreas de criatividade, vendas, comunicação e expressão. Hoje tem a Playstorming, uma empresa de treinamento e consultoria em criatividade e inovação. Site Playstorming: http://www.playstorming.com.br

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