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Apenas Uma Noite

Audiovisual 21/06/12 - 05h Cult Cultura

Traição, mentiras, relacionamentos inacabados, paixões do passado, desejos inesperados. Todos esses temas são abordados em “Apenas Uma Noite” da iraniana Massy Tadjedin. Infelizmente, a abordagem da cineasta resulta muito menos interessante do que esses assuntos poderiam sugerir. Joanna (Keira Knightley) e Michael (Sam Worthington) formam um casal jovem, moderno, que se conheceram e começaram um relacionamento ainda quando os dois estavam na faculdade. Ela é uma escritora que nunca desenvolveu totalmente o seu potencial (mostrado em seu primeiro e único livro publicado) e vive de escrever artigos sobre moda. Ele é um bem-sucedido executivo, sempre atarefado com seu trabalho.

A vida conjugal, até então quase perfeita do casal, é abalada quando durante uma festa da empresa de Michael, Joanna percebe um interesse mútuo entre o marido e sua bela colega de trabalho, Laura (Eva Mendes). Voltando para casa, os dois discutem por conta do ciúme da escritora, discussão que só aumenta ao saber que seu parceiro fará uma viagem de negócios no dia seguinte ao lado da possível amante. Por uma grande coincidência do destino, na manhã seguinte, após a partida do marido, Joanna encontra Alex (Guillaume Canet), uma antiga paixão que ainda provoca sentimentos intensos na jovem.

Ficam estabelecidas desde já as duas situações que servirão como prova para fidelidade do casal protagonista. O amor entre os dois é evidente, mas também é perceptível o desgaste da relação. Os questionamentos sobre se eles se casaram muito cedo, ou se realmente ainda existe a mesma paixão de outrora só crescem nesse momento, e é aí que as tentações parecem surgir de todos os lados. Essas questões são interessantes, mas são sabotadas pela direção frouxa da cineasta estreante. Roteirista de filmes como “Camisa de Força” de John Maybury, Tadjedin demonstra ainda não ter a segurança necessária para conduzir um filme ancorado quase totalmente em longos diálogos e com pouca ação. A diretora tenta dar uma cara moderna e elegante a seu trabalho, mas acaba fazendo diversas opções equivocadas, como a irritante montagem que realiza cortes a cada 5 segundos em cenas totalmente triviais, um recurso geralmente utilizado para mostrar algum avanço temporal na cena, mas que aqui não possui nenhuma serventia. Sutileza também não é o forte da iraniana, que nas poucas tentativas de incluir alguma metáfora ou elemento simbólico na trama, esbarra na infantilidade. Um exemplo é sequência em que Alex e Joanna estão no bar do hotel onde o francês está hospedado. Quando, após tomarem um drink, ele a convida para jantar com um casal de amigos, a cena corta bruscamente para a imagem de um sinal de trânsito com a luz verde acesa, simbolizando um “sinal verde para a traição”, algo que soa totalmente gratuito e não se encaixa com naturalidade na mise en scène.

O roteiro da própria Tadjedin opta por dar muito mais espaço para Alex e Joanna do que para Michael e Laura. Essa escolha é até compreensível, já que eles dividem uma história, um passado juntos. Os dois tiveram um caso rápido e intenso em Paris, quando Joanna e Michael estavam separados. E foi após terminar com Alex que a jovem resolveu reatar a relação anterior e se casar. O fato dos dois serem artistas (escritores) também contribui para que seu tempo de tela seja maior, as discussões entre a dupla não são só sentimentais, mas também intelectuais. Knightley e Canet conseguem segurar bem seus papéis, ainda que não sejam especialmente marcantes. São apenas competentes.

Do outro lado desse “quadrilátero amoroso”, Mendes e Warthington têm menos com o que trabalhar. A relação de seus personagens é muito mais física, portanto seus diálogos são muito mais diretos. Fica evidente também que as limitações do ator inglês foram fator determinante para essa decisão do roteiro. Mantendo a mesma expressão apática em quase todas as cenas, Warthington não consegue convencer, enquanto Mendes esbanja beleza e sensualidade como sempre, e nas poucas chances que o texto lhe dá consegue imprimir alguma tridimensionalidade a sua personagem. Para elevar o nível das atuações, a participação do veterano e sumido Griffin Dunne (astro dos anos 80 em filmes como “Depois de Horas” e “Um Lobisomem Americano em Londres”), como Truman (amigo e editor de Alex) acaba sendo uma das melhores coisas do filme. O ator consegue trazer um humor inteligente muito bem-vindo a história.

No final das contas fica a sensação de que em mãos mais habilidosas e com um elenco a altura, os conflitos propostos pelo roteiro poderiam ter se transformado em um filme bem melhor. Existem alguns bons diálogos e momentos bem resolvidos, como a cena da piscina entre Michael e Laura, ou quando Joanna e Alex estão no apartamento de um amigo do trabalho de Michael e finalmente deixam os jogos de lado, falando francamente sobre o seu passado. Mas quando um filme precisa apelar para as graças feitas por um cachorro para conseguir maior empatia do público, é porque não existe confiança total de seus realizadores no material que estão produzindo.

Assim, a tradução nacional do título acaba realmente definindo bem a impressão em relação ao produto final: um passatempo sem maiores pretensões. Pois em “apenas uma noite” pode até ser possível se divertir e viver uma paixão calorosa, mas as chances de algo mais profundo e significativo são bem menores.

Por Leonardo Ribeiro

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