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Conspiração Americana

Audiovisual 10/05/12 - 02h Cult Cultura

Se formos pesquisar quais termos poderiam ser utilizados para definir o povo norte-americano, o patriotismo provavelmente estaria entre os principais mencionados. O orgulho da nação e a devoção a suas principais figuras históricas são características amplamente propagadas pelo mundo, muitas vezes, inclusive, através do cinema. E com certeza, uma das personalidades que mais possui identificação imediata com os Estados Unidos é o presidente Abraham Lincoln.

Em “Conspiração Americana”, novo trabalho de Robert Redford na direção (que chega com atraso aos nossos cinemas), a morte de Lincoln é o foco principal da história, mais precisamente o julgamento dos membros da conspiração que resultou no atentado contra o presidente, quando este assistia a uma peça de teatro, e nas tentativas de assassinato do vice-presidente Andrew Johnson e do secretário de Estado William Henry Seward.

Trabalhar com temas históricos norte-americanos não é uma novidade na carreira de Redford como diretor. Em “Quiz Show” de 1994, seu melhor filme atrás das câmeras, o galã retratou os bastidores dos game shows e da televisão nos anos 50, e em “Leões e Cordeiros” de 2007, abordou o tema da ocupação americana no Afeganistão. Logo na primeira cena de “Conspiração Americana”, Redford mostra dois soldados do Norte, feridos no campo de batalha, no final da Guerra da Secessão. O Capitão Frederick Aiken (James McAvoy) tenta acalmar seu amigo, Nicholas Baker (Justin Long) contando uma piada. Quando o resgate chega, a primeira atitude de Aiken é pedir imediatamente que levem primeiro o seu subordinado. Uma cena feita para não deixar nenhuma dúvida sobre a conduta correta e o caráter límpido do personagem.

Ao retornar da guerra, Aiken retoma seu trabalho como advogado e é convocado pelo juiz Reverdy Johnson (Tom Wilkinson), para defender Mary Surratt (Robin Wright), uma sulista, mãe de um dos acusados da conspiração contra Lincoln e dona da pensão onde os conspiradores se reuniam. Abalado com a morte de seu presidente, assim como quase toda a população do país, a princípio Aiken se nega a aceitar o trabalho, acreditando cegamente na culpa de Surratt. Nesse ponto já temos o primeiro problema do filme. Pois após uma nova conversa rápida com o juiz e uma breve cena em que conta para sua namorada, Sarah (Alexis Bledel) sobre a proposta de trabalho, Aiken muda de opinião e resolve aceitar o caso. Uma mudança repentina demais.

Redford utiliza uma iluminação que busca ser natural, os ambientes são escuros e a luz está sempre entrando por janelas e portas, especialmente nas cenas de tribunal (para iluminar o caminho da justiça). Mas ao contrário do que se poderia imaginar, o diretor não busca exaltar o sistema de justiça americano, mas sim mostrar como ele falhou nesse caso, traçando um paralelo direto e bem claro com governo Bush e sua guerra ao terror, ao mostrar que os comandantes do país, representados principalmente pelo promotor Joseph Holt (Danny Houston) e pelo secretário da Guerra, Edwin Stanton (Kevin Kline) buscavam uma solução rápida para “trazer paz” a sua população após a morte de seu presidente. Para isso, deveriam escolher um culpado, o Osama Bin Laden da época, (no caso Mary Surratt e os outros conspiradores) não importando se as provas eram suficientes para tal acusação. O que importava era eliminar a ameaça e restabelecer a ordem.

O problema é que essa denúncia soa forçada. O personagem de Kline acaba ficando caricato, não por culpa do ator, mas pelo roteiro que coloca sempre frases prontas e de efeito em sua boca, transformando-o em um grande “vilão sem alma”, capaz de manipular provas e testemunhas no julgamento para conseguir condenar Surrat à forca. Essas cenas com as testemunhas também não convencem, ficando sempre com um ar de artificialidade. E mesmo que McAvoy e Robin Wright, como uma mãe que acima de tudo quer proteger seus filhos, se esforcem e estejam bem em seus papeis (as cenas entre os dois, como a do pátio da prisão são as melhores), não conseguem salvar o filme por completo. Existe uma interessante história a ser contada em “Conspiração Americana”, e as intenções do diretor são boas, mas ele acaba pesando a mão. Um outro exemplo disso é o plano final com Aiken saindo da prisão completamente sozinho, andando pelo gramado enquanto a câmera se afasta lentamente. Um plano que exagera ao reforçar a imagem do personagem como a de um cavaleiro solitário, lutando contra tudo e contra todos para defender, não apenas Suratt, mas a Lei em sua forma correta, como prevista na Constituição Americana.

Não há dúvidas de que os autores desse que é o documento mais importante da história dos Estados Unidos buscavam um bem maior. Mas, como a história nos mostra, nem sempre as boas ideias que estão no papel são colocadas em prática como deveriam. E o filme de Redford sofre exatamente desse mal.

Por Leonardo Ribeiro

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