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“DRÁCULA” – de Bram Stoker a Francis F. Coppola, o amor e a maldição do sangue

Adriano Tardoque | Audiovisual | Literatura 02/07/13 - 10h Adriano Tardoque

Dracula

No ano de 1992, o genial cineasta Francis Ford Coppola apresentou ao mundo sua proposta para um dos maiores ícones da literatura fantástica, personagem capaz de arrepiar qualquer pessoa em qualquer situação: o Conde Drácula. Trabalhando diretamente sob a obra literária gótica do romancista irlandês Bram Stoker, publicada em 1897, e usando a principal linha da narrativa do romance, que é o diário do personagem Jonathan Harker, Copolla criou uma das mais incríveis adaptações do clássico. Com toda concepção baseada na arte em quadrinhos de Jim Steranko (que desenhou Indiana Jones, de Steven Spielberg), e ao contrário do que aparenta, inúmeras cenas e técnicas cinematográficas do filme foram baseadas em produções anteriores sobre o príncipe das trevas e os recursos antigos usados nelas. A cena em que Drácula sobe de seu caixão pela primeira vez, por exemplo, é uma referência ao clássico “Nosferatu” (1922), de F.W. Murnau. Outros filmes como “A Bela e a Fera” (1946), de Jean Cocteau, na cena em que o protagonista transforma as lágrimas de Mirna em diamante, ou o caixão de cristal de Lucy, que aparece em inúmeras versões da Branca de Neve, são alguns exemplos. Coppola priorizou o uso desses recursos com a finalidade de centralizar o trabalho na direção das cenas e não nos efeitos especiais computadorizados. O uso de sombras que independem dos personagens, inundações de sangue nos ambientes, a diversificação visual do próprio Drácula, resultam em um verdadeiro espetáculo estético. A escolha de Gary Oldman para o papel de Drácula levou à incorporação do personagem em níveis de genialidade, com tão incrível personificação. O elenco de apoio com Winona Ryder (Mirna), Keanu Reeves (Hacker) e Antony Hopkins (Van Helsing) dá aos devidos personagens suas caras e sustento ideal.

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Gary Oldman: um Drácula no limite da genialidade

O maior mérito do filme diz respeito à sua construção equilibrada de inúmeros elementos, como o amor romântico (Drácula busca a eternidade do amor em Mirna), o terror como faceta humana e sobrenatural, o erotismo em uma linha tênue entre o sentimento/vida e a perversão/morte, além da reflexão sobre a religião (cristianismo) e o cientificismo do século XIX (refletidos no filme, por exemplo, na invenção do telégrafo e da cinematografia) amparado na figura de Van Helsing. O discurso deste personagem assume teor irônico ao fazer uma crítica à postura do cristianismo em relação à sexualidade humana, potencial transmissora dos males do sangue. Em determinada passagem do filme, a situação se exemplifica com a chegada de um telégrafo que diz: “Amiga próxima da morte… doença do sangue desconhecida da ciência… estou desesperado… Jack Seward”. O médico que trata de Lucy, amiga de Mirna, que foi mordida por Drácula, pede ajuda a Van Helsing, que ministra uma aula magna de ciência para acadêmicos e cientistas. O discurso que ele faz, após manusear um morcego em uma gaiola, apresenta um dos dilemas centrais que o filme levanta:

O morcego-vampiro dos pampas pode consumir 10 vezes seu peso em sangue diariamente, ou suas células sanguíneas morrem. O sangue e as doenças, tais como a sífilis, nos interessam (…) o próprio nome “doenças venéreas”, as doenças de Vênus… imputa a elas origens divinas. Envolvem problemas sexuais que dizem respeito às éticas e ideais da civilização cristã. De fato, a civilização e a “sifilização” avançaram juntas”.

Cabe aí a observação de dois pontos. O primeiro diz respeito ao filme, quando o representante da ciência, Van Helsing, precisará se municiar dos elementos da fé cristã (cruz, palavras em latim, água benta) para vencer o príncipe das trevas. Sua luta contra os males do sangue sai da esfera científica e passa a depender da fé como elemento central. O que denota que a ciência, por si somente, não é capaz de resolver as coisas. Fatores metafísicos e científicos caminham, então, lado a lado. A segunda refere-se ao tempo em que foi lançado o filme, a década de 90. A maldição do sangue era a AIDS, doença ainda sem cura que, no período, levava milhares pessoas à morte e aterrorizava tantas outras, forçando uma verdadeira e custosa transformação nos hábitos sexuais da humanidade. A “sifilização” proposta pela fala de Van Helsing tinha um objetivo muito além da trama do filme, falando diretamente para a sociedade contemporânea. Considerando que o peso das decisões é o diferencial que tem seu preço, afinal, como mostra a história, foi o conde Vlad quem amaldiçoou Deus pela perda da amada, durante a Idade Média, deixando de lutar pela cruz para ser seu inimigo. A redenção de Drácula evidencia uma valorização do amor como transcendental e transformador. Quando conduz a trama sob o fio do romance, Coppola propõe uma reflexão profunda sobre o amor e o livre arbítrio, retomando a própria originalidade romântica e idealista da obra escrita por Bram Stoker. Vale lembrar que o romancista pesquisou profundamente o folclore e a mitologia que envolvia vampiros na Europa para compor seu antológico trabalho que, ao seu modo, reflete as questões da sociedade. Por fim, toda obra literária, assim como as obras cinematográficas, tem o poder de diagnosticar questões de sua época e, como Mary Shelley com seu “Frankenstein”, Stoker via com horror a crença absoluta no poder da ciência (ou a “cientifização”) em seu tempo. Certas obras transpassam os limites da temporalidade.

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Adriano Tardoque

Adriano Tardoque

Educador, técnico em museu e arteterapeuta, atuante e defensor da cultura como cidadania, interessado por temas relacionados educação, artes, música, cinema, literatura (se arriscando na poesia!) e preservação do patrimônio histórico, além de terapia ocupacional, acessibilidade e formação cidadã. Não dispensa um bom bate-papo. Twitter: @adrianotardoque Blog de poemas: http://pescadordepensamentos.blogspot.com Facebook: www.facebook.com/adriano.tardoque

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