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Sobre o acolhimento do público em Museus

Adriano Tardoque | Artes Visuais | Patrimônio 06/08/13 - 10h Adriano Tardoque

Mediacao_em_Museus

A capacidade de uma instituição museológica em mediar harmoniosamente e simbioticamente o processo de significação/ ressignificação entre patrimônio material/ imaterial e o visitante (representado na diversidade dos atores sociais), por meio da sua estrutura física e humana, configura o acolhimento em museu.

Para que este acolhimento se processe de forma eficiente e construtiva, é prioritário que o museu, assumindo seu papel social, possa promover o que a professora Ana Mae de Morais chama de “…Laboratórios de experimentação com a função de uma escola crítica e transformadora que questione os valores do próprio museu”. Nesses termos, a instituição se abre para agregar manifestações, signos e valores do seu público, cumprindo o ideal de organismo vivo e em constante transformação.

A construção do ambiente físico de acolhimento diz respeito à própria estrutura do museu, enquanto objeto. Comumente, pessoas humildes e simples não entram em museus por entender que estes, devido à “grandiosidade da arquitetura” ou “nível dos frequentadores” não os refletem, ou pela imagem de um lugar elitizado que não lhes pertence, ou por sua diferença social em relação às pessoas que ali sempre estão. E muitos evitam até de passar pela porta de entrada destas instituições. É necessário que as ações do museu estejam bem além das suas portas, entendendo o seu entorno como parte do seu interno. Buscar frequentemente a relação com a comunidade para que ela própria traga para dentro do museu aqueles que estão fora dele, estabelecendo uma relação que leve ao entendimento daquele espaço e ao mesmo tempo, apreendendo, assimilando e disseminando também o espaço comum deste visitante, é fundamental. Mas isso pode somente ocorrer quando a estrutura humana atua como mediadora.

Muitas vezes, em ocasiões diversas, alguns visitantes são impedidos de adentrar em museus (e os “deméritos” disso sempre recaem sobre os agentes de segurança), como ocorreu em fato noticiado há alguns anos em São Paulo, quando uma adolescente foi proibida de entrar em um museu onde acontecia uma ação educativa com outras crianças e jovens de uma comunidade carente, pelo fato de estar com os pés descalços. A possibilidade de inserção e aprendizado em um espaço diferente do que lhe era de costume, junto a outros indivíduos que lhes eram comuns, foi extirpada. À sensibilização da importância da ação educativa, com sua proposta e objetivos, infelizmente, não passou por todos os envolvidos no processo, deixando as marcas de uma tradicional hierarquização nos cargos, funções e obrigações dentro de um museu. Evidentemente que as funções de um agente de segurança, uma recepcionista ou uma auxiliar de limpeza que trabalham em um museu não são as mesmas que as de um curador, um museólogo ou um educador. Mas é fundamental compreender que os papéis destes não estão abaixo dos papéis de qualquer um dos envolvidos, quando o foco principal está no público atendido. Quanto mais integrados e conscientes do processo existente entre o museu, seu acervo e seu público, melhores serão os resultados culturais e de cidadania obtidos.

Objetivamente, todos os envolvidos com os trabalhos em museus podem contribuir significativamente com a dinâmica cotidiana da instituição e devem participar do planejamento e produção de uma exposição, conhecendo sua totalidade. Os agentes de segurança, dispostos não como observadores contumazes de possíveis “agressores”, mas como pessoas atenciosas e dispostas a orientar tranquilamente o visitante para uma boa e segura visitação. A recepção pode bem mais do que entregar ingressos e dar informações pragmáticas, atentar ao anseio do visitante, orientando-o de forma cordial, ou mesmo respeitando aquele que não quer ser acompanhado, colocando-se atenta e à disposição deste. O mesmo ocorre com o educador, ao estar previamente atento ao público que circula pelo espaço, convidando as pessoas a participar do circuito monitorado, com linguagem adequada, colocando-se à disposição quando o visitante opta por caminhar sozinho, dando a este a certeza de sua presença em caso de alguma informação. É importante que curadores e museólogos, bem como a equipe técnica, possam circular e colocar-se a disposição dos visitantes, sem distingui-los, assim como os demais agentes citados anteriormente, podendo estes enriquecer e colaborar significativamente com o ambiente, tendo assim um retorno avaliativo direto da comunidade, que aponte as direções e caminhos para uma qualitativa interatividade cultural e cidadã.

Fonte da imagem: http://corpo-sinalizante.blogspot.com.br/2008/11/o-projeto-aprender-para-ensinar-e.html

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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