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Mas Afinal de Contas: Como Se Valoriza Arte?

Artes Visuais | Leonardo Cássio | Literatura | Música 06/04/15 - 12h Leonardo Cassio

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Vira e mexe pululam notícias sobre valores exorbitantes de pinturas, esculturas e demais obras plásticas. É coisa de milhões e mais milhões. As últimas foram sobre os quadros recuperados na Operação Lava Jato, que incluem nomes como Iberê Camargo, Heitor dos Prazeres, Di Cavalcanti e até Renoir. Se puser na calculadora quanto valem as 16 obras recuperadas destes e demais artistas, ela explodirá.

No texto “Martelando a Arte“, já discutimos a questão da não objetividade da valorização de produtos, objetos ou o nome que queira dar às “coisas” artísticas. Neste texto é abordada a incrível cifra recorde alcançada por um tríptico de Francis Bacon, leiloado por U$142.4 milhões (reparem, são dólares!). Tá maluco!

O exemplo vem das artes plásticas porque este é um mercado especulativo, como o financeiro e imobiliário. No entanto, o questionamento sobre a hipervalorização mercadológica serve para qualquer área das Belas Artes. E por que este assunto? Todo mundo sabe que alguns pintores valem muito, que alguns livros raros valem muito, que algumas películas valem muito mais. Mas, afinal: essa é uma questão de contexto ou um mero truque mercadológico de valorização? É necessária uma exegese para explicar. Ixi!

Todo esse questionamento partiu de uma felicíssima experiência do jornal Washington Post, feita em 2007, com o virtuose do violino Joshua Bell, responsável por concertos inacreditáveis e por ter executado a trilha do filme cult Violino Vermelho. Qual foi a sacada da publicação? Pegar um músico erudito e pô-lo no horário de rush (de pico, né?) para tocar temas clássicos.

O músico postou-se às 7h51 na estação L’Enfant Plaza, na capital norte-americana, com uma roupa comum, abriu a caixa de seu violino e começou a “destruir”, tocando canções clássicas que desafiam a lógica musical. A questão é que o metrô é um lugar de passagem, que as pessoas mal tiram o olhar do chão e, em um dia a dia embrutecedor, a chance de sensibilizar alguém é mínima. Alguém o reconheceria?

O próprio jornal tinha uma estimativa pronta: de 75 a 100 pessoas parariam para ouvi-lo e de 30 a 40 o reconheceriam. Tá bom. O violinista tocou por 43 minutos, tempo em que quase 2 mil pessoas passaram em sua frente e apenas uma, umazinha pessoa parou e disse que havia visto um concerto dele. Nesse período o músico arrecadou U$ 52,17, sendo que U$20.00 foram doados pela mulher que o reconheceu.

Pois é. Acontece que três dias antes, três dias antes, Bell tinha feito concerto no Symphony Hall de Boston por ingressos que variavam entre U$100.00 e U$ 1,000.00. Em algumas apresentações, a entrada para ver o meninão não sai por menos de U$500.00. Se é louco. E só para pontuar mais enfaticamente: o Stradivarius que Bell tocou naquela vale aproximadamente U$3.5 milhões. Isso ae!

Vejam só: um músico erudito, que interpreta algumas das mais complexas canções da história da humanidade, premiado, aclamado, não tem valor no metrô… Melhor, tem pouco. Na verdade, o valor dele é o mesmo. Seus ingressos permanecerão no mesmo valor que sempre foram ou até subirão. Acontece que no metrô tem gente querendo ir embora para casa e só. Talvez se algum ladrão soubesse do valor do instrumento daria um sopapo nele para pegar. Mas só. O rei do violino tem seu valor em seu castelo; nas ruas é um plebeu. E um quadro de Picasso, vale o mesmo tanto na casa de um colecionador particular quanto valeria em um museu com centenas de interessados em arte? Valeria alguma coisa em um terminal de ônibus de qualquer lugar do mundo? Hum…

A experiência do WP sugere que a cultura (especificamente como Belas Artes) precisa de um contexto determinado para ser valorada. Fora dele, pode valer qualquer coisa. Tipo aquelas máquinas de venda que tem no metrô de São Paulo que incitam os transeuntes: pague quanto acha que vale. A experiência prova que os valores da arte são contextualizados. Ou alguém acha que um show do Claudia Leitte vale no Azerbaijão a mesma coisa que vale na Bahia? Vale não…

Confira o vídeo do experimento de Joshua Bell feito pelo Washington Post e que rendeu ao dono da ideia, Gene Weingarten, o maior prêmio do país para um jornalista, o Pulitzer:

Obs: o nome original da matéria é Pearls for Breakfast.

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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