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Conheça O Racismo Dos EUA Em “A 13ª Emenda” 

Audiovisual | Leonardo Cássio 27/06/17 - 10h Leonardo Cassio

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Em 2015, com “Selma”, Ava DuVernay conseguiu chamar atenção de Hollywood com um filme de protagonismo negro, aclamado por crítica e público. No entanto, o seu trabalho seguinte, o documentário “A 13ª Emenda” (“13th” – 2016 – NETFLIX), chamou atenção mundial para o problema do racismo nos Estados Unidos, que nunca chegou perto de ser devidamente combatido. Com uma linguagem ágil e estética instigante, o documentário apresenta uma tese desconcertante, amparada pela fala de diversos estudiosos e militantes, de que o sistema carcerário norte-americano se alicerçou com o intuito de manter o regime escravocrata abolido em 1865. Parece loucura e antes fosse. A linha de raciocínio, porém, reforçada por diversos dados quantitativos e qualitativos, deixa pouca margem para dúvidas.

A marginalização dos negros não ocorre apenas no Estados Unidos. Em muitos países europeus é possível observar o governo e todo o aparato social voltado para atender as demandas dos brancos. No Brasil, a situação é mais bizarra: o negro, marginalizado socioeconomicamente, é a maioria absoluta em número de pessoas e minoria esmagadora em tudo o que for comparado, como cargos de liderança, cadeiras em universidades, carreira pública, etc. Nos Estados Unidos, por sua vez, a tensão racial não é velada como no Brasil, havendo enfrentamentos de grandes proporções ao longo da história e, passados mais de 150 anos da abolição, considerando os avanços alcançados, o país está longe de começar a erradicar o problema. Na verdade, com Trump na presidência, políticas que buscavam diminuir a desigualdade racial sofreram terrível retrocesso.

O documentário “A 13ª Emenda” começa com o processo de investigação pela Constituição de 1865, assinada na época em que Abraham Lincoln era presidente e cuja a 13ª emenda traz o seguinte texto: “Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado”. Trocando em miúdos: a liberdade de alguém só pode ser cerceada se ele tiver cometido crime e tiver sido julgado por isso. E é aí que começa a treta.

A escravidão era primordialmente um sistema econômico. Com a abolição dela, diversos “senhores” perderam a mão de obra e precisavam repô-la de alguma forma. O negro “livre” não teve uma estrutura que o ajudasse a ser inserido na sociedade. Pelo contrário: ele era preso por crimes de vadiagem, libertinagem e bebedeira, e o encarceramento em massa começou como um modo de manutenção da subalternidade dos negros. O filme “O Nascimento de Uma Nação” (“The Birth of a Nation” – 1915), de D.W. Griffith, ajudou a marginalizar os recém libertos com exaltações à Ku Klux Klan e com a criminalização da imagem do negro, associada à violência, estupro e demais práticas.

A linha histórica de “A 13ª Emenda” apresenta a evolução da população carcerária norte-americana, divulgando anos de equívocos raciais como as Leis Jim Crow, que permitiram a segregação racial até 1965; Depois vieram as leis contra drogas e em prol da “ordem social” pregadas por Nixon e Reagan, que acabaram por encarcerar de forma extremamente desregulada milhões de pessoas, majoritariamente negras e pobres. No documentário, acompanhamos imagens até de Bill Clinton admitindo erros em políticas penitenciárias. O ponto crucial é mostrar que, atualmente, os EUA possuem 25% da população carcerária do mundo, chegando a mais 2,2 milhões de pessoas. Não vou abordar todos os dados para não estragar o documentário, mas uma taxa ínfima, para não dizer ridícula, é julgada. Ou seja: a maior população do mundo prende massivamente negros, que são obrigados a fazer um acordo sem passar por um julgamento justo e o final do ciclo é tornarem-se mão de obra de cadeia privadas controladas por grupos empresarias multimilionários. É um sistema perverso de escravidão muito bem elaborado por décadas.

A diretora faz escolhas acertadíssimas ao colocar os convidados em locações que se assemelham a fábricas e construções pesadas para ampliar os símbolos em torno da mão de obra escrava moderna. A trilha sonora, que conta com Nina Simone, Public Enemy e Dead Prez, é outro trunfo do projeto cinematográfico. Além de tantos acertos, “A 13ª Emenda” é uma vitória por tirar da invisibilidade os carcerários e por correlacionar de forma brilhante – a teoria não é da diretora, mas a pesquisa sim – o racismo estrutural advindo desde a escravidão com as políticas de encarceramento, defendidas por grupos hegemônicos brancos, que fazem parte de patotinhas como ALEC, uma espécie de LIDE norte-americano, que realiza lobbies e determina leis devido ao poderio econômico que possuem.

A diretora opta por não utilizar um discurso vitimista, o que inclui colocar pessoas que são contra as teses dela para dar seus pontos de vista, e não apresenta os argumentos em tom de espetáculo. De forma concisa, consegue colocar na tela imagens e informações de maneira hermenêutica, sendo um documentário com conteúdo profundo, mas não acadêmico e enfadonho. Todos os convidados são notáveis, mas a Ângela Davis é um espetáculo à parte.

“A 13ª Emenda” é uma das obras mais relevantes dos últimos 10 anos. Dos 20, talvez. Um projeto corajoso, bem estruturado, extremamente detalhista e que denota um processo de pesquisa extenso e trabalhoso – durou cerca de 2 anos. É interessante fazer um paralelo com o Brasil. Apesar das diferenças em relação ao tamanho do sistema e do histórico, é inegável que o aparato do Estado trabalha para a subjugação do negro pobre, que sempre aparece nos noticiários sendo preso, como se não houvesse criminosos brancos; que é uma maioria marginalizada socioeconomicamente e, por isso, é o maior contingente da população carcerária; que raríssimas vezes é atendida por políticas de igualdade e que, quando isso ocorre, precisa ouvir que existe racismo reverso e que as políticas reforçam a desigualdade…

É preciso assistir “A 13ª Emenda” com muito censo crítico e vontade de desconstrução. E, para mergulhar ainda mais no assunto, vale ver a entrevista da Oprah com Ava DuVernay, em que conta os bastidores e reverberações do documentário e faz a seguinte reflexão: qual a diferença de duas pessoas que cometem o mesmo crime, sendo que uma paga a fiança e a outra não? Uma fica marcada como criminosa para o resto da vida porque não tinha dinheiro e a outra vai embora e tudo é apagado. Qual você acha que é negro no exemplo?

Ouça a trilha sonora no Spotify: clique aqui

Veja o trailer abaixo:

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