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Basquiat x São Paulo

Artes Visuais | Leonardo Cássio 24/01/17 - 02h Leonardo Cassio

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Jean-Michel Basquiat teve uma carreira intensa tanto quanto curta. Morreu com 27 anos, transformando-se em um dos precursores e um dos principais expoentes do grafite no mundo. Fez sua carreira no Nova York, começando a grafitar ainda na adolescência em prédios e muros de Manhattan. Criou a marca/ assinatura SAMO, chamou a atenção da mídia de NY, passou a participar de outras vertentes artísticas, como música e cinema, até transformar-se em um artista plástico renomado, pertencente a corrente neo-expressionista, ligando-se ao ícone pop Andy Warhol.

Sua arte, rotulada como primitivismo intelectualizado, possui elementos e símbolos africanos, que remetem à árvore genealógica do artista, já que seus país vieram de países da América Central, cuja formação cultural vem da África.
Apesar de ter se tornado um artista de museus e galerias, avaliado em milhões, Basquiat é um artista urbano, grafiteiro. Percebam: um negro, na década de 80, em NY, pintando grafites que remetiam à cultura afro. Vanguarda total.

Eis que o legado do artista virá para São Paulo, no começo de 2018. O MASP anunciou uma mostra com 40 obras dos artistas, que se divide entre pinturas e desenhos, que marcará os 30 anos de falecimento de Basquiat.

Uma notícia fantástica para admiradores do artista e de artes plásticas em geral. Só isso? Não! O MASP anunciou com um ano de antecedência, bem no meio da polêmica em torno da extinção do maior corredor de arte urbana da América Latina, a vinda do mestre do grafite. Timing perfeito e que mantém a discussão viva acerca do fato (leia aqui sobre Badaróss, o Basquiat brasileiro).

São Paulo, então, será transformada em uma cidade de arte de galeria? Ao que parece, sim. A gestão do atual prefeito foi autoritária com relação ao corredor de grafite. Não houve consulta à população, colocou-se grafite e pixo no mesmo balaio e, sem respeito nenhum, passou-se tinta no trabalho de diversos artistas, lembrando que os grafiteiros brasileiros estão entre os mais cobiçados do mundo.

Pela atual leitura da prefeitura de São Paulo, valem como obra as telas de Basquiat. Já o que foi feito na rua vale menos que a tinta cinza que a prefeitura usou para cobrir as artes do corredor 23 de Maio. A arte de rua tem uma função muito maior do que expressar apenas sentimentos e pontos de vistas dos artistas. Ela transforma lugares de passagem, lugares invisíveis à população, em espaços de convivência ou, pelo menos, em locais onde habita algum tipo de existência, mesmo que só visual.

É muito interessante imaginar se Basquiat viesse a São Paulo neste exato momento. Sua exposição chegando a um dos principais museus do mundo ao mesmo tempo que dezenas de grafiteiros são negados como artistas pela administração pública do cinza. Ele certamente riria do programa Cidade Linda. Ele certamente negaria uma metrópole que impõe seu conceito de arte através do gosto de seu prefeito e de mais meia dúzia de conservadores que, ao não enxergarem as cores de arte pura e genuína, se mostram míopes para uma série de outros assuntos, o que, infelizmente, poderá desembocar em mais autoritarismo. Ele certamente amaria São Paulo e, no instante seguinte, a negaria.

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