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#CultIndica o Atualíssimo Filme Fruitvale Station

Audiovisual | CultIndica | Leonardo Cássio 03/08/16 - 04h Leonardo Cassio

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No começo do mês de julho deste ano, os Estados Unidos passaram por mais um episódio lamentável de intolerância e violência. Dois atiradores mataram cinco policiais em Dallas, o maior número de oficiais mortos desde 11 de setembro, números que no Brasil são pífios, mas para os norte-americanos são significativos. Apesar do espanto do fato em si, dos assassinatos, o que amedronta mesmo é o motivo: enfrentamento racial. Os atiradores tinham, como motivação, a retaliação à polícia, que havia matado dois homens negros dias antes deste atentado.

Neste sentido, “Fruitvale Station – A Última Parada” (2013), que narra uma história verídica ocorrida no Ano Novo de 2008/ 2009, é um filme atualíssimo, infelizmente. Escrito e dirigido por Ryan Coogler e produzido pelo vencedor do Oscar Forest Whitaker, o longa-metragem apresenta a história Oscar Grant, um jovem de 22 anos, interpretado por Michael B. Jordan – um excelente ator – que, ao ir comemorar o ano novo com amigos, acaba sendo assassinado pela polícia na estação de trem Fruitvale, após uma confusão captada por celulares dos passageiros.

O roteiro se calca em mostrar a vida do personagem durante o dia em que foi assassinado, fazendo pequenas digressões sobre seu passado. Oscar Grant é um negro que teve pequena passagem pela prisão. Recém despedido do emprego, o jovem luta para se afastar do tráfico e busca ter uma vida dentro da lei, motivado por sua família, cuja esposa é vivida por Melanie Diaz e a mãe, por Octavia Spencer (espetacular essa mulher!), além de sua filha, vivida por Ariana Neal.

O filme apresenta um jovem com típicos problemas sociais, que se envolveu com pequenos delitos, tem dificuldades financeiras e ainda está apaziguando sua relação com a família. Contar uma história real com este teor é um desafio. Apesar de o filme ter uma mensagem clara sobre o abuso de poder policial e o preconceito aos negros, contar isso de uma maneira que não seja fatalista e maniqueísta é pressuposto para não ser fazer um folhetim piegas, que se esvazia por um viés simplesmente raivoso.

Ryan Coogler consegue realizar um bom equilíbrio ao apresentar Oscar Grant como um jovem desajustado em busca de organização pessoal e como vítima de um crime que gerou protestos mundiais, parando na Suprema Corte Americana, sem tropeçar em um discurso inflamado. Durante o longa-metragem, são realizadas pequenas incursões sobre a cisão entre brancos e negros, como quando a esposa de Oscar pede a ele para comprar uma cartão de aniversário para a mãe dele sem a imagem de pessoas brancas. Assim, o debate ideológico vai sendo tratado de forma relativamente branda, pois o ápice da discussão ficará para o desfecho, uma vez que a história é conhecida. O diretor opta por trazer elementos da vida de Oscar, dando ao espectador uma visão além das imagens captadas pelos passageiros da estação Fruitvale.

Entre o episódio narrado neste filme e os acontecimentos deste ano passados em Dallas se foram 7 anos. No entanto, o problema não diminui nos Estados Unidos, país onde brigas raciais são claras e abertas, basta ver o tom da campanha do republicano Donald Trump. Mesmo com um presidente negro no poder, o primeiro, a divisão entre brancos e negros ainda é acentuada e violenta. Para nós, brasileiros, o preconceito racial é velado. Diferentemente dos EUA, no Brasil o negro é MAIORIA e tem o reconhecimento devido como uma das matrizes formativas da nossa sociedade. Porém, o negro é marginalizado e quando há abuso policial, por exemplo, o motivo é vinculado a questões socioeconômicas e não raciais. Acontece que a maior parte dos pobres e excluídos são negros e o discurso é apenas um disfarce para se cometer infrações desta ordem.

Diante destes fatos, “Fruitvale Station” é um filme importante não apenas por apresentar uma história absurda, cujo resultado ainda não foi capaz de frear a onda de truculência policial que, além de matar jovens, acaba por produzir pessoas raivosas, dispostas a matar em busca de alguma mudança social.

O grande vencedor do Prêmio do Júri Festival de Sundance (2013), que ganhou também prêmios em Cannes e outros festivais do circuito mundial, é um filme com uma mensagem importante, principalmente no último mês. Apesar de ser um projeto com temática de protesto, “Fruitvale Station” acerta no tom e serve tanto como bom cinema quanto como boa obra de crítica e reflexão. A contradição fica no fato de que bom cinema, muitas vezes, precisa tratar de péssimos assuntos, afinal, arte é muito mais do que simples entretenimento.

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