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Calada Noite é uma Ode aos Amantes da Madrugada

Audiovisual | ENTREVISTAS | Thais Polimeni 15/04/15 - 09h Thais Polimeni

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Tem alguns projetos audiovisuais que me inspiram. A televisão gera muitas discussões entre os que a amam e odeiam. Assim como tudo nessa vida, há coisas boas e ruins (considerando que “bom” e “ruim” é bem relativo) na TV, mas confesso que sou uma #GNTlover (isso poderia ser um publieditorial, mas não é, hahaha). Tento deixar minha agenda livre pelo menos às quartas-feiras, pra poder assistir à seguidinha “Saia Justa” – “Amor Veríssimo” – “Calada Noite“.

Já consegui instaurar em casa a tradição de ver “Saia Justa” – considerando que é no mesmo dia e horário do futebol, é uma conquista e tanto! -, porém no horário que passa “Amor Veríssimo” e “Calada Noite” o máximo de companhia que consigo para assistir a esses programas é meu smartphone. Sim, sou a única notívaga de casa e por isso “Calada Noite” me inspirou tanto.

Idealizado pela apresentadora Sarah Oliveira e pelo cineasta Esmir Filho, “Calada Noite” valoriza os notívagos. Mostra que a noite não foi feita apenas pra dormir e que há vida além do pôr do sol. A maioria dos entrevistados (são vários por programa) atua na área da cultura e economia criativa, mas também há profissionais de outras áreas, como saúde, da qual foram entrevistados dentista e veterinário.

Poder trabalhar em horários flexíveis é um privilégio concedido a poucos. É não pegar trânsito ou transporte coletivo lotado, é pagar mais barato na academia ou em cursos – por causa da procura menor, é poder almoçar com a família. Ser notívago e ter horários flexíveis é poder chegar tarde sem atrapalhar o trabalho no dia seguinte, é se inspirar no horário que o seu corpo prefere, é exercitar a autodisciplina e é, também, receber olhares de reprovação da maioria da população que “só vê as piga que eu bebo, não vê os tombo que eu levo“.

Fizemos uma entrevista com a Sarah Oliveira sobre o “Calada Noite” e sobre os hábitos dos amantes da noite. Assim como o programa, foi uma entrevista transformadora!

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Você sempre foi notívaga assumida? Se não, a partir de que momento você passou a se declarar notívaga?
[SARAH OLIVEIRA] Eu sou super notívaga e tive a ideia de fazer o “Calada Noite” por causa disso. Logo na abertura do primeiro episódio, falo isso [se você tiver GNTplay, assista aqui]. Meus projetos no GNT sempre são autorais e eu os crio e formato com o Esmir Filho, que é meu irmão e me conhece muito, e a equipe dele, da Saliva Shots (produtora do programa).

Este é o terceiro projeto que criamos para o GNT. Então tem muito da minha vivência nas pautas. Eu sempre produzi muito mais à noite e minha cabeça sempre funcionou melhor e com mais clareza. O dia tem muitas interferências e ruídos, só consigo pensar de maneira mais aprofundada e sensibilizada, à noite.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Como é ser notívaga em uma sociedade diurna?
[SARAH OLIVEIRA] Sempre foi muito difícil ser notívaga e eu sofria bastante com isso. Achava que tinha insônia na adolescência e tals. Depois, vi que era uma disposição extra que algumas pessoas têm, e vi que não estava sozinha. Então, criar e colocar o Calada Noite no ar, me ajudou a entender melhor isso.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Em 2007, a Suécia criou horários de aula e estabelecimentos comerciais voltados notívagos. Você acha que isso pode chegar ao Brasil algum dia?
[SARAH OLIVEIRA] Acho que algumas empresas já têm esta postura aqui. Na minha área de audiovisual acontece bastante, mas em outras áreas, ainda é muito rígido. Muitas pessoas que entrevistei procuraram trabalhar em turnos diferentes (como uma dentista e um veterinário que trabalham em consultórios 24h), pois não se adaptavam. As pessoas vão dando os seus jeitos. Tinha uma funcionária aqui em casa, que entrava às 10h, pois preferia esse horário, e era possível. Mas acho que ainda falta muito. E vai demorar. Tem outras questões mais urgentes que ainda estão em defasagem, como mobilidade urbana, racismo, homofobia, etc…

calada-noite-sarah-oliveira[CULT CULTURA | Thais Polimeni] No Brasil, São Paulo é conhecida como a cidade que não dorme, porém, não é fácil encontrar locais que funcionem 24 horas, com exceção de padarias e lojas de conveniência. Esses dias, saí com algumas amigas e, depois do jantar (já era mais de meia-noite), decidimos ir a algum bar pra continuar a conversa. Com exceção de pubs, não encontramos nenhum bar onde pudéssemos ficar sem nos preocuparmos com o horário de saída. Acabamos parando na Ofner 24 horas (risos). É impressão minha ou está difícil encontrar locais abertos na madrugada de São Paulo?
[SARAH OLIVEIRA] São Paulo está fechando muitos estabelecimentos que ficavam 24h por causa da violência. Isso é triste. Eu adoro ver a cidade acordada. Gravamos sempre das 19h às 4h/ 5h e estamos vendo isso acontecer. A gente tem que valorizar estas pessoas que trabalham à noite. Precisamos delas. Sinto que isso pode mudar se tiver investimento em segurança.

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Como foi feita a seleção de artistas e demais profissionais para participarem do programa?
[SARAH OLIVEIRA] Eu e a equipe pesquisamos muito sobre artistas notívagos e sobre profissões e pessoas que elegem a noite como melhor momento do dia. A partir destas pesquisas, contratamos uma produtora de elenco e estamos indo atrás destes anônimos de todas as áreas possíveis e inimagináveis. Dá o maior trabalho achar estas figuras, mas eu tô muito feliz com o resultado. Está sendo um mergulho superinteressante. Eu amo gravar, óbvio, mas também amo os processos… Pre-produção de anônimos e elenco, roteiro, produção, reuniões de pauta, montagem, trilha sonora…

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Além de São Paulo e Rio de Janeiro, você gravou o programa em mais algum lugar?
[SARAH OLIVEIRA] Nesta temporada, só gravamos em São Paulo e Rio, mas falamos com gente de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba (BH e Curitiba são cidades MUITO notívagas!), Belém, Campinas, Teresina, etc…

[CULT CULTURA | Thais Polimeni] Cada episódio do “Calada Noite” abre a mente para um novo olhar sobre trabalho, relacionamentos e hobbies. Você sentiu alguma transformação interna – de pensamento, conceito ou atitude – após ter feito as entrevistas, colhido os depoimentos e acompanhado as gravações de imagens noturnas das cidades?
[SARAH OLIVEIRA] Estou trabalhando neste projeto desde agosto de 2014 e estamos cruzando com muita gente curiosa… Já fomos pescar na madrugada com um garçom, que disse algo lindo: “Às vezes, pescar me descansa mais do que dormir. Pescar é meu sono. Não sou louco, acho que o tempo que me fez ao contrário“. Às vezes as pessoas falam coisas muito profundas sem se darem conta.

Já gravamos com uma bailarina que ensaia com seu grupo até 3 da manhã, um artista plástico que só cria no silêncio absoluto… Com uma mulher que tem uma ONG que cuida de crianças com câncer, ela passa o dia cuidando da saúde dela (ela também é paciente oncológica) e, à noite, vai andar de skate no viaduto Santa Ifigênia pra espairecer. E faz isso quase toda noite, depois das 23h, quando fica vazio… Fizemos imagens lindas dela ali…

Talvez seja o programa mais trabalhoso e mais bonito que já fiz e, portanto, está sendo transformador. Me emociono com muitos depoimentos.

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Calada Noite
Quarta-feira, 23h30
Canal GNT

Apresentação: Sarah Oliveira
Idealização: Sarah Oliveira e Esmir Filho
Produção: Saliva Shots

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Thais Polimeni

Thais Polimeni

Thais Polimeni é editora e uma das fundadoras do blog Cult Cultura e, ao lado de Leonardo Cassio e Daniel Ávila, é sócia-diretora da Carbono 60 - Economia Criativa. Publicitária, jornalista, paulistana, tiete e geminiana, Thais é viciada em teatro, cappuccino e wi-fi. Dizem que é descendente direta de Buda, mas na TPM, nem ela se aguenta. É colunista do Jornalirismo e tem seu alter-ego publicado aqui: facebook.com/thaisPOULAINmeni

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