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Watson Vai À Pinacoteca

Artes Visuais | Cultura Digital | Leonardo Cássio 13/04/17 - 10h Leonardo Cassio

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Os avanços tecnológicos transformaram de forma definitiva e não retornável o modo como consumimos arte e cultura. Na verdade, o modo como consumismo e nos relacionamos com tudo. Neste contexto, falamos de arte em sentido amplo, afinal, é um termo de múltiplas definições, que se altera conforme as transformações pelas quais o mundo passa.

Um projeto da gigante da tecnologia IBM, para marcar a comemoração do seu centenário no Brasil, harmonizou inteligência artificial com artes visuais. “A Voz da Arte” foi implantado na Pinacoteca de São Paulo e utiliza a complexa e sofisticada programação do Watson, um supercomputador – ou superprograma – capaz de processar uma quantidade de dados inimaginável a uma velocidade impensável, que responde perguntas feitas pelos espectadores sobre determinadas obras de arte. É muito Black Mirror.

Você se posta frente a um quadro, escultura ou instalação e, em vez do auxílio de um orientador ou um áudio-guia, tem um computador que te responde uma infinidade de possibilidades de perguntas. Não falo apenas de perguntas corriqueiras do tipo “quando essa obra foi feita?” ou “qual sua corrente artística”. Perguntas do tipo “o homem retratado no quadro jogava futebol?” são respondidas e não é com sim e não: o Watson contextualiza a parada toda.

São várias as questões acerca dessa guinada na forma de consumo e fruição da arte. Primeiro que falamos aqui de artes plásticas e visuais, uma das vertentes de maior dificuldade de entendimento e uma das que mais está afastada do cotidiano das pessoas. Esse é um dos motes do projeto. Aproximar os mais de 70% de habitantes do Brasil que nunca foram ao museu ou instituição cultural. O vídeo de apresentação do projeto apresenta estes números e mostra um depoimento de uma pessoa que diz não se comunicar com um ambiente expositivo. Isso é um fato comprovado: os museus, espaços de música clássica, dança e, hoje em dia, até alguns cinemas, inibem a ida das pessoas de classes mais baixas economicamente falando, não apenas pelo valor, mas pela falta de um ambiente receptivo e inclusivo. Pesa ainda, no caso dos museus, a falta de estrutura de fomento ao entendimento das artes plásticas, distante demais do dia a dia e que perde na concorrência com outras atividades mais incorporadas ao cotidiano das pessoas.

O projeto, portanto, convida as pessoas a dialogar, de forma literal, com obras de arte, criando uma possível ligação entre elas. Claro, a curiosidade de um computador te responder de forma tão plena é um chamariz por si só, acho que até maior do que de fato querer saber sobre determinada obra. No entanto, a interação trará conhecimento e ajudará, creio eu, a fomentar o interesse pelas artes plásticas e visuais.

O contraponto é o seguinte: a novidade do Watson por si só romperá o receio de pessoas a ir à Pinacoteca ou outros museus? Ele humaniza a relação com algumas obras, posto que as pessoas estarão no espaço. A ida é outro assunto. Friso isso porque o vídeo de apresentação do projeto pega neste ponto central: o distanciamento de pessoas mais simples desses centros de consumo de arte. Vou adiante: será que é simples chegar lá e fazer uma pergunta? Não rolará uma vergonhazinha? Bom, claro que isso não deve ser o tópico central de “A Voz da Arte”, mas são perguntas importantes para se fazer durante o processo de análise conjuntural do projeto.

Uma segunda questão levantada pela minha sócia: será que os artistas irão gostar? Muitos artistas estão mortos, é verdade, mas há os herdeiros e há os que estão vivos. Não acho que muita gente chegará lá e fará perguntas desrespeitosas e frívolas, mas em algum nível acontecerá. Bom, o artista que não quiser participar que não participe.

É um projeto complexo, bem interessante. Aviso aos desavisados: o Watson é uma inteligência artificial antiga, que já derrotou xadrezistas, pessoas inteligentíssimas que participam de programas de Quiz, além de outros feitos notáveis. Em suma, é um computador muito, mas muito bem programado, que faz coisas geniais como essas na Pinacoteca.

O projeto fica disponível para visitação até o dia 5 de junho de 2017. A interatividade é toda em português, importante destacar, e as obras que estão com a tecnologia disponível apitam quando você está próximo. Aliás, é uma ação inclusiva, pois uma pessoa com problemas de visão pode pedir informações gerais sobre as obras, como composição, tamanho, o que é retratado, etc.

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