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#CultIndica Luke Cage e a Importante Discussão Racial

Audiovisual | CultIndica | Leonardo Cássio 16/11/16 - 11h Leonardo Cassio

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Luke Cage dá continuidade à profícua parceria entre Marvel e Netflix. Sucessos como Jessica Jones, em que Luke Cage aparece pela primeira vez, e Demolidor botaram pressão na equipe de criação e produção de Cage para que se alcançasse o patamar de qualidade obtido pelas citadas produções. Deu certo. Luke Cage é uma boa série de super-herói e uma excelente produção sobre temas de difícil solução, sendo a questão racial a mais importante.

Histórico
Luke Cage surgiu na Marvel na década de 1970, na onda das produções blaxploitation, movimento cinematográfico norte-americano, também da década de 70, que tirou os negros de papéis supressão, como escravos e serviçais, e os colocou como protagonistas. Foi um movimento controverso, pois os personagens dos filmes de blaxploitation denunciavam o racismo através das mesmas ferramentas de supressão racial: violência, raiva e ironia.

Luke Cage foi o primeiro herói negro da Marvel. No complicado contexto político-social dos anos 70 nos Estados Unidos, ele surgiu com uma estética chamativa, vestido com camisa amarela, peito de fora e muitas correntes, e tornou-se o vigilante do Harlem, reduto negro de Nova York. A série da Netflix não é totalmente fiel ao quadrinho clássico e trata com olhar atual as principais problemáticas levantadas pela produção.

A primeira observação é que você não precisa conhecer nada sobre Luke Cage (Mike Colter) para poder imergir na história. Há um processo bem trabalhado de apresentação do personagem, mérito do criador Cheo Hodari Coker e equipe de roteiristas, que vai episódio a episódio revelando fatos que nos faz entender como Cage conseguiu seu superpoder de pele indestrutível e poder de recuperação sobre-humano.

Série Netflix
Diferentemente dos quadrinhos, Cage é discreto nas vestimentas e encobre seu superpoder até precisar utilizá-lo em um ataque que sofre. Ele não se esconde em nenhuma máscara ou capa e é visto como um símbolo de resistência popular no Harlem, dando dimensões bem humanas ao herói. Porém, por tramoias diversas, Cage é perseguido pela polícia, que já o havia acusado de um crime que não cometeu e que havia sido preso por esse motivo. Essa tensão entre ele ter que provar que não é culpado da acusação que o levou para a cadeia e ter que explicar a origem de seus superpoderes e o que pretende fazer com eles – o que põe a polícia (branca) de Nova York em alerta – é uma das principais camadas de condução temática, atualíssima em um país tão segregado como os EUA, e que elegeu há poucos dias um presidente com ares de lunático com capacidade de piorar esse cenário.

Personagens
O vilão Boca de Algodão – Cottonmouth – (Mahershala Ali) e sua irmã Mariah Dillard (Alfre Woodard) são o fio condutor da série. O primeiro, um traficante do Harlem, e a segunda, uma política que usa dinheiro sujo do irmão para campanha, se postam como porta-vozes e defensores do Harlem, e Cage justamente quer desmontar essa bandalheira. É o enlaçamento dos três que cria os desdobramentos da história, incluindo aí a investigadora Misty (Simone Missick) e Claire Temple (Rosario Dawson), personagens que iniciou sua saga em Demolidor.

Além do enredo em si, a série mostra a cultura, a estética e as reivindicações negras nos EUA, ambientadas no Harlem, com referências bem pontuadas como as feitas a Muhammad Ali, aos jogadores da NBA, a foto gigantesca de Notorious B.I.G. na casa de shows de Boca de Algodão, entre outras. A música, no entanto, é o trunfo da série. Mais do que trilhas incidentais ou música para incrementar ação, o hip hop, soul e jazz são elementos que compõem a trama – Boca de Algodão é um músico frustrado – e que paramentam as discussões paralelas ao plot principal da série.

Diamondblack (Erik Laray Harvey) é outro vilão, esse mais mortal que Boca de Algodão. Fanático religioso (outro assunto puxado em Luke Cage), Diamondblack consegue armas de alta tecnologia capazes de ferir Cage, na base de corrupção policial (mais um tema!), e a luta entre os dois vira um espetáculo midiático e sensacionalista.

Temas abordados
Luke Cage está mais para um thriller de suspense/ ação do que propriamente uma ficção fantasiosa. É um projeto que mergulha na busca pelo protagonismo negro, desde a concepção fora da trama – elenco predominantemente negro, não cabendo apenas a representatividade ao papel principal – e, principalmente dentro dela, com todas as referências, estéticas e diálogos, como uma frase dita por Luke Cage: “Essa proposta me parece escravidão. E a escravidão é sempre um bom negócio. Para o Mestre (ou escravizador)”. Toma essa.

Com relação ao Universo Marvel, há referências mais do que explícitas aos Vingadores (quando falam em “incidente”), Demolidor, Jessica Jones e ao próximo da saga, Punho de Ferro, quarteto que compõe Os Defensores. Tá ficando chato repetir, mas Marvel e Netflix estão mandando muito bem.

Dica final
O site Omelete, dedicado ao universo cinematográfico, televisivo e quadrinhos, desenvolveu junto à Netflix uma plataforma para a série Luke Cage. O internauta navega pelos locais do Harlem onde ocorre a série e descobre curiosidades diversas sobre Cage e, depois de desbloqueios, sobre Demolidor, Jessica Jones e Punho de Ferro e todos os vilões dos Defensores. Clique aqui e confira!

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