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Quando a arte recria a vida

Artes e Espetáculos | Kiko Rieser 28/11/13 - 09h Kiko Rieser

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O que caracteriza a arte como tal é a criação, dada como possibilidade de ressignificação do mundo ou invenção de realidades outras. A recente polêmica sobre a necessidade de autorização para publicar biografias passou muito pouco por essa importante questão. Arte e jornalismo não são excludentes, mas certamente distintos, ainda que muitas vezes – e nesse caso especialmente – divididos por uma linha tênue. Se se admite que um livro estritamente biográfico tem caráter univocamente jornalístico, o olhar para o tema é premido pelos mesmos ditames éticos que concernem a qualquer comunicólogo e, por isso, seria direito e dever de qualquer biógrafo investigar e discorrer de forma autônoma e independente sobre as ações do biografado, sem que, é claro, invada para isso sua privacidade. Se se entende que essa mesma obra é, ao fim e ao cabo, literatura, a querela ganha novos e mais complicados contornos. Fato é que a arte não precisa se ater a qualquer realidade e uma obra que se baseie na vida de uma pessoa real tem toda a liberdade para, desde que assumidamente, recriar dados e inventar-se a si própria para além da reconstituição histórica. Grandes obras dramatúrgicas surgiram assim, como o “Roberto Zucco” de Koltès e tantas peças de Brecht.

Zen Salles, na sua peça “Genet, o poeta-ladrão”, recria o universo do escritor francês Jean Genet misturando sua vida à de suas personagens. Toda personagem tem um pouco do autor, mesmo que seja pela via negativa, ao ter satirizados comportamentos que, do ponto de vista do autor, são execráveis. Assim, nada mais propício ao se retratar um escritor do que fazê-lo conviver com suas próprias crias, ampliando a dimensão não apenas de seu universo e de seu imaginário, como também de seu pensamento.

Salles imprime em seu Genet sua visão sobre o escritor, que na peça é fascinante e absolutamente intenso, tanto em sua verve criativa quanto na sua crueldade, capaz de causar amor, terror e piedade em todos que com ele convivem no submundo, e admiração nos maiores intelectuais de sua época. No entanto, o dramaturgo nem julga, nem faz apologias ao lado ladrão de seu protagonista, mas cria um paralelo perfeitamente claro e original entre as duas atividades que ombreiam no aposto do título da peça: tanto ladrões como poetas têm um olhar atento ao qual nada escapa, capaz de ver os menores detalhes.

As travestis, os ladrões e os policiais que povoam a obra de Genet estão todos em cena. As gírias foram recriadas para que seja possível compreender a realidade desse mundo marginal. O humor com que as “monas” são retratadas é um raríssimo caso em que não se ri das minorias, mas junto com elas. Suas piadas são formas de tentar enganar a própria dor, ou transubstanciá-la (segundo a análise que Sartre fez de Genet), e é essa estatura melancólica que lhes confere dignidade. Em suas vidas sem possibilidades, assim como na dos ladrões retratados, prevalece o instinto quase animalesco premido por amor, tesão, ciúmes e raiva. Nem amar é permitido nesse lugar e há um preço a ser pago por quem se deixa apaixonar. Por isso, por mais que muitas vezes disputem entre si, essas personagens terminam sempre por se unir e se proteger mutuamente e, quando o código de ética é rompido, a retaliação é rápida e certeira. Eles estão prontos para tudo, não esperam nada da vida e sabem que já nasceram um pouco mortos. Deste modo, é emblemática e especialmente poética a cena em que a travesti Divina é assassinada. Ela não recusa a morte, mas se revolta por não poder se arrumar para morrer bonita. Quando partir bela é a única aspiração de uma pessoa, está dada a metonímia da sua falta de horizontes. Também é singular a motivação de Pilorge para assassinar em série travestis: ele, que literalmente anda na corda-bamba, não pode permitir que outras criaturas saibam se equilibrar melhor do que ele, se esgueirando no fio da navalha dos dois gêneros. Uma metáfora perfeita da incompreensão da alteridade que, ao fim, é sempre a causa de todas as violências.

genetA peça ganharia mais, no entanto, se eliminasse duas cenas: a que Genet visita a montagem brasileira da sua peça “O balcão” e aquela em que ele se encontra com Sartre e Simone de Beauvoir. A função principal de ambas – mostrar a dimensão e o respeito que o escritor vinha ganhando ao redor do mundo – está clara no texto, entretanto, é prescindível, já que está impressa em conversas do protagonista com seu parceiro Stilitano e, principalmente, porque estas cenas destoam do universo marginal coerentemente retratado em todo o resto da peça.

A encenação dirigida por Sergio Ferrara potencializa o encanto do imaginário desse escritor prolífico, criando um clima feérico, amparado pela iluminação de Rodrigo Alves “Salsicha”, que trabalha especialmente com luzes laterais e sutis variações de cores, instaurando um ambiente escuro, com brilho e mistério. Além disso, para além do cortejo fúnebre das travestis que há no texto, cria um coro que acompanha quase que permanentemente Genet e as travestis, reforçando imageticamente a proteção mútua dos desvalidos, sempre amparados por seus semelhantes. Isso não tira, de forma alguma, a singularidade do protagonista, que se destaca daquele coro por ser também poeta. Para isso, uma mesa é sua síntese cênica. Quando em pé, ampara seu trabalho de escritor; quando emborcada, é a cela em que ele está confinado e que se mostra tão determinante para seu trabalho e sua vida. Apenas depõem contra a cena duas araras de roupas colocadas nos dois lados do palco. Não fazem parte da ação nem são quebras do ilusionismo teatral, já que muitas trocas de figurino são feitas na coxia e, mesmo quando realizadas ao lado delas, acontecem na completa penumbra. Assim, acabam por nem serem assumidas como parte da cena, nem por serem ocultadas completamente.

Ricardo Gelli representa Genet sem qualquer indício de sua homossexualidade, o que é necessário para o respeito que consegue impor mesmo entre os policiais e outros homofóbicos (seu próprio parceiro Stilitano tem um tanto de ojeriza à homossexualidade). Sua interpretação é a síntese perfeita entre a simpatia irrestrita do escritor e sua crueldade. Seus olhos se deixam fascinar por tudo aquilo que o rodeia e, por isso mesmo, ele também se torna uma figura fascinante. Assim como o Stilitano representado por Fransérgio Araújo e as travestis Mimosa e Divina (criações do real Jean Genet) interpretadas por Rogério Brito e Nicolas Trevijano, deixa entrever, por trás da virulência de sua interpretação, o tom sutil da melancolia inescapável àquelas personagens.

Ficha Técnica
Autor: Jean Genet
Texto: Zen Salles
Direção: Sergio Ferrara

Elenco
Ricardo Gelli – Genet
Fransérgio Araújo – Stilitano / Madame Irma
Nicolas Trevijano – Divina
Rogério Britto – Mimosa / Simone
Felipe Palhares – Mignon
Ralph Maizza – Pilorge / policial / preso
Gabriele Lopez – Guy / Madame Claire / Beata / Mendiga
Jhe Oliveira – Sartre / carcereiro / Carolina
Magno Argolo – Padre / Policial / Preso / Carolina
Bruno Bianchi – Anjo / Salvador / Carolina

Equipe Técnica
Figurino: Iraci de Almeida
Cenário: Sergio Ferrara
Iluminação: Rodrigo Alves
Sonoplastia: Sergio Ferrara
Fotos: Vivian Fernandez
Direção de Produção: Elder Fraga
Realização: Fraga e Ferrara Produções

Genet, o poeta-ladrão
De 17 de outubro a 6 de dezembro de 2013
Quintas e sextas, às 20h
Duração: 80 minutos
Recomendação etária: 18 anos
Preços: R$ 10,00 (inteira); R$ 5,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino). R$ 2,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes).

Sesc Consolação
Rua Dr. Vila Nova, 245 – São Paulo – SP
Espaço Beta – 3º andar
Lotação: 50 lugares
Tel: 11 3234-3000

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Kiko Rieser

Kiko Rieser

Diretor teatral e dramaturgo por paixão, tesão, obsessão. Produtor por falta de opção. Amante das rimas em "ão" e dos bares com ladrilhos verdes e garçons com gravata borboleta, onde ainda pode-se escrever um poema no guardanapo ou na bolacha do chopp. Um cara à moda antiga, com amor pelo futuro. Anacrônico a todos os tempos, contemporâneo de si e só, no desejo de se fundir à massa em solidão compartilhada.

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