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“A Imagem Que Falta” e a dor de uma memória que não pode ser apagada

Audiovisual | Leonardo Ribeiro 25/02/14 - 01h Leonardo Ribeiro

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Entre 1975 e 1979, o Camboja viveu sob o regime totalitarista do Khmer Vermelho. Derivado do Partido Comunista do Kampuchea e liderado pelo “Irmão Número Um”, Pol Pot, o regime do Khmer Vermelho implementou medidas extremas, que incluíam o isolamento do país das influências estrangeiras, o fechamento de escolas, hospitais e fábricas, a abolição do sistema bancário, finanças e da moeda nacional, a proibição de todas as religiões, o confisco de toda propriedade privada e a transferência da população de áreas urbanas para fazendas coletivas.

Todas essas medidas, aliadas às políticas de engenharia social e à insistência em sua autossuficiência, levaram ao genocídio de mais de 2 milhões de pessoas, em decorrência da fome e pobreza generalizadas, do não tratamento de doenças curáveis, além de execuções brutais e arbitrárias realizadas pelo exército. Entre os que sofreram as consequências deste período de terror na história cambojana estava o cineasta Rithy Panh (“Uma Barragem Contra o Pacífico”), que ainda criança viveu nos campos de trabalho forçado nas plantações de arroz e viu sua família e amigos morrerem das mais diversas maneiras.

1891299_673820536010557_1428182357_nApós o fim do regime do Khmer Vermelho, Panh refugiou-se na Tailândia e por fim radicou-se na França, onde estudou cinema e até hoje realiza os seus trabalhos. O mais recente deles é este “A Imagem Que Falta”, em que o cineasta parte da busca frustrada por registros, fotográficos ou cinematográficos, dos atos atrozes cometidos em seu país. O tema sociopolítico é uma constante na obra de Panh, desde filmes de ficção como “Condenados à Esperança” até documentários como “S21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho”, mas aqui o cineasta aposta em uma abordagem pouco convencional e mais ousada. A estrutura e a linguagem predominante de “A Imagem Que Falta” são documentais, mas para suprir a ausência de registros oficiais de seu relato, Panh mescla as imagens de arquivo e sua narração em off a reconstituições feitas através de bonecos e cenários moldados em barro.

O traço rústico e aparentemente simples dos bonecos se torna uma ferramenta visual poderosíssima nas mãos de Panh, pois carrega consigo simbolismos fortes e antagônicos. Se por um lado há a evidente referência religiosa do homem feito de barro, portanto, do surgimento da vida, os personagens imóveis de expressões uniformes representam a desumanização da população do Camboja, privada de todas as suas formas de civilidade para servir de meros fantoches, ou bonecos, para os líderes do Khmer. É o outro lado da moeda, o da ausência de vida.

missing-picture-the-2013-007-dancer-on-film-and-figurines-filmingMesmo com a simplicidade dos bonecos de argila, o filme apresenta uma composição visual muito rica e complexa. Panh utiliza com perfeição o trabalho de edição, bem como sua emotiva e marcante trilha sonora, para transmitir todos os sentimentos, em especial a dor de quem vivenciou de perto todos os horrores deste regime totalitário. “A Imagem Que Falta” é, portanto, um filme extremamente pessoal, mas que ao mesmo tempo traduz a experiência de milhões de outras pessoas. Por vir de uma família que primava pelo conhecimento, seu pai era professor, e por ter uma formação privilegiada, Panh apresenta embasamento para propor diversas discussões filosóficas em seu discurso, além de tentar compreender as motivações do Khmer.

Obviamente, a denúncia dos crimes contra a humanidade cometidos pelo regime é contundente, mas acima de tudo, o cineasta parece querer mostrar como uma ideologia, que a princípio possui a melhor das intenções (como a igualdade para todos e o fim das diferenças de classes) pode ser deturpada em seu percurso, pois o fator humano, com seus defeitos e contradições, quase sempre prevalece sobre o ideológico.

Em meio à amargura de suas memórias, Panh ainda encontra espaços para inserir poesia e até a fantasia, como quando coloca o seu “personagem” a flutuar sobre os cenários, relembrando as imagens dos astronautas norte-americanos pisando pela primeira vez na Lua. Afinal, mesmo com todo o terror presenciado pelo cineasta, existe uma memória infantil e afetiva ligada a tudo isso. E com isso, sua escolha por uma linguagem mais lúdica ganha um sentido ainda mais amplo. Panh utiliza seu longa para exorcizar os fantasmas de seu passado, como fica bem ilustrado nas cenas finais, em que o personagem do diretor se vê deitado em um divã, e também para evidenciar o papel do cinema como uma ferramenta política.

MISSING-PICTURE-pic-2_3Pois “O Cinema é a revolução”, afirma o diretor. Seja a revolução fantasiosa, onde tudo ocorre na mais perfeita harmonia, como a que é mostrada nos filmes de propaganda realizados pelo Khmer (algo de praxe em todos os regimes totalitaristas, como o Nazismo) ou neste trabalho que apresenta ao mundo uma verdade até então escondida. Para Panh, mesmo que um homem tenha visto coisas que nunca deveria ter visto, ele não deve enterrá-las para que caiam no esquecimento, mas sim exibi-las ao máximo de pessoas possível, para que de alguma forma isto crie uma consciência coletiva que impeça a repetição destes atos de atrocidade.

Ao fim, o cineasta não encontra a imagem que faltava em meio aos destroços de seu povo, mas a sua recriação desta imagem é poderosa o suficiente para comover e permanecer no imaginário de todos os espectadores. Panh cria assim uma obra reveladora, cuja ousadia e ambição artísticas só são superadas por sua importância e seu impacto histórico.

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Leonardo Ribeiro

Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Um devoto de São Hitchcock, que tenta unir o prazer de escrever ao prazer de discutir e analisar a sétima arte. Facebook: https://www.facebook.com/leo.sp.ribeiro Twitter: @leospribeiro

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