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Os 30 Anos De Watchmen E A Discussão Sobre O Poder Bélico

Artes Visuais | Audiovisual | Leonardo Cássio | Literatura 10/04/17 - 02h Leonardo Cassio

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Assisti Watchmen (2009) no ano seguinte ao que foi lançado. Não sabia da sinopse, não havia assistido ao trailer e não tinha a informação de se tratar da adaptação de uma HQ badalada e premiada. Essa falta de informações prévias em alguns casos tem um resultado muito bom.

Nos primeiros minutos do longa-metragem dirigido por Zack Snyder, que entre outros trabalhos emplacou a HQ de Frank Miller, 300, percebe-se que o filme é sobre super-heróis. Ao mesmo tempo, percebe-se que é muito mais uma história sobre pessoas do que sobre heróis. Melhor: é uma história que utiliza super-heróis para falar sobre os desmazelos humanos.

Gostei tanto do filme que fui atrás da HQ, gentilmente emprestada pelo diretor dos vídeos da Cult, Igor Preciso, que li em pouquíssimos dias. Aliás, dificilmente leio um livro se vejo o filme antes – o contrário, sim, para mim é ok. E a HQ faz jus a tudo o que dizem sobre ela.

Watchmen foi originalmente publicada pela DC Comics em 12 edições, no final de 1986 e durante 1987. A HQ foi criada e escrita pelo inglês Alan Moore, com desenhos do conterrâneo Dave Gibbons, e estabeleceu um novo patamar neste tipo de produção, apresentando uma história de suspense, envolvendo bastante ação, política e ficção científica, com bastante profundidade temática e personagens bem desenvolvidos, atraindo um público adulto e tirando o estigma dos quadrinhos serem voltados apenas aos leitores infantojuvenis, às vezes considerada um tipo de produção literária com menor qualidade.

capa wA história se passa em 1985, durante a Guerra Fria, quando Estados Unidos – presididos por Richard Nixon – e União Soviética estão a um passo de iniciar a 3ª Guerra Mundial. Um grupo de super-heróis aposentados forçadamente nos anos 70 pela Lei Keene vê um de seus integrantes, o Comediante – Edward Blake –, ser assassinado de forma misteriosa. Rorschach, um dos que deveria estar aposentando, mas atuava de forma ilegal, investiga a morte do antigo colega herói e levanta a hipótese de que há uma conspiração para assassinar o grupo de mascarados, os super-heróis aposentados. Rorschach tem um perfil agressivo e é tido como maluco pelos ex-colegas vigilantes, tendo dificuldades de convencê-los sobre a tese conspiratória. No entanto, o Coruja, seu antigo parceiro de nas ruas, e a Espectral – que inicia um relacionamento com o Coruja -, resolvem ajuda-lo a confirmar ou não a tese de perseguição. Ozymandias, ex-vigilante, quem como o Comediante, era um dos poucos a ter sua identidade publicamente reconhecida após a proibição da atuação dos heróis, sofre uma tentativa de assassinato, dando mais embasamento ao raciocínio de Rorschach. Ozymandias é conhecido pelo seu QI, carregando a alcunha de ser o homem mais inteligente do mundo. É multimilionário, um dos mais fortes fisicamente e junto com o Dr. Manhattan são os dois grandes propulsores de reviravoltas em Watchmen. Dr. Manhattan é um físico que sofreu um acidente nuclear e transformou-se em um super-humano, com poderes de telecinese, podendo se teletransportar, modificar estruturas físicas, ver o futuro e outras tantas habilidades não-humanas. Tão logo ocorre sua mutação, o governo norte-americano o anuncia publicamente, aumentando a tensão entre os EUA e URSS, que ao saber dos poderes de Manhattan resolve realizar estratégias bélicas para se defender de um possível ataque, ainda mais quando o governo EUA o utiliza para ganhar a Guerra do Vietnã, com participação do Comediante, que era um serviçal do governo. As investigações de Rorschach acabam por desvendar um plano muito além do que apenas silenciar o antigo grupo de super-heróis, modificando os caminhos geopolíticos e sociais do planeta.

Watchmen é um drama com tantas camadas de assuntos que seria leviano tentar abordar todos em um texto apenas. Há muitas referências científicas, filosóficas, literárias, éticas e morais que acabaram por render a notoriedade que a HQ alcançou, sendo a única a estar na lista da revista TIME de melhores romances, além de diversas premiações, como o prêmio Eisner Awards. São dois os pontos que mais me chamaram a atenção na obra: o primeiro é o fato dos super-heróis serem humanos. Exceto Dr. Manhattan, que virou um ser com poderes devido ao acidente nuclear, todos, todos os mascarados são pessoas comuns, com medos, anseios, dúvidas, alucinações e todo pacote de sentimentos e reações que um ser humano tem. Esse grupo de super-heróis aposentados, já são substitutos de um outro grupo, os Homens-Minuto, primeira leva de heróis que atuou na década de 40, cujos integrantes aposentaram-se porque quiseram, porque ficaram velhos, porque se desiludiram, porque enlouqueceram, porque sumiram ou por qualquer outro motivo. Não há aqui heróis que caíram de meteoros, que viveram para todo o sempre, que atravessam o tempo e espaço ou que atiram teias de aranha. São pessoas movidas por interesses próprios e que são heróis por terem treinado e colocado uma máscara. E basicamente isso.

wA própria concepção psicológica dos personagens os apresenta como pessoas comuns, dentro de suas características: O Coruja é uma cara inteligente, com certo nível social, solitário, tímido e que não possui um ímpeto de valentia geralmente exposto na caracterização de super-heróis; o Comediante é um tipo militar, com ares de facínora, que cria uma persona irônica para sufocar aflições causadas pelo seu aguçado senso de percepção da alma humana. É violento, cético e de ações pragmáticas. Rorschach é um anti-herói, focado, moralista, guiado por uma conduta própria, à mercê da lei, indo ao limite do bom senso para concretizar suas ações. Espectral (II) substitui sua mãe que foi a primeira heroína mulher, com o mesmo nome. Vive um dualismo: por um lado, tornou-se heroína para manter o legado e orgulhar a mãe; por outro quer abandonar de vez o uniforme porque tem uma relação complicada com a mãe. Ozymandias, cujo nome é Adrian Veidt, é um gênio, o mais atlético e possui um equilíbrio mental impressionante. De todo o grupo é o humano mais poderoso e está quase no limite de ser um herói dotado de superpoderes. Na verdade, seu superpoder é seu cérebro. Por fim, temos Dr. Manhattan, que é o único a ter muitos superpoderes, fruto do acidente que o acometeu. Sua nova concepção existencial o afasta cada vez mais da humanidade, perdendo aos poucos qualquer tipo de empatia por ela.

O segundo ponto que me chamou atenção em Watchmen foi a utilização do contexto histórico da época. Falar sobre a Guerra Fria enquanto ela ainda era uma realidade, criando uma trama com super-heróis – mais humanos do que super -, cujo desfecho desta apontava em direção ao fim da Guerra Fria, algo muito esperado, mas com uma “solução” controversa sob todos os aspectos realmente foi uma virada de página para o mercado das HQs. Watchmen é engenhosa, sofisticada e mais do que tudo isso é o exemplo da coragem criativa de Moore e Giboons. Notável, no entanto, é a constante atualidade da obra. Mais do que tratar da Guerra Fria, o Graphic Novel expõe a sempre preocupante política bélica estadunidense, ancorada em seu Destino Manifesto. A HQ teve seu último capítulo publicado em 1987, completando 30 anos agora em 2017. Desde então, apenas para citar alguns exemplos, os EUA participaram da Guerra do Golfo (1990/91) contra o Iraque, bombardeio contra o exército Bósnio (1995), Conflito do Kosovo (1998/99), Guerra do Afeganistão (2001), Guerra do Iraque (2003) e agora, no dia 7 de abril de 2017, ataque à Síria. Mudam os “inimigos”, mas não mudam as conjunturas.

O que é preciso para chegarmos à paz? Vale sacrificar grupos para que outros possam coexistir pacificamente? Qual o real poder dos governos? Existem heróis? Qual a definição exata de um? E a imortalizada frase em latim, atribuída ao poeta Juvenal, replicada na HQ: “Quem vigia os vigilantes?“. Essas são algumas das perguntas que você refletirá após ler a HQ. Eu li “Watchmen – Edição Definitiva”, capa dura, 460 páginas. Além da compilação completa de todos os episódios originalmente publicados nos anos 80, essa edição oferece leituras extras entre os capítulos, para maior aprofundamento na história, além de comentários de Alan Moore e Dave Gibbons sobre o processo de criação. Há, também, os primeiros esboços dos personagens, inspirados diretamente na linha de personagens da Charlton Comics, que foi adquirida pela DC Comics, e outlines dos primeiros roteiros.

Indico muito o filme e a publicação “Os Bastidores de Watchmen”, que apresenta as artes, o planejamento e uma infinidade de outros documentos de Dave Gibbons, tudo com notas explicativas. Fora isso, há uma série de oito volumes chamada “Antes de Watchmen”, um para cada personagem e mais dois especiais – Dollar Bill & Moloch e Minutemen – que conta a vida dos personagens antes de Watchmen. Essa série, inclusive, gerou brigas sérias entre Moore e a DC e entre ele e Gibbons. Os textos dela não são de autoria de Alan Moore.

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