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Círculo de Fogo, o sonho nerd de Guillermo Del Toro

Audiovisual | Leonardo Ribeiro 19/08/13 - 02h Leonardo Ribeiro

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Clichês não precisam necessariamente ter uma conotação negativa. Quando bem trabalhados, eles ainda podem render um entretenimento de alta qualidade, como é o caso de “Círculo de Fogo”, do cineasta mexicano Guillermo Del Toro. Em seu mais novo trabalho, Del Toro realiza um sonho nerd ao trazer de volta para a tela grande dois subgêneros da ficção científica originários do Japão e muito queridos pelo público: os filmes de Kaiju, palavra japonesa usada para denominar monstros gigantes, como Godzilla, Gamera e Mothra, e as produções de tokusatsu, calcadas nos efeitos especiais, robôs e super-heróis, como os seriados Jaspion, Black Kamen Rider, Ultraman, Spectreman, entre outros.

Seguindo uma trama extremamente simples e direta, Del Toro não perde tempo, e na primeira sequência já apresenta a humanidade às voltas com os monstros gigantes que, aos poucos, começaram a invadir a Terra, surgindo através de uma fenda no fundo Oceano Pacífico. Para se defender dos ataques que aumentavam gradativamente, os governos de todos os países se uniram para a construção de seus “próprios monstros”, robôs gigantes conhecidos como Jaegers e comandados por dois pilotos através de uma ligação neural que permite que um piloto possa entrar na mente do outro e assim coordenar com precisão os movimentos dos robôs. Com os Jaegers sendo a única arma de defesa dos humanos, seus pilotos acabam se tornando celebridades, verdadeiros rock stars. Logo, além da guerra contra os Kaijus, surge também uma disputa de egos entre os pilotos estrelas.

Pacific-Rim-Poster-1024x640A partir dessa introdução, o que vemos na tela é uma sucessão de batalhas entre monstros e robôs gigantes, para a alegria daqueles que viveram os anos 80 e 90 assistindo à programação das tardes na Rede Manchete. Se o filme funciona, primeiramente é porque Del Toro entrega o que promete. Ainda que existam alguns dramas pessoais para que possamos nos identificar com os personagens, o foco aqui é na ação, e aí entra a habilidade do mexicano na direção. Del Toro sabe como conduzir uma cena de ação e transforma cada novo elemento das batalhas, como o “soco foguete” ou a “espada robô”, em pequenos momentos de catarse coletiva. Outro diferencial do filme em relação a similares, como os filmes da série “Transformers”, é que em “Círculo de Fogo” realmente é possível ter a real sensação da grande escala da ação, através dos movimentos pesados e até lentos dos robôs. Enquanto cineastas como Michael Bay preferem utilizar movimentos incessantes de câmera e uma edição frenética, Del Toro busca em seus enquadramentos e em sua edição fluida, dar o máximo sentido para as épicas sequências de batalhas, tornando-as compreensíveis para o público.

Del Toro opta por não eleger um verdadeiro protagonista, dividindo a função entre três personagens: o piloto rebelde Raleigh Becket (Charlie Hunnan), o comandante Stacker (Idris Elba) e a aspirante a piloto Mako Mori (Rinko Kikuchi). Com isso, o filme ganha ares dos tokusatsus clássicos de equipe, como Changeman e Flashman. Se estes três personagens possuem algum desenvolvimento dramático, os outros seguem o tom caricatural intencional do diretor, como os pilotos russos, sérios e calados e que possuem o robô com o visual mais antiquado, como se tivesse saído da Guerra Fria, ou os pilotos chineses, que possuem o robô mais moderno e único pilotado por três pessoas, referência à superpopulação chinesa. Há também a dupla de cientistas interpretada por Charlie Day e Burn Gorman, além do personagem de Ron Perlman, que comanda o mercado negro de restos de Kaijus. Esses três últimos personagens servem também como alívios cômicos do longa, em outro acerto do diretor, que nunca deixa o humor de lado, fazendo com que o filme nunca se leve a sério demais, o que poderia prejudicá-lo. “Círculo de Fogo” é ciente de seus exageros e abraço-os sem hesitação.

UNDATED - A Kaiju attacks Sydney Harbour in a scene from the sci-fi action adventure PACIFIC RIM. 		HANDOUT: WARNER BROS. 	FOR BOB THOMPSON (POSTMEDIA NEWS)Se por um lado a larga escala do filme permite cenas de ação espetaculares, ela acaba encobrindo, em parte, uma das maiores qualidades de Del Toro: os detalhes e sutilezas na criação de seus universos fantásticos, como os vistos em “O Labirinto do Fauno” ou nos dois filmes de “Hellboy”. Há algumas sequências em que o cineasta consegue evidenciar esse seu talento, como na cena que envolve o passado de Mako, sem dúvidas a melhor do filme.

Ainda que não seja o melhor trabalho de Del Toro e tenha suas falhas, o resultado final de “Círculo de Fogo” é bem acima da média. Todas as cores, as batalhas grandiosas e momentos empolgantes fazem com que o diretor cumpra a sua proposta. Assim, ao lado de “Star Trek: Além da Escuridão”, o filme assume o posto de melhor e mais bem resolvido blockbuster do ano até o momento. E para aqueles que sentiam saudades dos velhos seriados japoneses, a diversão é ainda maior.

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Leonardo Ribeiro

Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Um devoto de São Hitchcock, que tenta unir o prazer de escrever ao prazer de discutir e analisar a sétima arte. Facebook: https://www.facebook.com/leo.sp.ribeiro Twitter: @leospribeiro

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