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#CultIndica: Quem São Os Capacetes Brancos?

Audiovisual | CultIndica | Leonardo Cássio | Slider 19/05/17 - 10h Leonardo Cassio

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Vencedor do Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem em 2016, “Os Capacetes Brancos” (The White Helmets – original Netflix) conta a história do grupo de civis composto por quase 3 mil pessoas que realiza salvamentos durante os bombardeios que ocorrem diariamente na Síria. Os 40 minutos do documentário dirigido por Orlando von Einsiedel mostram a dura realidade de Khalid Farah, Mohammed Farah e Abu Omar em meio ao caos do país do Oriente Médio, alternando depoimentos com cenas reais de salvamentos e um treinamento feito no país vizinho, Turquia. O original da Netflix traz ao espectador cenas incômodas, uma em especial envolvendo o socorro a um bebê, em um dos piores lugares para se viver atualmente.

Do ponto de vista artístico, o documentário é bem simples. Alterna falas dos protagonistas com cenas reais, sem aprofundamento. O foco é impactar com algumas imagens, que não devem ter sido fáceis de captar, e sensibilizar através dos depoimentos. De fato, as imagens da cidade causam desconforto. É inimaginável viver na Síria. É uma vastidão sem fim de escombros, poeira, fumaça e bombas. Terrível. Mas o documentário não vai além. Não sabemos como surgiram os Capacetes Brancos e nem quem os mantém, uma vez que os treinamentos são complexos e a quantidade de gente que participa é enorme. Justamente por não ter essas respostas que resolvi fazer uma pesquisa rápida e percebi que há imagens bem difusas sobre Os Capacetes Brancos. O documentário não teria tempo, no formato pensado, de explicar todas essas questões – algumas seriam possíveis e até necessárias -, mas vamos fazer uma contextualização:

A Organização das Nações Unidas (ONU) identifica a Guerra Civil na Síria como a principal crise humanitária do século XXI. Imagino, inclusive, que tratam como guerra civil apenas pelo balaio de gato que é o conflito, pois está mais para massacre civil do que qualquer outra coisa. Estimativas de diferentes fontes, como Observatório Sírio de Direitos Humanos e ONU, apontam que morreram entre 300 e 400 mil civis e que o êxodo de sírios para outros países atingiu a marca de 4,5 milhões de pessoas, com uma migração dentro do país de mais de 6 milhões de pessoas, que buscam regiões mais afastadas das principais zonas de conflito.

A Guerra Civil teve início em março de 2011. Algumas pessoas que escreveram frases contra o governo do ditador Bashar Al-Assad, no poder desde 2000, sucedendo seu pai que havia governado o país por 30 anos, foram presas, culminando em manifestações contra a detenção dos jovens e, posteriori, contra a repressão e truculência do governo. Inspirados na Primavera Árabe, movimento que ocorreu em alguns países do Norte da África, como o Egito, e em países do Oriente Médio, onde milhares de pessoas foram às ruas para derrubar ditaduras longevas no poder, os sírios, especialmente os jovens, organizaram levantes contra Bashar Al-Assad, principalmente na capital do país, Damasco, e na segunda maior cidade, Aleppo, iniciando-se um conflito que dura até hoje e não se vislumbra horizonte para acabar.

O principal problema do conflito é que ele descaracterizou-se de tal forma que mal se sabe o que ocorre. Quando o conflito entre governo e civis se intensificou, o Estado Islâmico, que atua na região, aproveitou a instabilidade política e social e entrou com tudo em algumas regiões da Síria para impor seu califado. Ao mesmo tempo, a Frente Al-Nusra – ligada a Al Qaeda – também se aproveitou da fragilidade na região e começou com as ações extremistas.

Não bastasse todo o horror imposto pelo Al-Nusra e o Estado Islâmico – principalmente esse, que ocupa hoje metade do país -, os conflitos sectários e separatistas também eclodiram. Os sunitas buscam a derrubada de Bashar Al-Assad, que é xiita, e tem apoio de Arábia Saudita, Turquia e Estados Unidos. Os “rebeldes” – que lutam contra o governo – têm financiamento dos Estados Unidos e apoio da Turquia, onde são treinadas as brigadas dos Capacetes Brancos. Essa é a principal crítica: eles declaram salvar qualquer pessoa vitimada pelo conflito, mas grupos que acompanham a guerra de perto dizem que não é bem assim, havendo diferenciação entre quem é a favor e quem é contra o governo sírio.

Por incrível que pareça, há mais dois pontos que pioram a situação na Síria: a atuação dos Curdos, uma etnia espalhada pelo Oriente Médio que busca a implementação do Estado do Curdistão, atuando no norte da Síria. O grupo é contra os rebeldes e o Estado Islâmico e acaba sendo uma vantagem para o regime de Assad. A intervenção da Rússia e dos Estados Unidos é tão preocupante quanto a existência do Estados Islâmico. Os dois países querem o fim do Estado Islâmico, só que os EUA não apoiam o governo sírio e a Rússia, ao contrário – como sempre… – apoia o atual presidente. Os dois são responsáveis por boa parte dos bombardeios diários que, adivinhe, matam muitos civis. A Síria faz fronteira com a Turquia, porta de entrada para o Leste Europeu, e com o Iraque, zona de interesses econômicos por conta da presença de gás e petróleo. Ou seja: a Síria está perdida.

É nesse inferno que civis corajosos atuam diariamente para minimizar a dor das pessoas – mais de 60 mil foram salvas. Apesar de possíveis problemas com relação ao financiamento, ligações escusas com governos e etc., com certeza a maioria ali trabalha de peito aberto, com bastante coragem, em prol de pessoas que estão sendo mortas e nem se sabe mais por quem. Os Capacetes Brancos foram indicados ao Nobel da Paz – perdendo para o Presidente da Colômbia que selou acordo com as FARC – e, com o documentário vencendo o Oscar, ficaram mundialmente conhecidos.

O documentário tem mais valor pela divulgação da história do que por questões artísticas. É muito válido assisti-lo, mas é importante que as pessoas pesquisem mais sobre, pois os problemas na Síria são extremamente mais graves do que superficialmente vemos. Veja o trailer abaixo:

Além do documentário, indicamos uma visita ao site da entidade e uma matéria da BBC com mais detalhes sobre o conflito. Finalizando, o diretor e ator George Clooney com o produtor Grant Heslov adaptarão o documentário para ficção, que talvez trate dos pontos não abordados na presente obra.

 

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