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Colette, A Escritora Vanguardista Do Final Do Século XIX

*Destaque-Home | Audiovisual | Thais Polimeni 19/12/18 - 02h Thais Polimeni

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Não tenho nem roupa pra esse mundo careta em que a gente vive“. Essa foi uma frase da Claudia Raia no “Lady Night”, programa da maravilhosa Tatá Werneck, exibido no Multishow. A Claudia Raia disse isso ao contar as peripécias dela pela década de 80, época realmente bem menos careta que hoje em dia.

Mas em matéria de comparação de caretices, 2018 perde até mesmo pro século XIX. Fui assistir ao filme “Colette”, protagonizado por Keira Knightely, sobre a vida da escritora homônima que viveu de 1873 a 1954 na França, e desde que vi, não paro de indicar para meus amigos. A sinopse já me interessou sem precisar de argumentos mirabolantes: “Dirigido por Wash Westmoreland (“Para Sempre Alice”) e protagonizado por Keira Knightley, “Colette” aborda a vida da escritora Sidonie-Gabrielle Colette, seu relacionamento com o marido Willy (Dominic West) e sua luta pela propriedade intelectual e pelos papéis de gênero no início do século XX“. E fui muito surpreendida pelo vanguardismo da escritora.

colette-cartazSem contar spoilers, Colette era ghostwriter do marido, uma profissão comum até mesmo hoje em dia: um escritor faz o texto e a publicação é feita em nome de outra pessoa (ouvi (sub)celebridades/youtubers/blogayrinhos? Não confirmo nem nego). Pois bem. O trabalho dela foi tão incrível que o mercado começou a desconfiar e, descoberta a real autora dos livros de Willy, Colette acabou sendo mais reconhecida que seu marido. No século XIX, lembrem-se!

Além dessa reviravolta na vida profissional, a vida pessoal do casal tinha tudo menos tédio. Em uma América Latina de 2018 em que se fala em ideologia de gênero, a Europa de 1900 retratada no filme exibe um marquês transexual, relacionamentos abertos e relações homossexuais fora do casamento.

Colette fez sempre o que achava justo, honesto e ético. Com esses valores, ela mudou o rumo de muitas histórias, não só a própria. Suas primeiras ficções eram inspiradas em sua vida pessoal e renderam algumas desavenças. Desavenças mais próximas do ego inflado dos outros do que da exposição dos envolvidos da vida real. Se a direção de arte fosse inspirada na atualidade, ninguém contestaria o roteiro. Sua vida poderia ser muito bem de qualquer artista ou escritor contemporâneo nosso, com uma adaptação um pouco mais careta, já que estamos em 2018, por mais contraditório que tudo isso possa parecer.

“Colette” é muito mais que um filme sobre a biografia de uma escritora. É uma reflexão sobre o nosso tempo a partir da observação do nosso passado. É um resgate da liberdade e do potencial feminino travestido de subversão de costumes. É um filme necessário para nossa época, assim como Colette foi para a dela.

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