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#CultIndica: Conheça A História De “O.J. Simpson”

Audiovisual | CultIndica | Leonardo Cássio 24/07/17 - 10h Leonardo Cassio

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Um pouco antes de conferir o excepcional documentário “A 13ª Emenda“, assisti à premiada minissérie de 10 capítulos da FX “The People v. O.J. Simpson – American Crime Story”. Apesar de não conhecer todos os pormenores do famoso caso envolvendo o ex-jogador de futebol americano e ator, a decisão final do julgamento foi extremamente marcante e é uma das poucas informações que o público em geral dificilmente desconhece.

O desafio, portanto, era justamente criar tensão e manter o interesse do espectador acerca de uma história para lá de conhecida. Claro que o ocorrido é enraizado no imaginário dos Estados Unidos e que na época, 1994, não havia internet da forma que há hoje e não havia smartphones e redes sociais para alastrar informações de forma imediata para todo o mundo. Além disso, muitos jovens devem ter conhecimento do caso de maneira bem superficial fora dos EUA.

“American Crime Story” é uma antologia que, em cada temporada, abordará um tema real de forma ficcional. A idealização é de Ryan Murphy (Glee), e a 1ª temporada teve roteiros de Larry Karaszewski e Scott Alexandre, com base no livro “The Run of His Life”, de Jeffrey Tobin. A segunda temporada falará sobre os desmazelos do Governo Bush com relação ao desastre causado pelo Furacão Katrina e a terceira temporada abordará o assassinato de Gianni Versace, famoso designer de moda. É um projeto ousado, marca de Murphy.

O Caso OJ Simpson
A série reconstrói o périplo do ex-astro a partir do dia em que sua ex-mulher, Nicole Brown, e seu atual namorado foram encontrados mortos de forma brutal no chique bairro de Brentwood, Los Angeles. Antes, porém, e com bastante assertividade, são apresentados confrontos entre a população afro-americana e a polícia de Los Angeles por causa da absolvição de um crime contra o taxista Rodney King, que foi covardemente espancado por policiais, ocasionando, em 1992, as manifestações, emblemáticas para o entendimento da tensão racial ainda latente no país da América do Norte.

OJ Simpson (Cuba Gooding Jr.) foi pivô de um dos mais monumentais julgamentos, com transmissão televisiva para o mundo todo. Após a acusação de assassinato, tentou uma fuga, sendo perseguido pela polícia – com tudo devidamente transmitido – e teve ajuda do amigo Robert Kardashian (David Schiwmmer) – sim, é o pai das famosas – para contratar o advogado Robert Shapiro (John Travolta, que também produz a série), que, observando de maneira pertinente o contexto social, contratou, para ajudá-lo, Johnny Cochran, advogado negro que construiu uma tese de defesa baseada em questões raciais. A promotoria, por sua vez, foi comanda por Marcia Clark (Sarah Paulson), – pessoa terrivelmente violentada psicologicamente pela mídia – com auxílio de Christopher Darden (Sterling K. Brown).

As provas contra OJ Simpson eram tão gritantes que era praticamente impossível contar com absolvição. No entanto – e esse é o ponto legal da história – acusar um jogador de futebol americano é uma tarefa ingrata – coloque um jogador badalado do futebol brasileiro no lugar para dimensionar (tivemos um caso semelhante, lembram?) -, ainda mais em uma cidade com enfrentamentos raciais, muito devido aos problemas causados pela polícia.

Como a principal testemunha de acusação era um policial, a tese de racismo contra o acusado pegou forte na comunidade local, resultando em uma inversão de acontecimentos, pontuado explicitamente em um dos episódios: seria a primeira vez que um homem negro sairia inocentado justamente por ser negro. Portanto, o enredo do julgamento foi um marco muito além do fato do envolvido ser uma celebridade.

O que impressiona é que não houve nenhum outro suspeito. Todas as provas – e eram muitas – indicavam apenas a presença de Simpson na cena do crime. Portanto, a construção da narrativa da defesa para refutar tais provas é um vasto material de estudo para entendimento do direito.

“The People v. O.J. Simpson” é um grande projeto por conseguir dar conta de todas as viradas da trama – e são muitas – em dez episódios, sem ser enfadonho, sem buscar defender um lado em específico, mas mostrando as vulnerabilidades de todas as personagens, com atenção especial ao amigo Kardashian, que gradativamente vai mostrando não acreditar mais em O.J., e, principalmente, por tratar do sério problema do racismo de forma incorporada à trama, sem sobressaltos.

No mais, as atuações foram de alto nível, com destaque para Sarah Paulson no papel de Marcia Clark, além de muitas palmas para a reconstrução dos cenários – cena do crime, tribunal, casa de O.J., delegacia, etc. -, devidamente fiéis aos lugares originais.

Material disponível sobre o chamado “julgamento do século” não falta. Livros – um escrito pelo próprio O.J. -, matérias disponibilizadas na internet, documentário, vídeos de reportagens da época no Youtube, etc. Só que nada disso dispensa “The People v. O.J. Simpson”. Mais do que saber os fatos, a série possibilita uma experiência emocional com o complexo caso. O protagonista Cuba Gooding Jr., por exemplo, declarou ter sido a favor da absolvição de O.J., só que nunca havia pensando nas famílias das vítimas, o que ocorreu a ele durante a produção da série. Sem contar que, tempos depois, ele foi condenado a pagar uma indenização para uma família, cumprindo com um percentual irrisório. Em 2007, foi detido por roubo à mão armada e sequestro, sendo condenado a 9 anos de prisão. Na última quinta-feira, 20 de julho de 2017, o ex-atleta recebeu liberdade condicional, podendo deixar a prisão em outubro deste ano.

“The People v. O.J. Simpson” está disponível no Netflix.

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