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O Fellini da Fotografia

Artes Visuais | Moda e Design 26/07/13 - 04h Leonardo Cassio

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A primeira vez que tive contato com o trabalho deste singular fotógrafo foi em São Paulo, no MUBE – Museu Brasileiro da Escultura -, em 2008. Intitulada de “Heaven to Hell: Belezas e Desastres”, a exposição era um recorte da obra deste artista, mostrando ao público fotos de celebridades como Angelina Jolie, Marilyn Manson, Leonardo DiCaprio e Uma Thurman.

O apelido de “Fellini da Fotografia” foi dado pelo jornal New York Times e ele [o apelido] é a melhor descrição para David LaChapelle, norte-americano reconhecido internacionalmente pelo surrealismo empregado em suas fotos.

Nascido em 1969, sua carreira iniciou-se na revista Interview pelas mãos de ninguém menos que Andy Warhol, o Rei do Pop Art. Após a Interview vieram capas para Rolling Stone, Vanity Fair, Vibe, Vogue e The Face. Já reconhecido como um fotógrafo inventivo, de linguagem própria, sendo muito vinculado ao mundo da moda, sua produção começou a ganhar novas vertentes: entrou para o universo da publicidade, concebeu capas de álbuns para artistas como Elton John, Mariah Carey, Madonna, Moby e Whitney Houston e produziu e dirigiu video clips para Avril Lavigne, Britney Spears, Cristina Aguilera, J-Lo, entre outros.

david2Os temas abordados em sua produção são variados, indo da religião ao sexo. A unicidade entre as séries fotográficas se dá, além da composição, pela forte crítica e ironia dos temas abordados. As situações absurdas trazem ao expectador uma linha tênue entre loucura e realidade, pondo em cheque uma série de tabus e assuntos polêmicos, levando à reflexão através da sensação de loucura que as fotografias causam. O uso de artistas icônicos, símbolos pop das décadas finais do século passado e dos dias atuais, ajuda a reforçar a questão da crítica, uma vez que o universo glamouroso em que estes ícones vivem são alvos de críticas e julgamentos constantes.

Na exposição do MUBE, por exemplo, havia um retrato do emblemático músico Marylin Manson no papel de um policial de trânsito ajudando crianças a desembarcar de um ônibus escolar. Esse mesmo músico já foi alvo de críticas da sociedade americana justamente por ser visto como uma má influência às crianças e adolescentes, com o discurso de que sua música os torna violentos (foto acima)

Na série “The Beatification”, é a vez de Michael Jackson aparecer como o Arcanjo Miguel ou sendo beatificado em um local paradisíaco. Enquanto arcanjo, está o Michael negro, e sendo beatificado, Michael branco com a face deformada.

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Em “We Can’t Wait to Take Her Shopping”, podemos observar uma crítica contundente ao consumo, sendo, em minha opinião, a fotografia de um parto a mais interessante.

A genialidade do artista não está apenas na temática e na forma de abordá-la. A estética de sua produção é singularíssima. Os principais elementos de sua fotografia são a cor e o brilho, ultrassaturados, criando ambientes estáticos fantásticos, onde todos os elementos presentes foram milimetricamente pensados. LaChapelle não trabalha pelo prisma da naturalidade. Suas fotos são composições complexas, caóticas, que ganham mais intensidade com os tratamentos digitais.

Sintetizando: LaChapelle cria situações surreais através do caos, aumentado o irrealismo com cores e brilho fortes, possibilitando ao espectador refletir mediante um cenário similar a um sonho, sendo incisivo nas críticas a que se propõe fazer, sendo que, para isso, traz as principais figuras do universo pop com todo o seu glamour e todos os seus defeitos e problemas.

Esse visionário fotógrafo possui uma lista de livros para quem tiver interesse em se aprofundar. O último lançamento foi “Still Life” (2013), de sua exibição na Galeria Daniel Templon, em Paris. “Heaven to Hell” (2006) também é outra boa dica para adentrar no universo do Fellini da fotografia.

Para saber sobre David LaChapelle, acesse: http://www.davidlachapelle.com/books/heaven-to-hell/

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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