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10 Frames: Stephen King na Tela Grande

Audiovisual | Leonardo Ribeiro | Literatura 26/08/13 - 04h Leonardo Ribeiro

Sonho de Liberdade3

Um dos autores mais populares da literatura contemporânea, o norte-americano Stephen King, tornou-se parte da cultura pop, com mais de 350 milhões de cópias vendidas de seus livros. Nascido em 1947 na cidade de Portland, King começou a escrever no final da década de 60, chegando a publicar o seu primeiro livro, “Carrie, a Estranha”, em 1974. De lá para cá, o autor já escreveu mais de 50 livros de ficção, 5 de não-ficção e quase 200 contos, quase todos esses publicados em compilações. Sua obra já foi publicada em mais de 40 países, colocando King entre os 10 autores mais traduzidos do mundo. Sua obra é marcada particularmente por histórias de terror e fantasia, quase sempre colocando a população de pequenas cidades do interior em contato com acontecimentos sobrenaturais e criaturas fantásticas.

Apesar de ter virado sinônimo de horror e suspense, a obra de King, que já lhe rendeu mais de 50 prêmios literários, também aborda outros gêneros, como o drama. Todo o sucesso do escritor gerou, desde o início, o interesse de outras mídias em adaptar seus livros. Até hoje já foram produzidos mais de 60 longas-metragens, além de diversos curtas e minisséries para a televisão baseadas em sua obra. Entre ótimas e péssimas adaptações, diversos cineastas renomados levaram os textos de King para a tela grande, como Stanley Kubrick, David Cronenberg, John Carpenter e George A. Romero. Isso sem falar no próprio King, que se arriscou pela primeira (e única) vez na direção em “Comboio do Terror”, filme de 1986 estrelado por Emilio Estevez.

Mesmo para os críticos, é impossível negar o apelo de King junto ao grande público. E para entender melhor a razão desse sucesso, separo aqui 10 das melhores e mais representativas adaptações de suas obras para o cinema.

1) O Iluminado (The Shining) – Dir. Stanley Kubrick – 1980
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Ao ser adaptado por um dos maiores cineastas de todos os tempos, o livro “O Iluminado” acabou se tornando um marco dos filmes de terror. A história do escritor Jack Torrance, que se muda com sua família para um antigo hotel nas montanhas e acaba entrando em uma espiral de loucura causada pela presença de espíritos malignos do passado, presente e futuro do hotel, se mostrou um terreno perfeito para Stanley Kubrick desfilar a sua maestria e apuro técnico. Abusando de belíssimos planos-sequência, que seguiam os personagens pelos longos corredores do hotel, e do uso da steady-cam, Kubrick conseguiu criar um filme visualmente espetacular, construindo uma atmosfera de terror psicológico intensa e repleta de simbolismos, muito bem analisados no recente documentário “Room 237”, de Rodney Ascher. O filme conta com uma magnífica e marcante atuação de Jack Nicholson, além da atriz Shelley Duvall, que considerou a experiência de trabalhar com o exigente Kubrick algo que ela nunca gostaria de repetir, e do garoto Danny Lloyd, que acabou não seguindo carreira. “O Iluminado” possui algumas das cenas mais icônicas da história do cinema de horror, como o encontro de Danny com as gêmeas, a onda de sangue saindo dos elevadores, o momento “Redrum” e o surto psicótico de Nicholson armado de um machado, na antológica cena em que o ator profere a frase “Here’s Johnny!”. Apesar do excelente resultado e de admirar a técnica de Kubrick, Stephen King não ficou satisfeito com as liberdades tomadas pelo diretor em relação ao roteiro, tanto que, em 1997, o autor foi um dos produtores de uma minissérie que ele considerava mais fiel a seu livro. Também intitulada “O Iluminado”, a minissérie, dividida em três capítulos de mais de uma hora cada, trazia Rebecca De Mornay no elenco. Apesar de possuir maior fidelidade, essa nova versão não tinha nenhum traço da genialidade de Kubrick.

2) Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption) – Dir. Frank Darabont – 1994
Sonho de Liberdade3Baseado no conto “Rita Hayworth and Shawshank Redemption”, o filme “Um Sonho de Liberdade” pode ser considerado a mais bem sucedida adaptação de uma história de King fora do gênero de terror. Indicado a 7 Oscars, mesmo sem ter levado nenhum prêmio, o filme narra a história de Andy Dufresne (Tim Robbins), um homem injustamente acusado e condenado pelo assassinato de sua esposa, que durante a sua pena na prisão de Shawshank busca uma maneira para encontrar a sua liberdade. Grande sucesso de público e crítica, o longa é considerado por muitos um dos melhores filmes da década de 90, e com méritos. O roteiro baseado no conto de King é muito bem desenvolvido, a direção de Darabont é extremamente segura e eficaz e as ótimas atuações de Robbins e de Morgam Freeman garantem um resultado muito acima da média. O sucesso foi tanto, que Darabont repetiu a fórmula, adaptando outro drama de King em 1999, com “À espera de Um Milagre”. Novamente a dobradinha entre o diretor e o autor agradou a espectadores e críticos.

3) Carrie, a Estranha (Carrie) – Dir. Brian De Palma – 1976
Carrie3 (650x285)Dois anos após seu lançamento, o primeiro livro de Stephen King, “Carrie, a Estranha”, ganhou sua versão cinematográfica pelas mãos do grande Brian De Palma. Na história, a personagem-título, interpretada por Sissy Spaceck, é uma tímida garota de 17 anos, que vive sob as rígidas regras de sua mãe possessiva, abusiva e fanática religiosa, interpretada de forma marcante por Piper Laurie. Carrie, que aos poucos descobre ter poderes paranormais e de telecinese, é obrigada a enfrentar também o “bullying” praticado pelos alunos de seu colégio, culminando em uma reação explosiva da garota durante a sua festa de formatura. Contando com a direção primorosa de De Palma, o filme é marcado por sequências que se tornaram clássicas, como banho de sangue na formatura, ou cena em que Carrie menstrua no vestiário da escola, em uma das várias analogias feitas sobre a puberdade e a descoberta da sexualidade presentes no longa. As belas atuações de Spacek e Laurie foram indicadas ao Oscar. Em 1999, o filme ganhou uma fraca continuação, “A Maldição de Carrie”, e um remake mediano feito para a TV foi lançado em 2002. Uma nova refilmagem para o cinema será lançada ainda esse ano com Chloë Moretz no papel de Carrie e Julianne Moore, como sua mãe.

4) Conta Comigo (Stand By Me) – Dir. Rob Reiner – 1986
Conta Comigo (650x297)Tomando como base o conto “Outono da Inocência – O Corpo”, presente na coletânea “As Quatro Estações”, o diretor Rob Reiner cria em “Conta Comigo” um dos maiores tratados da história do cinema sobre a infância e a amizade. A trama é narrada do ponto de vista de um escritor que relembra a sua infância em uma pequena cidade do interior, em especial um dos fatos mais marcantes dessa época, quando ao lado de três amigos saiu em busca do corpo de um jovem desaparecido na floresta. A aventura transforma-se em uma jornada de amadurecimento e autodescoberta, que transformaria a vida dos quatro garotos. Tirando seu título da canção Stand By Me, de Ben E. King, o diretor Reiner conduz o roteiro indicado ao Oscar com extrema sensibilidade e sinceridade, auxiliado pelo ótimo elenco: Will Wheaton, atualmente mais conhecido como o amigo/inimigo de Sheldon em “The Big Bang Theory”, o então gordinho e hoje galã Jerry O’Connell, a figurinha carimbada dos anos 80 e um dos reis da Sessão da Tarde, Corey Feldman e o talentoso, e precocemente falecido, River Phoenix, irmão mais velho de Joaquin Phoenix. Além das presenças de Kiefer Sutherland e de Richard Dreyfuss. A ambientação da história no estado americano do Maine é uma das marcas registradas de King, que utiliza seu estado natal como cenário para boa parte de suas histórias. Como curiosidade, vale dizer que o diretor Rob Reiner batizou a sua produtora cinematográfica de Castle Rock, nome da cidade em que se passa a trama de “Conta Comigo”. Um verdadeiro clássico moderno.

5) Christine, o Carro Assassino (Christine) – Dir. John Carpenter – 1983
Christine (650x268)“Christine, o Carro Assassino” marca um dos encontros mais aguardados pelos fãs de terror: entre King, o escritor contemporâneo símbolo do gênero e o cineasta John Carpenter, responsável por grandes filmes de terror como “Halloween”, “A Bruma Assassina”, “Enigma de Outro Mundo”, entre outros. Na década de 80, a popularidade de King era tanta, que o filme de “Christine” entrou em produção antes mesmo de o livro homônimo ser lançado. A história mostra Arnie, um adolescente tímido e nerd, interpretado pelo hoje diretor Keith Gordon, que encontra um antigo carro precisando de reparos. Mesmo após ouvir sobre a misteriosa tragédia ocorrida com o dono anterior do carro, Arnie resolve comprar e remontar o Plymouth Fury vermelho e branco, modelo 58. Aos poucos, o jovem percebe que o carro possui uma aura maligna, que acaba influenciando no comportamento do jovem, tornando-o cada vez mais agressivo. O filme explora o desenvolvimento da estranha relação entre o homem e a máquina, que ganha contornos quase sexuais, já que o carro leva o nome de uma mulher, Christine. Mesmo não tendo sido o sucesso esperado na época, hoje o filme é considerado cult, muito pela construção exemplar da atmosfera de suspense realizada pelo velho Carpinteiro. Além de explorar o lado psicológico do relacionamento doentio e possessivo entre Arnie e Christine, Carpenter também cria momentos aterrorizantes, quando o carro assassino toma “vida” e se vinga de todos os inimigos de seu dono. Mais um filme icônico da década de 80.

6) O Nevoeiro (The Mist) – Dir. Frank Darabont – 2007
The MistApós duas adaptações de livros dramáticos de King, o diretor Frank Darabont resolveu explorar um pouco mais o universo de horror do autor. A escolha pelo romance “O Nevoeiro” se mostra um acerto de Darabont. A história possui os elementos típicos da obra de King, colocando a população de uma pequena cidade no Maine às voltas com uma misteriosa neblina que encobre toda a região, trazendo estranhas criaturas que matam qualquer um que tente atravessar a névoa. A trama foca em um grupo de moradores que se refugia em um supermercado, tentando encontrar uma maneira de sobreviver a esse acontecimento inexplicável. O que interessa a Darabont é que, além dos elementos de suspense e terror, a história de King também traz uma profunda análise do comportamento humano. Ao se verem encurralados em um microcosmo, como o supermercado, o terror em relação ao desconhecido começa a afetar o julgamento e as atitudes de todos. O medo abre espaço para que mentes mais fracas sejam manipuladas, o que é mostrado de forma perfeita através da personagem da atriz Marcia Gay Harden, uma fundamentalista religiosa que acredita que a neblina assassina seja uma punição de Deus pelos pecados humanos, e que ela seria um instrumento divino para combater esse mal. A atuação da atriz transforma a personagem em um ser repugnante, um dos vilões mais odiáveis do cinema recente. Enquanto a personagem de Harden ganha “seguidores”, um grupo liderado pelo personagem do ator Thomas Jane busca racionalizar o problema e encontrar uma solução. “O Nevoeiro” acaba sendo muito mais que um suspense bem realizado. É também um estudo desconcertante sobre a natureza humana e ainda uma das mais bem resolvidas alegorias sobre a paranoia norte-americana, a política do terror e o pós-11 de setembro. Tudo culminando em um final forte, devastador e extremamente corajoso para os padrões Hollywoodianos. Um filme até certo ponto subestimado, que merece ser redescoberto.

7) Na Hora da Zona Morta (The Dead Zone) – Dir. David Cronenberg – 1983
zonamuerta.3 (650x312)No início da década de 80, o cineasta canadense David Cronenberg ainda era sinônimo de filmes horror viscerais, como “Calafrios”, “Enraivecida na Fúria do Sexo”, “Os Filhos do Medo”, “Videodrome” e “Scanners”. Por isso, a adaptação do diretor para o livro “A Zona Morta” acabou contrariando as expectativas, resultando em um trabalho mais sóbrio e focado nos desdobramentos psicológicos do terror. O filme narra a história do professor John Smith, papel do sempre competente Christopher Walken, um americano comum que sofre um acidente de carro e passa mais de cinco anos em coma. Ao despertar de seu estado vegetativo, John descobre que sua vida mudou completamente, pois ele adquire poderes psíquicos que o tornam capaz de prever o futuro das pessoas através de apenas um toque. Sua condição começa a afetá-lo psicologicamente, causando um dilema sobre utilizar ou não seus poderes para alterar eventos futuros. Cronenberg dirige tudo com muita classe e um clima constante de perigo. Um dos acertos do diretor está na elaboração das cenas em que o personagem de Walken tem suas visões, colocando-o no meio dos acontecimentos, no lugar das vítimas. O tema de pessoas com poderes sobrenaturais é recorrente na obra de King, tendo sido trabalhado em “Carrie” e também em “Chamas da Vingança”, que foi adaptado para os cinemas em 1984, com Drew Barrymore ainda criança no papel principal. Ainda que possa ter decepcionado os fãs que esperavam um trabalho mais violento e carnal de Cronenberg, “Na Hora da zona Morta” continua sendo um belo suspense. A história voltaria a ser adaptada, dessa vez em forma de série de TV, em 2002. Batizada de “O Vidente” no Brasil, e estrelada por Anthony Michael Hall (“Clube dos Cinco”, “Férias Frustradas”, “Mulher Nota Mil”), a série obteve bastante sucesso e durou 6 temporadas.

8) O Aprendiz (Apt Pupil) – Dir. Bryan Singer – 1998
O Aprendiz (650x266)Após levar um Oscar de melhor roteiro original por seu filme de estreia, “Os Suspeitos”, o diretor Bryan Singer escolheu a adaptação do conto “Apt Pupil” como seu trabalho seguinte. Ao saber do interesse de Synger, reza a lenda que Stephen King vendeu os direitos de seu conto por apenas um dólar. O conto mostra a relação do jovem Todd Bowden (Brad Renfro, outro ator que faleceu precocemente) com seu vizinho veterano de guerra, Kurt Dussander (o excelente Ian Mackellen). Obcecado pelo nazismo e pela história da segunda guerra mundial, Todd começa a chantagear o velho Dussander, quando desconfia que esse tenha sido um oficial nazista ainda procurado por órgãos governamentais. O jogo de gato e rato entre o tutor e seu pupilo é o foco do longa, muito bem dirigido e com atuações fortes. Mesmo tendo obtido apenas um resultado mediano entre público e crítica, e apresentando um final totalmente diferente do conto que o inspirou, o filme marcou o início da parceria entre o diretor e Mackellen, que viria a ser o Magneto nos filmes dos “X-Men”, dirigidos e produzidos por Synger.

9) Louca Obsessão (Misery) – Dir. Rob Reiner – 1990
Louca ObsessaoAssim como Frank Daranbont, o cineasta Rob Reiner também voltou a visitar a obra de King, trocando o drama (“Conta Comigo”) pelo suspense em “Louca Obsessão”. O filme apresenta outro dos temas favoritos de King, tendo um escritor como personagem principal. No caso, o personagem é Paul Sheldon (James Caan), que após sofrer um acidente de carro (outro elemento constante nos livros de King, que, por ironia do destino, sofreria um grave acidente em 1999) é resgatado por uma enfermeira aposentada, Anne (Kathy Bates). As boas intenções de Anne, no entanto, escondem segredos, já que a mulher é fã número um dos livros de Sheldon, e passa manter o escritor em cativeiro, torturando-o para que ele reescreva o destino de uma das personagens favoritas de Anne. Mais uma vez Reiner se sai muito bem na adaptação, rodando quase todo o longa em uma único cenário, a cabana de Anne, e concentrando-se nos diálogos entre a fã obsessiva e o escritor. Pela sua espetacular atuação, Bates foi premiada com o Oscar de melhor atriz, tornando-se a primeira a receber o prêmio maior do cinema norte-americano por um papel em um filme de terror.

10) A Metade Negra (The Dark Half) – Dir. George A. Romero – 1993
Metade NegraOutra obra de King que, assim como “Louca Obsessão” e “O Iluminado”, possui um escritor como personagem principal é “A Metade Negra”. Na história, o inexpressivo escritor Thad Beaumont consegue alcançar o sucesso escrevendo livros de mistério assinando sob o pseudônimo de George Stark. Quando Beaumont resolve realizar um enterro simbólico de Stark para recomeçar sua vida ao lado da esposa, misteriosos e violentos assassinatos começam a acontecer, supostamente praticados pelo alter ego do escritor. “A Metade Negra” foi adaptado para os cinemas em 1993 por outro mestre do terror: George A. Romero. King era um fã declarado de Romero, sendo os filmes de zumbis do diretor uma influência clara para o autor, como a ideia das pessoas refugiadas em um shopping de “Madrugada dos Mortos” sendo reproduzida em “O Nevoeiro”, trocando o local por um supermercado. Romero e King já haviam trabalhado juntos antes, em 1982, na antologia de pequenos contos de terror “Creepshow – Show de Horrores”. O resultado de “A Metade Negra” pode não estar no nível dos melhores longas de Romero, mas merece uma revisão e é importante por sua parceria com King, além de ter sido um dos últimos trabalhos do diretor antes do longo hiato sem novos trabalhos em sua carreira.

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Leonardo Ribeiro

Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Um devoto de São Hitchcock, que tenta unir o prazer de escrever ao prazer de discutir e analisar a sétima arte. Facebook: https://www.facebook.com/leo.sp.ribeiro Twitter: @leospribeiro

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