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Curiosidades Sobre Kandinsky | A Rússia da Copa

A Rússia da Copa | Artes Visuais | Leonardo Cássio 13/03/18 - 10h Cult Cultura

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Antes de se transformar em um dos maiores nomes das artes plásticas e o grande expoente da arte abstrata, Vasily Vasilievich Kandinsk trilhou um extenso caminho, absorvendo conhecimento da música, poesia, ciência, religião e até mesmo do direito. Contemporâneo de Anton Tchékhov, sua obra passou por diversas fases, resultado de profundos estudos, reflexões e impactos causados pelas mudanças políticas vivenciadas pelo artista, que nasceu no período monárquico russo e faleceu durante a Segunda Guerra, com a já consolidada União Soviética.

Nascido em Moscou, no ano de 1866, Kandinsky mudou-se para a cidade de Odessa aos 10 anos. Seus pais haviam se separado de forma amigável e ele mantinha relação próxima com os dois e com os irmãos por parte materna. Uma tia por parte de mãe encarregou-se da educação do artista, que aprendeu desde pequeno não apenas o russo, mas também o alemão. A influência alemã fez com que o artista trocasse o “V” de seu nome pelo “W” anos depois.

Poster criado por Kandinsky em 1898
Poster criado por Kandinsky em 1898

O pai percebeu o interesse e aptidão de Kandinsky pela pintura e o matriculou em aulas de artes plásticas. Em paralelo às aulas, aprendeu tocar piano, violoncelo e aventurou-se pela poesia. Apesar da vivência nas artes, Kandinsky voltou para Moscou e estudou Direito na universidade da cidade. O próprio define o motivo da escolha: “até meus 30 anos de idade, eu sonhava em me tornar pintor, amava a pintura acima de tudo, mas achava que, para um homem russo, a arte era um luxo inadmissível”.

Até chegar aos 30 anos e tornar-se pintor de ofício, Kandinsky passou por experiências que foram responsáveis por “convencê-lo” a entrar de vez no mundo das artes plásticas. Em algumas anotações, o artista declarou a comoção que o pôr do sol no Kremlin causava nele, influenciando as primeiras pinturas que realizou. Outro fato “anunciador” veio com a observação da pintura “O Monte de Feno”, de Claude Monet, exposta em Moscou, sobre a qual Kandinsky declarou: “não me pareceu que o pintor tivesse o direito de pintar de uma forma tão indecifrável. Tinha o vago sentimento de que o quadro não continha qualquer objeto. E comecei a notar, com certo espanto, que o quadro não apenas me fascinava, como se gravava de forma indelével na minha memória”.

A música foi uma fonte de inspiração por toda a vida do pintor. Neste período de descobertas, no entanto, Lohengrin, de Richard Wagner, proporcionou uma experiência sinestésica ao artista, que relata ter visto cores e traçados se desenhando durante a música. Essa é uma das grandes características artísticas desenvolvidas pelo pintor: a de enxergar as múltiplas formas de arte – pintura, poesia, música – como expressões complementares, nascidas e desenvolvidas da mesma raiz, sendo que cores, sons, palavras e formas são representações diferentes de sensações similares, havendo uma ressonância interior entre elas.

Outro fato importante na construção artística de Kandisnky foi uma incursão que realizou por regiões remotas da Rússia. A viagem ocorreu no período em que estava na universidade, com a finalidade de estudar comunidades camponesas e as tribos fino-úgricas. A primeira parada aconteceu em Vologda, ao nordeste de Moscou, cidade marcada por casas coloridas e espaços de oração carregados de apetrechos nos interiores. O local tinha um aspecto estético especial, que inspirou o artista. Depois ele seguiu sentido leste, chegando à região do Komi, à época um local povoado por tribos asiáticas, com costumes pagãos e que estavam em contato inicial com o cristianismo. Lá, o pintor apreciou rituais mágicos e espirituais que marcaram sua arte, a ponto de ele declarar que “foi ali que aprendi a olhar a arte e como me virar dentro de uma pintura e como viver nela”.

28-Wassily KandinskyA pesquisa etnográfica e sociológica tinha aspirações pessoais, também. Kandinsky é um nome originário da região da Sibéria, até hoje um vasto território inóspito, advindo de tribos mongóis. Ao contrário da maioria dos moradores de Moscou e São Petersburgo, o pintor tinha orgulho de sua ascendência oriental, tão refutada por uma parte da sociedade que buscava se “europeizar”. De fato, a Rússia passou por um intenso processo de industrialização nas décadas de 70, 80 e 90 do século XIX, concentrado no extremo ocidente, que dialogava intensamente com a Europa. Em contraponto à aristocracia monárquica, os artistas e pensadores do período, entre eles Kandisnky, entenderam que as raízes culturais da Rússia eram tão orientais quanto ocidentais.

O mito da formação do país baseava-se na crença cristã, formada pelas culturas escandinavas, eslavas e bizantinas que guerreavam contra a influência asiática, tratada como bárbara. Kandinsky ajudou na autoafirmação da cultura oriental como parte fundamental na construção do folclore, mitos e crenças da cultura russa.

Aos 30 anos, em 1896, o artista abandona de vez a universidade onde lecionava para dedicar-se exclusivamente à pintura. Kandinsky, então casado com sua prima Anna, muda-se para Munique, na Alemanha. O domínio da língua e a efervescência cultural que a cidade vivia foram determinantes para a escolha do artista, que entrou para a escola de pintura Anton Azbè, onde desenhava modelos nus, estátuas e natureza morta em estúdio. Não era sua preferência; ele gostava mesmo de pintar ao ar livre e experimentar técnicas para composições de telas coloridas em vez de desenhos de estudos anatômicos monocromáticos.

Poster da primeira exposição Phalanx
Poster da primeira exposição Phalanx

A virada do século XIX para o XX representou um período extremamente frutífero para Kandinsky. Começou a escrever artigos para um jornal russo, promoveu cursos de desenho e pintura, chegando a fundar uma escola e, em 1901, fundou a Phalanx, uma associação de artistas que organizou exposições simbolistas e impressionistas, com obras de Claude Monet, Henri de Toulouse-Lautrec, Paul Signac, entre outros, e promoveu atividades relacionadas às artes plásticas. Apesar do pouco tempo de vida, tendo durado até 1904, a Phalanx movimentou o cenário europeu artístico e possibilitou a Kandisnky conhecer sua nova companheira, Gabriele Münter, que tinha aulas com ele.

O figurativismo ainda estava presente na produção das telas, com composições de paisagens pós-impressionistas, alguns retratos como o de Gabriele, e temas religiosos, uma vez que Kandisnky era cristão ortodoxo. Apesar da devoção ao cristianismo, acabou estudando algumas outras religiões que também passaram a fazer parte de seu imaginário criativo. Publicou um livro chamando “Sounds”, que contém poemas em prosa e gravuras que falam sobre a Ressurreição de Cristo.

Entre 1904 e 1909 ele empregou uma grande viagem passando pela Alemanha, Holanda, Itália, Tunísia e França. Participou de uma exposição organizada pela Ponte, grupo de artistas de Desdren, na Alemanha; esteve no Salão de Outono de 1905, em Paris, onde se aproximou do Cubismo, movimento ao qual era próximo, mas que dizia não fazer parte, pois havia ali um conceito mecanicista em demasia, ao passo que as pinturas de Kandinsky eram intuitivas e emotivas.

Em 1909 instala-se na cidade de Murnau, interior da Alemanha, e começa uma guinada na carreira de Kandinsky. Pintando paisagens com cores vibrantes e contrastantes, ele começa a refletir a importância das cores para além da representação do real, mergulhando ainda mais na questão da ressonância interior da arte, dos sentidos que as cores são capazes de despertar nas pessoas. É um momento de mudança na direção artística das pinturas, com extensa produção teórica acerca das artes plásticas.

28-pintura-com-circuloJunto com Franz Marc, artista expressionista alemão, criou o grupo “O Cavaleiro Azul” (1911), responsável por exposições que marcaram a produção de arte moderna e por um almanaque que, entre diversos textos, destacavam-se ensaios sobre a relação da música com a pintura, feitos em parceria com Arnold Schönberg. Reconhecido como um dos principais artistas e pensadores, Kandinsky não se acomodava e tinha uma mente intranquila. Ainda em 1911, publicou “Do Espiritual na Arte”, livro que apresenta profunda pesquisa estética, investigação social e imersão em experiências artísticas que abriram um olhar para o que viria ser a arte moderna. Ele pontua que o figurativo é restritivo, que a abstração pode levar a diversos caminhos sensoriais, às impressões, improvisações e composições, palavras que dão nomes a algumas de suas obras. Foi em 1911 que ele pintou a sua primeira obra abstrata, a “Pintura com Círculo” (foto ao lado).

Em 1914, tem começo a Primeira Grande Guerra e seu grande amigo Franz Marc morreu em combate, decretando o fim do grupo. “O Cavaleiro Azul éramos nós dois, Marc e eu. Meu amigo está morto e não quero prosseguir sozinho”, declarou.

Devido à guerra, Kandinsky saiu da Alemanha e voltou para Rússia, onde acompanhou a Revolução Russa em 1917, mesmo ano em que se casou novamente, agora com a Nina Andreevskaya, com quem teve um filho que morreu ainda pequeno. Participa do início da administração soviética, que substituiu o regime czarista, mas logo se desilude, pois a arte moderna não era bem vista pelo movimento político, que procurava voltar ao realismo.

28-clear-connection-1925Em 1922, retorna para sua segunda pátria, a Alemanha, e começa a lecionar na emblemática Bauhaus, onde ficou por 11 anos. Neste período, Kandinsky constrói uma nova teoria ligada aos pontos, curvas e forma geométricas, que culmina no livro “Ponto e Linha Sobre Plano – Contribuição à Análise dos Elementos da Pintura” (1926), e que teve aplicação nas pinturas deste período.

Os nazistas fecharam a Bauhaus em 1933 e Kandisnky refugia-se em Paris, com ajuda de Marcel Duchamp, que admirava a produção do russo e viu o regime de Hitler destruir muitas de suas obras, rotuladas de degeneradas. O período final de sua vida teve um ar melancólico, pois, devido ao que estava acontecendo na Rússia e Alemanha, ele não conseguiu produzir da forma que estava habituado. Morreu em 1944, deixando uma obra múltipla, que se transformou ao longo dos anos e que foi construída com muita inteligência, pesquisa e estudo. Intelectual e artista de raro talento, Kandinsky alicerçou, com suas ideias, muitos dos conceitos da arte moderna e contemporânea e consolidou-se como um dos grandes gênios da pintura de todos os tempos. Tudo isso com conclusões tão simples como constatar que “tudo começa num ponto; o ponto é o ser elementar”.

Fontes: cartaeducacao.com.br
Russia Beyond
Wikiart
Canal vivieuvi

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