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Tributo em Tela para o Poetinha

Artes Visuais 30/10/14 - 05h Leonardo Cassio

Vinicius_Carrossel

Elifas Andreato é um ilustrador que consolidou sua carreira criando capas para vinis de artistas como Adoniran Barbosa, Chico Buarque e Elis Regina. Grande conhecedor da MPB, Andreato tinha há tempos o interesse de realizar uma homenagem para Vinícius de Moraes. E por quê? Segundo o curador da mostra “O Haver – Pinturas e Músicas para Vinícius”, ao ouvir a canção “O Filho que Eu Quero Ter”, de autoria do poeta, ele pode reatar uma relação conturbada com seu pai e dar um novo rumo à própria vida.

A exposição é um agradecimento pessoal ao artista. Andreato criou 15 telas em tinta acrílica, sendo que cada uma retrata uma estrofe do poema “O Haver”, que batiza o projeto. O ilustrador co-criou outras telas inspiradas no poema em parceria com Paulinho da Viola, Renato Teixeira, Toquinho, Antonio Nóbrega, Martinho da Vila, entre outros, além de uma leitura do poema realizada por Chico Buarque e disponibilizada em vídeo. Para finalizar, são exibidas fotos e registros de making of de composições inéditas feitas para o Poetinha.

“O Haver…” já passou por Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba, Brasília e agora está, até janeiro de 2015, em São Paulo, na Caixa Cultural. O serviço completo você encontra no fim da matéria, ressaltando que o espaço está adaptado para pessoas com deficiência.

A seguir, imagens de divulgação da exposição e o poema “O Haver”, fonte de inspiração do projeto:
Vinicius_Andreato e Renato Teixeira

Vinicius_Chico com ilustração

Vinicius_Espaço Caixa

Vinicius_Toquinho e Andreato pintam
Fotos (divulgação site projeto)

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

– Poema extraído do site Vinicius de Moraes com a finalidade de divulgação da exposição.

O Haver – Pinturas e Músicas para Vinicius
de 18 de outubro a 15 de janeiro de 2015
das 9h às 19h (terça-feira a domingo)

CAIXA Cultural São Paulo
Praça da Sé, 111
Classificação etária: livre
Entrada franca
Informações: 11 3321-4400

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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