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Corra! Não É Um Filme De Terror: É Muito Mais Assustador

Audiovisual 24/05/17 - 10h Cult Cultura

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O que é mais perigoso e causa mais vítimas do que palhaços, espíritos vingativos ou assassinos em série? O racismo. E é sobre isso que “Corra!” (Get Out, 2017) trata. O suspense, escrito e dirigido por Jordan Peele (conhecido mais pelo trabalho cômico na tv americana do que por assuntos sérios como o que esse filme aborda), cumpre exatamente o que promete.

Conversando com uma pessoa conhecida que também assistiu a esse filme, percebi como as análises podem ser rasas, já que, especialmente aqui no Brasil, esse filme está sendo vendido como um suspense/ terror e isso pode ser um tanto quanto enganoso, pois o buraco, nesse caso, é muito mais embaixo. O filme trata de racismo, o que por si só já é mil vezes mais assustador do que qualquer entidade maligna que possa assombrar uma casa. É algo real, algo palpável e algo que está à nossa volta o tempo todo. Isso deveria assustar e isso deveria ser o motivo de reflexão. O filme requer atenção não só na “ação” mas também no que provoca, o que pode estar por trás de todos os acontecimentos, desde o mais banal e pequeno até o mais significante.

Após assistir ao filme, fiquei obcecado e saí lendo tudo que pude encontrar na internet sobre. Desde depoimentos e entrevistas do diretor até análises de pessoas comuns como eu, e tive mais e mais certeza de que esse filme é realmente algo para se tornar objeto de discussão e reflexão por muito tempo além do seu lançamento. Ele é brilhantemente produzido, a trilha sonora deixa um charme a mais e o assunto não poderia ser mais atual, ainda que empregado de forma sutil, utilizando a atmosfera de thriller e não de drama social, o que, ao meu ver, se encaixa melhor. Temos todos os elementos necessários para um ótimo suspense, mas também temos a análise profunda de um problema que, muitas vezes, fazemos parte dele sem nem mesmo perceber.

“Corra!” é, na minha opinião, intocável, e merece todas as honras do mundo pela sua coragem, pela sua provocação e pela sua originalidade. É complicado escrever sobre algo tão inovador sem deixar spoilers pelo caminho, então vou terminar por aqui. O filme te dá a escolha do que você quer assistir, do que você quer sentir e eu recomendo deixar um pouco de lado a expectativa pelo horror fictício e embarcar na viagem de sentir o que é real. Poucas vezes, nos últimos tempos, um filme mereceu tanto o hype que o cerca como esse e um diretor mereceu tanto os aplausos que recebe como Peele em sua maravilhosa estreia na direção. Tecnicamente, é um filme impecável, mas seu valor está no que ele passa, no seu ritmo e no seu jeito, para que, quem assistir, saia do cinema e pense sobre. Entenda e sinta. Você pode ser convidado para mil lugares, mas esse convite não significa que você é realmente bem vindo.

EuclidesClids Ursulino. 29 anos. Música, cinema, futebol e política. E o que mais aparecer entre um café e outro.

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