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De Louras e de Sombras: A Arte do Film Noir

Audiovisual | Leonardo Ribeiro 05/08/13 - 02h Leonardo Ribeiro

A Beira do Abismo (800x584)

Los Angeles, noite. Em um pequeno escritório no centro da cidade, um homem de semblante sério e com a barba por fazer, serve-se de uma dose de uísque enquanto sua secretária lhe informa sobre as ligações recebidas e pagamentos efetuados pelos clientes. No momento em que pega seu isqueiro para acender um cigarro, uma silhueta feminina surge através do vidro da porta do escritório onde se lê “Detetive Particular”. Ao abrir a porta, vemos a imagem de uma linda loura carregando sua bolsa, que retira seus óculos escuros e diz: “Eu preciso de ajuda”. Nessa pequena cena, tão fácil de ser visualizada, podemos encontrar diversos elementos que formam a essência de um dos gêneros mais populares do cinema nas décadas de 40 e 50: o film noir.

O termo foi criado em 1946 pelo crítico francês Nino Frank para definir um estilo de filmes com raízes nos romances policiais da época da Grande Depressão e que possuíam uma estética derivada principalmente dos filmes de terror dos anos 30. Muitos historiadores não consideram o film noir como um gênero propriamente dito, mas sim como um estilo visual característico. Durante muito tempo no sistema de produção dos estúdios de Hollywood, os filmes policiais eram considerados “filmes B”, geralmente com orçamentos mais baixos e elencos menos estrelados, mas que permitiam que os cineastas trabalhassem temas considerados tabu nos gêneros mais “nobres”, como os musicais, romances e filmes históricos. Esses temas incluíam crimes, assassinatos, sexo e amoralidade, fazendo dos filmes que os abordavam grandes sucessos comerciais, que custavam pouco e rendiam muito. Esse conceito de produção ”B” foi mudando aos poucos, quando cineastas consagrados e grandes estrelas começaram participar de produções do gênero.

Laura2 (800x599)Diversos estudiosos do assunto consideram o longa “Strangers on The Third Floor”, de 1940, dirigido pelo russo Boris Ingster e estrelado por Peter Lorre, como o primeiro film noir clássico, apesar de hoje ser um filme praticamente desconhecido. Mesmo denominado com um termo francês e tendo se tornado um gênero tipicamente norte-americano, uma das principais influências do film noir vem do Expressionismo Alemão. O alto contraste e a iluminação low key, que tentava recriar o efeito chiaroscuro nas películas em preto e branco, são elementos estéticos típicos dos expressionistas alemães que foram incorporados pelo noir. Não à toa, o termo significa “filme negro”. Essa influência pode ser atribuída a diversos cineastas austríaco-alemães que migraram para Hollywood, como Otto Preminger, diretor de “Laura” um noir excepcional com Gene Tierney, Dana Andrews e Vincent Price. Outro grande nome foi o de Fritz Lang, de clássicos do Expressionismo Alemão, como “Metrópolis” e “M: O Vampiro de Dusseldorf”, que dirigiu noirs soberbos, como “Os Corruptos”, “Almas Perversas” e “No Silêncio da Cidade”. Não podemos deixar de citar também o genial Billy Wilder, diretor do noir por excelência, “Pacto de Sangue”.

A Dama do Lago (800x604)Além do jogo de sombras, outras marcas visuais do gênero são os ângulos de câmera inusitados, as imagens refletidas em espelhos, vidros e janelas e câmera subjetiva. Esse último recurso foi explorado de modo notório no longa “A Dama do Lago”, adaptado da obra de Raymond Chandler, um dos escritores policiais que mais tem ligação com o film noir, tendo escrito o roteiro de “Pacto de Sangue” ao lado de Billy Wilder. Dirigido e estrelado por Robert Montgomery, “A Dama do Lago” foi todo rodado com a câmera subjetiva representando o olhar do personagem principal, o detetive Phillip Marlowe. Com isso, o rosto do personagem era visto apenas através de reflexos, um efeito um pouco cansativo, mas curioso, além de ter sido um desafio técnico para o diretor.

Apesar de ser marcado quase exclusivamente por filmes em preto e branco, algumas produções em cores também podem ser consideradas do gênero, como “Amar foi Minha Ruína” ou “Um Corpo que Cai” de Alfred Hitchcock. O mestre do suspense na verdade nunca realizou um “noir puro”, mas algumas outras obras suas possuem elementos do gênero, como “Interlúdio”, “A Sombra de Uma Dúvida” e “Pacto Sinistro”. Entre os grandes mestres do noir podemos destacar Howard Hawks do magnífico “À Beira do Abismo” com o casal Humphrey Bogart e Lauren Bacall, em mais um filme com o personagem do detetive Phillip Marlowe. John Huston foi outro que dirigiu exemplares clássicos, como “Relíquia Macabra” e “Paixões em Fúria”, ambos também estrelados por Bogart, além de Nicholas Ray com “O Crime Não Compensa”, “Alma Sem pudor” e “No Silêncio da Noite”.

Grandes cineastas que exploraram diversos gêneros também passaram pelo noir, como Kubrick em seu primeiro filme de destaque, “A Morte Passou por Perto” e no seguinte “O Grande Golpe”, ou Orson Welles, em filmes como “A Dama de Shanghai” com a sensacional sequência da Casa de Espelhos, “O Estranho” e a obra-prima “A Marca da Maldade”. Samuel Fuller também deixou sua marca no excepcional “O Anjo do Mal”. As características do gênero, como seus personagens moralmente ambíguos, o clima de paranoia, o cinismo e o niilismo se tornaram fontes de inspiração para obras mais subversivas, que utilizavam os arquétipos de personagens do gênero, como a femme fatale (geralmente loura), o policial corrupto, o marido ciumento e abusivo ou o detetive alcoólatra, para analisar a fundo a corrupção e degradação do ser humano. Alguns exemplos desse último nicho são “A Morte Num Beijo”, do grande Robert Aldrich; “Pânico nas Ruas”, de Elia Kazan, com ótima atuação de Jack Palance, e também “A Curva do destino”, de Edgard G. Ulmer.

A partir da década de 60 o gênero perdeu sua força, mas continuou a influenciar grandes diretores, em obras conhecidas como neo noir. Entre esses, podemos citar muitos filmes dos irmãos Coen, como “Gosto de Sangue”, “O Homem Que Não Estava Lá” e “Fargo”. David Lynch também adota o gênero de forma mais transgressora em “Veludo Azul”, “Estrada Perdida” e até “Cidade dos Sonhos”. “Chinatown”, obra fundamental de Roman Polanski, também está nessa lista. Outros bons exemplos são “Morte por Encomenda”, de John Dahl e “O Assassino em Mim”, violento neo noir do britânico Michael Winterbottom. Há filmes que tentam recriar o estilo, inclusive situando-os nos anos 40 ou 50, como é o caso do oscarizado “Los Angeles: Cidade Proibida” ou de “Dália Negra” do mestre Brian De Palma. Outro exemplo interessante é a comédia “Cliente Morto Não Paga”, dirigida por Carl Reiner em 1982. Nela temos uma paródia do gênero, com o personagem de Steve Martin contracenando com Ava Gardner, Burt Lancaster, Bette Davis, Veronica Lake, Ingrid Bergman, Lana Turner, Cary Grant e Humphrey Bogart, através de imagens de arquivo de diversos personagens de filmes clássicos, alguns citados anteriormente no texto, além de outros como “Assassinos” e “O Destino Bate à Sua Porta”.

Blade Runner (421x640)Há ainda o noir sci fi, cujo maior exemplo é “Blade Runner”. A obra-prima cult de Ridley Scott possui tudo que um bom noir precisa: a ambientação urbana, noturna e chuvosa. Uma trama de crimes, com policiais corruptos, femme fatales e um anti-herói típico. Há também o senso fatalista, as traições e o final aberto, sem falar no uso de flashbacks e da narração em off (outro elemento clássico) imposta pelo estúdio, que só deixam o longa com um espírito ainda mais característico do noir.

Isso tudo só comprova o fascínio exercido por esse que é, sem dúvidas, um dos gêneros mais sofisticados e ricos da sétima arte.

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Leonardo Ribeiro

Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Um devoto de São Hitchcock, que tenta unir o prazer de escrever ao prazer de discutir e analisar a sétima arte. Facebook: https://www.facebook.com/leo.sp.ribeiro Twitter: @leospribeiro

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