Fechar Menu [x]

A elegância cínica de Billy Wilder

Audiovisual | Leonardo Ribeiro 01/07/13 - 04h Leonardo Ribeiro

BillyWilder

Assim como outros grandes da chamada “Era de Ouro” de Hollywood nos anos 40 e 50, como Hitchcock, Howard Hawks, John Ford e Frank Capra, o nome de Billy Wilder parece ser uma unanimidade entre os cinéfilos de hoje. Com sua obra sendo revisitada e analisada constantemente em livros, publicações cinematográficas e retrospectivas, Wilder cravou seu lugar no seleto grupo de cineastas quase intocáveis, tornando-se uma referência para as novas gerações.

Nascido em 1906, na Áustria, Wilder se mudou para Hollywood em 1933, fugindo do regime nazista. Em Los Angeles, começou sua carreira como roteirista, sendo responsável por alguns clássicos dirigidos por cineastas consagrados, como “Ninotchka”, do mestre da screwball comedy, Ernst Lubitsch. O diretor alemão, com quem Wilder trabalhou novamente em “A Oitava Esposa de Barba-Azul”, viria a ser o seu grande mentor e inspiração para assumir a função de diretor, sem abandonar a de roteirista. A influência do estilo de Lubitsch no trabalho de Wilder é evidente em filmes como “Sabrina”, “Amor na Tarde” e “Avanti”. Não à toa, Billy Wilder se tornaria um sinônimo de comédias, tendo 5 de seus longas do gênero na lista dos 100 Filmes Mais Engraçados do American Film Institute: “Quanto Mais Quente Melhor” (em primeiro lugar), “Se Meu Apartamento Falasse”, “O Pecado Mora ao Lado”, “Bola de Fogo” e o já citado “Ninotchka”, de Lubitsch.

OPecadoMoraaoLadoMesclando os diálogos rápidos da screwball comedy com gags dos mais variados estilos (incluindo a comédia física e o pastelão em alguns momentos), as comédias de Wilder são marcadas principalmente pelo cinismo e pelo sarcasmo de seus textos. Seu humor nunca era vulgar, mas sempre apoiado em diálogos ferinos e ácidos. Wilder também era ousado e gostava de abordar temas considerados tabus. Já em seu filme de estreia como diretor, “A Incrível Suzana”, com Ginger Rogers, Wilder falava de pedofilia. Homossexualidade e transformismo também estiveram em pauta no clássico “Quanto Mais Quente Melhor”, considerado por muitos críticos a grande comédia de todos os tempos, e que trazia Jack Lemmon e Tony Curtis travestidos durante quase toda a projeção. Lemmon seria um parceiro constante de Wilder, tendo estrelado outros 6 filmes do diretor. Outra estrela de “Quanto Mais Quente Melhor” que trabalhou mais de uma vez com Wilder foi Marilyn Monroe, com quem o cineasta fez “O Pecado mora ao Lado”, filme que possui uma das mais icônicas cenas da história do cinema: Monroe na calçada com sua saia esvoaçante.

Mas não é só pelas comédias que Wilder é lembrado, pois ele foi definitivamente um diretor de grande versatilidade, transitando por diversos gêneros, incluindo até filmes de guerra, como “Inferno Nº17”. Wilder também foi responsável por dramas pesados, como “Farrapo Humano”, filme que lhe valeu seu primeiro Oscar de direção (o outro seria por “Se Meu Apartamento Falasse”), e que traz a melhor atuação da carreira de Ray Milland. Outro exemplo é a obra-prima “Crepúsculo dos Deuses”, o filme definitivo sobre os bastidores de Hollywood, que desmistifica o glamour desse mundo para mostrar o seu pior lado, um tema que seria trabalhado novamente pelo diretor no excelente “Fedora”, seu penúltimo trabalho. “Testemunha de Acusação”, suspense baseado na obra de Agatha Christie e estrelado por Tyrone Power, Marlene Dietrich e Charles Laughton, é outro de seus clássicos, que comprova o gosto do cineasta também pelo mistério.

PactodeSangueE se o assunto é mistério, não poderia deixar de ser citado outro trabalho essencial da filmografia de Wilder, e particularmente o meu filme favorito do diretor, o film noir por excelência, “Pacto de Sangue”. Com todos os elementos e arquétipos do gênero elevados à máxima potência, pois Wilder trabalhou no roteiro com ninguém menos do que Raymond Chandler, um dos maiores autores do gênero policial que originou o noir, o cineasta constrói uma atmosfera inigualável de suspense, com a dose certa de ironia, transformando o até então inexpressivo Fred MacMurray no herói (ou anti-herói) perfeito para o gênero, narrando em primeira pessoa a sua turbulenta história que começa – como não poderia deixar de ser – no encontro com a personagem de Barbara Stanwyck, encarnando a loura fatal como poucas outras atrizes conseguiram faze-lo. Em “Pacto de Sangue” temos o exemplo perfeito da elegância de Wilder, falando da sordidez e da ambição humana com extremo refinamento.

Com tantas obras emblemáticas, fica fácil entender o fascínio e a reverência dos cinéfilos à obra de Wilder, e o porquê de tantas mostras que a revisitam. O último exemplo é a Mostra com a obra completa do cineasta organizada pelo CineSESC em São Paulo, e que termina na próxima quinta-feira (04/7). Mesmo na reta final, ainda é possível conferir alguns dos melhores filmes do diretor da maneira que merecem ser apreciados: na tela grande e em cópias restauradas. Uma ótima oportunidade para quem quer ver pela primeira vez, ou ter o prazer de rever, pois “Quanto Mais Wilder Melhor”!

Mostra Billy Wilder
De 21 junho a 04 de julho

CineSESC – R. Augusta, 2075 – Cerqueira César São Paulo, 01413-000
11 3087-0500
Para mais informações e programação completa (com filme e horários) acesse: Site do Sesc

Tags: , , , ,

COMPARTILHE ESTE POST

COMPARTILHE

COMPARTILHE

Leonardo Ribeiro

Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Um devoto de São Hitchcock, que tenta unir o prazer de escrever ao prazer de discutir e analisar a sétima arte. Facebook: https://www.facebook.com/leo.sp.ribeiro Twitter: @leospribeiro

RELACIONADOS