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Elysium: Crítica social de Neill Blomkamp perde a batalha para a máquina Hollywoodiana

Audiovisual | Leonardo Ribeiro 23/09/13 - 09h Leonardo Ribeiro

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Há quatro anos, o cineasta sul-africano Neill Blomkamp surpreendia o mundo da ficção científica com o lançamento de seu primeiro longa-metragem, “Distrito 9”. Após dirigir alguns curtas interessantes, Blomkamp despertou a atenção do diretor e produtor neozelandês Peter Jackson (da trilogia “Senhor dos Anéis”, “King Kong”, etc.), que resolveu bancar seu longa de estreia. Sob o selo de qualidade de “Peter Jackson Presents”, “Distrito 9” tornou-se um dos grandes sucessos de 2009, faturando só nos EUA mais de 115 milhões de dólares para um orçamento relativamente modesto (30 milhões).

O sucesso das bilheterias repetiu-se também entre os críticos. O filme foi elogiado, com méritos, por apresentar uma ficção científica inteligente, construída sob um pano de fundo de crítica social, trazendo uma sólida alegoria sobre a segregação racial sul-africana. A trama mostrava uma nave-mãe alienígena perdida na Terra, pairando imóvel acima de Johannesburgo, África do Sul. Meses depois, uma equipe do governo é enviada para investigar a nave e descobre um grupo de mais de um milhão de extraterrestres artrópodes vivendo em seu interior. Os aliens, chamados de “camarões”, são então confinados em um acampamento do governo dentro de Johannesburgo conhecido como Distrito 9, que logo se transforma em uma imensa favela.

Ao colocar os aliens como uma minoria oprimida, Blomkamp realiza uma ótima parábola sobre o apartheid e as desigualdades históricas de seu país, seguindo o exemplo de George A. Romero, que já havia utilizado os zumbis de seus filmes com um propósito similar. Mesclando este contexto político com boas doses de suspense e ação, o diretor conseguiu entregar um produto realmente empolgante e com um frescor muito bem-vindo dentro do panorama das produções de ficção científica. Por todos esses motivos, as expectativas sobre seu projeto seguinte eram altas, e, por isso, é difícil não encarar seu segundo trabalho, “Elysium”, como uma decepção.

A premissa do longa mantém o tom de crítica sociopolítica, apresentando a Terra do ano 2154 como um local de recursos esgotados, habitado apenas pala classe mais baixa da população, trabalhando em fábricas, vivendo em favelas e sendo vigiada por robôs controlados pelo governo de maneira autoritária e repressora. Já os governantes e a elite dos seres humanos vivem na estação espacial Elysium, livre de guerras, doenças e desfrutando da mais alta tecnologia. Se em “Distrito 9” as metáforas eram bem trabalhadas e por vezes sutis, aqui tudo soa óbvio. A crítica social surge da maneira mais simplista, pois o roteiro não abre espaço para camadas, seja na construção dos personagens ou no contexto social do longa. Os personagens são extremamente pobres ou extremamente ricos. Vilões cruéis ou heróis de bom coração. Não existem meios-termos.

Essa simplificação sobre a desigualdade de classes, que é o ponto central do longa, acaba prejudicando seus protagonistas, que possuem pouco material para trabalhar. O caso mais evidente é o de Jodie Foster, como uma figura de alto escalão do governo, que controla a segurança de Elysium com extrema frieza. Não há nenhum tipo de desenvolvimento da personagem (motivações, passado, etc.), fazendo com que Foster (vencedora do Oscar) soe totalmente apática. Assim também ocorre com o empresário vivido por William Fichtner ou o mercenário interpretado por Sharlto Copley (ator revelado por Blomkamp em “Distrito 9”).

08Do lado dos “mocinhos” a coisa não é muito diferente. Matt Damon mostra sua competência habitual como Max, um trabalhador de uma fábrica na Terra, que após um acidente de trabalho é exposto à radiação e precisa encontrar uma maneira de viajar a Elysium para poder se curar. A brasileira Alice Braga, já acostumada a grandes produções norte-americanas, está apenas correta como uma enfermeira, interesse amoroso de Max e que também deseja ir a Elysium para salvar sua filha com leucemia. Ainda no núcleo terrestre do filme, temos o personagem mais interessante do longa, Spider, vivido pelo também brasileiro Wagner Moura. Espécie de hacker e líder rebelde, Spider é a única figura que aparenta alguma dubiedade em sua personalidade. A princípio não fica claro se ele realiza seu trabalho, transportando pessoas ilegalmente para Elysium (como os coyotes na fronteira México/EUA), apenas pelo fator financeiro ou com o intuito de desafiar o sistema e lutar pela igualdade entre os humanos. Moura apresenta uma boa atuação, ainda que sua entonação nas falas pareça caricata em determinados momentos, seu papel é realmente importante para a trama. Um bom primeiro passo para sua carreira internacional.

A escolha do elenco, predominantemente latino (além de Moura e Braga, há também o mexicano Diego Luna e os personagens têm diversas falas em espanhol), tem a intenção de traçar um paralelo entre as condições de vida na Terra mostradas no longa e as disparidades do terceiro mundo, talvez uma das poucas virtudes deste trabalho. Outra delas é o bom olho de Blomkamp para a concepção visual do filme, algo remanescente de “Distrito 9”. Cenários, figurinos e armas apresentam uma visão de futuro sucateado muito mais próxima de nossa realidade. A figura do mercenário interpretado por Copley (mesmo com uma composição exagerada, sotaque quase incompreensível e utilizando diversas gírias) também é um ponto positivo, conseguindo ser ameaçadora. Mas nem mesmo o vilão de sangue frio, demonstrando estilo com sua katana, consegue realmente empolgar.

As sequências de ação são competentes, mas nunca marcantes, e Blomkamp se rende às convenções de Hollywood, optando por um terceiro ato repleto de correria e atos de bravura. O roteiro recorre à velha estrutura da jornada do herói, apresentando Max como o “escolhido” da vez, algo evidenciado pelos flashbacks dramáticos e solenes de sua infância, mostrando-o como um predestinado a coisas maiores. Todo o final apela para os clichês mais batidos dos blockbusters. Há ainda grandes furos no roteiro (onde foi parar a segurança quando a nave rebelde pousa em Elysium?) e momentos em que é preciso muita suspensão de descrença (como a reviravolta mal elaborada e exagerada envolvendo o vilão de Copley).

Elysium-poster2Se o filme embarcasse no espírito de fantasia descompromissada, talvez o resultado fosse melhor, mas Blomkamp sente a necessidade de adotar um tom mais sério para validar suas críticas políticas. Infelizmente, sua tentativa é soterrada por necessidades maiores: as da indústria cinematográfica de Hollywood. Com isso, “Elysium” termina sendo apenas mais um passatempo sem grandes consequências, não indo muito além de outras produções recentes e similares, como “Oblivion”.

Resta agora saber qual será o posicionamento de Blomkamp. Se o diretor se rebelará contra o sistema ou se acabará se acomodando como parte dele. Um dilema digno do potencial apresentado pelo cineasta em sua estreia, mas não cumprido aqui.

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Leonardo Ribeiro

Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Um devoto de São Hitchcock, que tenta unir o prazer de escrever ao prazer de discutir e analisar a sétima arte. Facebook: https://www.facebook.com/leo.sp.ribeiro Twitter: @leospribeiro

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