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Diário de Um Jornalista Bêbado

Audiovisual 25/04/12 - 02h Cult Cultura

Parece existir algo comum a quase todas as profissões, o confronto entre os sonhos, a visão idealizada que as pessoas têm de sua profissão e a realidade encontrada no mercado de trabalho. Entre as profissões mais romanceadas nas telas está a de escritor, seja esse escritor um poeta, um roteirista ou um jornalista. Em “Diário de um Jornalista Bêbado”, de Bruce Robinson, o personagem principal é Paul Kemp (Johnny Depp), um escritor americano que chega a Porto Rico no final dos anos 50 para trabalhar em um decadente jornal local. Mesmo com a tensão política e vários conflitos acontecendo no país, o editor-chefe do jornal, Lotterman (Richard Jenkins), designa trabalhos “inofensivos” para Kemp, como matérias sobre os turistas locais e o horóscopo diário. Para Lotterman, os leitores não querem saber dos problemas que acontecem no país, nem sobre quem está em situação pior do que a deles, eles querem apenas distração.

Kemp é na verdade um alter ego do escritor Hunter S. Thompson, o pai do jornalismo gonzo, de quem Depp é um fã declarado. Essa não é a primeira vez que Thompson é retratado no cinema, o jornalista já foi personagem de “Uma Espécie em Extinção” (interpretado por ninguém menos do que o grande Bill Murray) e em “Medo e Delírio” (vivido pelo próprio Depp). Mas diferente do filme de Terry Gilliam, aqui temos um Thompson em uma fase pré-gonzo, menos insana e psicodélica do que nas décadas seguintes de sua vida. Não que os traços de insanidade tenham sido ignorados. Desde a primeira cena somos apresentados ao personagem como sendo um inveterado apreciador das bebidas alcoólicas, capaz de gastar centenas de dólares com o frigobar do hotel.

Paralelamente ao seu lado boêmio, também vemos em Kemp um artista frustrado, que escreveu dois romances sem nenhuma repercussão e que ainda não “encontrou sua própria voz”, como ele mesmo diz. O escritor, apesar de seu comportamento politicamente incorreto, é um idealista que realmente acredita no poder da imprensa para ajudar a combater a corrupção, políticos, etc. Esse seu sentimento aflora ainda mais depois do contato com um rico empresário americano, Sanderson (Aaron Eckhardt), que planeja construir um luxuoso complexo hoteleiro em uma das ilhas do país, apoiado por ex-militares e figurões locais. E é com a namorada de Sanderson, Chenault (Amber Heard), que Kemp acaba tendo um envolvimento romântico.

Robinson (premiado roteirista, mas que não dirigia nada desde “Jennifer 8” em 1992) filma com segurança e adota sem medo a comédia escrachada, muitas vezes física, como na hilária cena do carro sem o banco da frente, para dar o tom a seu filme. Depp tem um ótimo timing cômico e é ajudado pelos bons diálogos, com frases do próprio Thompson, e também pelo ótimo elenco coadjuvante, com destaques para Michael Rispoli, como o fotógrafo Sala e para Giovanni Ribisi, impagável como o jornalista sueco Moberg, compondo uma figura que remete a Thompson em sua fase mais insana. Não é à toa que é Moberg que proporciona a primeira viagem de ácido de Kemp no filme.

O diretor aproveita bem as belas paisagens porto-riquenhas, com um bom trabalho de cores que aos poucos vai transformando os tons vivos e quentes em tons mais escuros e frios à medida que o personagem de Kemp enfrenta a realidade e se desiludindo com seu “sonho no paraíso tropical”. Talvez essa abordagem mais leve, em comparação a “Medo e Delírio”, por exemplo, acabe tornando o filme meio superficial em relação à obra de Thompson e também sobre a profissão de jornalista. Ao mesmo tempo, essa opção vai de encontro ao confronto tratado no começo do texto, mostrando com certa inocência um profissional que se vê obrigado a ter que lutar para tornar os seus ideais, deixando para trás a visão romântica que tinha de seu trabalho. “Ser sempre franco com o leitor e levar a verdade através de tinta e fúria”, essas são algumas das últimas palavras de Kemp.

Mesmo sem esse aprofundamento, o filme consegue entreter e fazer rir com facilidade, e esse parece mesmo ser seu maior objetivo. Pois com uma boa dose de humor, de sonhos (e de rum, porque não?) a vida torna-se bem mais fácil de ser aproveitada.

Por Leonardo Ribeiro (Ribeiro, não Cássio)

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