Fechar Menu [x]

#ApostaCult Do Design Gráfico à Música com o Trombonista Victor Fão

APOSTACULT | Artes Visuais | Leonardo Cássio | Música 16/10/15 - 04h Leonardo Cassio

Victor-Fao-banner

Ele é um velho conhecido dos colunistas da Cult Cultura (já escreveu aqui por um período) e, justamente por este motivo, há um misto de alegria e orgulho em redigir esta entrevista. No longínquo ano de 2004, Victor Fão adentrou ao curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Com uma aptidão nata para o design gráfico, criou trabalhos de destaque em diversas áreas, desde a ilustração, com seus personagens pescoçudos que remetem aos instrumentos de sopro, até animações digitais, além de ministrar oficinas de cartazes de show.

Apesar da paixão pelo design, o amor pela música falou mais alto e Fanito (ou Vitinho) transformou-se em um músico profissional. Como trombonista, sua carreira teve início com a banda Pinguins Tropicais em 2007, antes disso, teve algumas bandas de punk rock e hard core, mas nada sério.No entanto, começou a obter sucesso com o Ba-Boom, grupo de ska e reggae, em que toca trombone e que teve o primeiro trabalho, “Incendeia”, tido como um dos principais álbuns do ano de 2012 pela revista Embrulhador. Também é um dos integrantes da Nomade Orquestra, banda de música instrumental que vem despontando no cenário paulista.

A seguir, um pouco sobre o ponto de vista do artista sobre arte, cultura, indústria fonográfica e outros tópicos:

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Fão, conte um pouco para nossos leitores sobre seu envolvimento com o design gráfico e com a música, e como você se divide entre as duas frentes criativas.
[VICTOR FÃO] Antes de mais nada, valeu pelo convite, mano! É uma honra e um prazer ser colaborador da Cult e agora tenho o prazer de contar um pouco da minha história. Gratidão máxima, amigos! Vamos lá, a paixão pelo desenho vem desde pequeno. Sempre desenhei muito em casa e sempre tive um pensamento livre quanto a isso, passava a tarde ouvindo música e desenhando na sala de casa com meus pais, ou então fazendo pipas para ir ao parque empinar. Quando adolescente, descobri o skate, aí me encontrei no mundo e, de lá, vem muito da minha bagagem e referências tanto musicais quanto no design: colecionava revistas de skate e street art, descobri o graffiti, o punk, o rap e daí veio todo o resto, alinhado à influência bem grande do meu pai, que me fez ouvir muito rock clássico, tipo Beatles, Stones e tal, e a minha mãe que ouvia muito Milton, Jorge Ben, Chico, as coisas Brasileiras… No fim das contas, sinto que é tudo uma coisa só, a energia criativa tanto da música quanto do desenho são as mesmas, né! Só são canalizadas de formas diferentes.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] No caso do design gráfico, foi apontado que você teve ensino formal em nível superior. E na música? Há algum tipo de formação, principalmente pelo fato de você tocar um instrumento não tão comum?
VICTOR-FAO-ILUSTRACAO[VICTOR FÃO] Atualmente, eu estudo trombone na Fundação das Artes de São Caetano com o grande professor e trombonista Valdir Ferreira (banda Mantiqueira), também toco na big band da fundação, que é regida pelo pianista Ogair Junior, onde posso aprender e explorar questões como arranjo, regência entre outras coisas em formações musicais maiores. A fundação é um conservatório bem tradicional de SP, por lá passaram muitos grandes músicos como Bocato, Roberto Sion entre outros.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Quais as principais dificuldades que você enfrentou no início da carreira de instrumentista, especificamente com o Ba-Boom, uma banda com 11 integrantes, que mescla reggae, ska e dub com hip hop, samba e outros ritmos?
[VICTOR FÃO] Cara, como todos sabem, a música autoral no Brasil não tem espaço merecido, a iniciativa privada não investe em música. Temos que inscrever em editais e tudo isso só depende da gente. Precisamos colocar a mão na massa, sucesso é trabalho né, então, como sempre fizemos desde a época do punk, é “faça você mesmo”. A gente sempre foi independente e gostamos disso, colocamos a mão na massa, mesmo, somos operários da música. Porém, depois de tantos anos de luta, conseguimos nosso espaço, nosso público e tudo mais.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Um dos objetivos da Cult Cultura é apresentar ao público jovens promessas nas áreas da arte e cultura, e dividir suas experiências para inspirar outras pessoas que também queiram desenvolver uma carreira artística. Diga: como você define a arte e como ela mudou a sua vida?
VICTOR-FAO-FOTO-4[VICTOR FÃO] Minha arte é a minha forma de expressar e as coisas que eu trago aqui recicladas pela minha mente, que não para de pensar um minuto. Assim, tento me traduzir pra um mundo que é bem massa de viver, sempre tendo uma visão crítica do mesmo. Minha vida é isso, sabe, vivenciar momentos de alegria e tristeza junto dos amigos, poder trocar e aprender com todos que nos cercam e estar cercado de pessoas boas, essa é minha arte. A arte liberta e ajuda a gente a se livrar das amarras de um sistema Preconceituoso, um sistema racista e homofóbico. A arte nos traz questionamentos sobre a vida nos grandes centros, sobre a vida coletivamente e sobre como podemos ser pessoas melhores nesses meios, isso é realmente transformador.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] Falando um pouco mais sobre a parte comercial, como você enxerga o atual cenário do mercado fonográfico e quais são as dificuldades principais para uma banda que não toca ritmos do mainstream brasileiro?
[VICTOR FÃO] Sinto que o modelo de mercado fonográfico tem se reciclado, aos poucos, nos artistas independentes. Estamos galgando espaço e tudo mais, porém, a grande mídia ainda tem o controle das massas e, para as massas, nosso som ainda não chega.

[CULT CULTURA | Leonardo Cássio] O Ba-Boom excursionou pela Jamaica em 2012, resultado de um edital do Ministério da Cultura para intercâmbio cultural. Relate a experiência.
[VICTOR FÃO] Viajar para a Jamaica, além de um sonho -poder conhecer o país que originou um dos meus ritmos musicais prediletos, o Ska-, foi algo enriquecedor. Poder levar um pouco da nossa música para outras culturas, sentir e ver como eles absorvem nossa cultura é maravilhoso! Cada sorriso, cada conversa, cada olhar, está tudo registrado na minha cabeça. Vou levar essa bagagem pro resto da minha vida. Nós conseguimos o convite para tocar num festival de Jazz caribenho na Jamaica e, como esse convite nós escrevemos o projeto para o MINC, que viabilizou nossas passagens, toda a viagem está documentada num documentário que gravamos como contrapartida do edital. (Veja abaixo)