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Transtornos Psiquiátricos Originados Por Traumas É O Foco de “Fragmentado”

Audiovisual | Leonardo Cássio 23/03/17 - 09h Leonardo Cassio

fragmentado

O indiano M. Night Shyamalan é um diretor muito interessante: ele consegue o feito raro de estar em Hollywood e ainda emplacar filmes autorais, coisa reservada a pouquíssimos nomes. Mais: Basta assistir aos dez primeiros minutos e saberá se tratar de um filme dirigido/ criado por ele, mesmo que você não tenha essa informação. A filmografia de Shyamalan possui um DNA específico, uma marca peculiar autoral, reservada a poucos e grandes nomes, como Pedro Almodóvar e Wes Anderson.

Logo de cara, seu primeiro filme, “Sexto Sentido” (1999), fez um estrondoso sucesso de bilheteria e crítica, com indicações ao Oscar e inúmeros outros prêmios. Os sucessores “Corpo Fechado” (2000), “Sinais” (2002) e “A Vila” (2004) também renderam grandes bilheterias e, no geral, tiveram sucesso de crítica. Aí veio “A Dama na Água” (2006), que deu um prejuízo nas bilheterias e é considerado pela crítica o pior filme do cineasta. Passado o rebuliço, o diretor lançou outros filmes medianos até lançar o blockbuster “Depois da Terra”, com Will Smith e seu filho Jaden Smith, um fiasco completo e que cravou o afastamento do diretor de produções com superorçamentos. O episódio caiu na mídia como o aniquilamento do diretor em Hollywood. Acho muito curioso o ponto: lembro-me de muitas críticas raivosas dizendo que o diretor jogou a carreira no lixo e que não devia mais fazer filmes e etc. Quem escreve algo do tipo deve ser um gênio inimaginável, pois penso que sempre haverá erros na carreira de qualquer pessoa, ainda que alguns mantenham uma regularidade maior.

E o tombo foi ótimo! O diretor bancou um filme bom de baixo orçamento em 2015, “A Visita”, e passou a trabalhar em uma série televisiva chamada “Wayward Pines”, com a qual, segundo ele, teve ótimos aprendizados sobre o formato. Aí ele me aparece com “Fragmentado” (2017), outro longa de baixo orçamento, e volta a apresentar um filmaço que estourou no Estados Unidos (custou US$9 milhões e arrecadou, por enquanto, US$250 milhões só lá). Shyamalan afirma ter sido importante voltar a produções baratas, onde possui liberdade criativa, coisa impossível em superproduções.

“Fragmentado” é um terror psicológico que apresenta uma interessante tese sobre transtorno dissociativo de identidade. James McAvoy possui 23 personalidades distintas que se manifestam em ciclos, sendo que algumas estão predominantemente surgindo. Duas delas, Dennis e Patricia, são responsáveis por sequestrar três jovens adolescentes que estão encarceradas em algum lugar. Dra. Fletcher (Betty Buckley) é responsável pelo tratamento de Barry – uma das outras personalidades de McAvoy – sendo defensora de uma interessante tese sobre pessoas que possuem o transtorno: elas têm a capacidade sobre-humana de regenerar órgãos ou mesmo desenvolver habilidades específicas inimagináveis com o poder da mente. No caso de Kevin Wendell Crumb – nome real do personagem de McAvoy que possui o distúrbio – sua patologia é ligada a abusos sofridos na infância, o que desencadeia toda série de eventos tratada no filme.

Antes de mais nada, é preciso destacar o seguinte: os filmes de Shyamalan tratam de assuntos fortes envolvendo ficção e o sobrenatural, sendo necessário entrar na piração imaginativa dele para que os mesmos façam sentido. São vários os filmes dele em que eventos do passado conduzem os acontecimentos no presente e ajudam a desvendar possíveis mistérios. Além disso, o sobrenatural tem a incumbência de fortalecer hiperbolicamente uma tese criada ou levantada pelo diretor, que é certamente um devorador de ciência.

O protagonista (ou protagonistas) de “Fragmentado” acredita ter uma 24ª identidade, uma Besta que, com poderes anormais, tem o objetivo de extirpar do mundo pessoas impuras. As jovens sequestradas serão sacrificadas pela Besta por terem cometido pecados considerados imperdoáveis, assim que ela surgir. Dennis e Patricia precisam unificar as 23 identidades – nomeado no filme como a HORDA – para que a Besta consiga se manifestar.

James McAvoy tem um desempenho fabuloso no filme. Eu o considero um dos melhores atores de Hollywood e, neste filme, interpretando uma série de personalidades distintas, ele realmente alcançou um nível qualitativo altíssimo. Betty Buckley conduz sua personagem à altura do protagonista, com uma atuação intensa e instigante. Ela é responsável por manter a estabilidade de Kevin e é a grande responsável por conhecer e conseguir dialogar com as diversas identidades dele. Ao mesmo tempo, graças às suas crenças, ela é a grande encorajadora, ainda que em certo ponto à revelia, da crença de Dennis e Patricia na Besta.

A síntese do enredo é mostrar o resultado que abusos, principalmente os infantis, podem causar. Em uma das falas, o filme ressalta o argumento: “os problemáticos são os mais evoluídos”. A ideia é debater até onde uma pessoa que sofreu traumas e, no caso do filme, acabou por desenvolver o transtorno de identidade, é capaz de ir para se vingar ou tentar, ao seu modo, proteger a si de novas violências? As pessoas com transtornos são doentes ou possuem capacidades evolutivas que não entendemos?

“Fragmentado” é tenso, carrega muitas camadas de assuntos controversos e defende, ao modo Shyamalan, uma teoria complexa. Uma curiosidade é que este filme é o segundo de uma trilogia temática – não é uma trilogia sequencial –, fato que descobrimos apenas no final, o que gerou até umas boas risadas na sala de cinema. Sim, precisa ter visto o referido filme para entender. O terceiro deles está sendo escrito pelo cineasta e o referencial criativo que serve de inspiração é a “Trilogia das Cores”, do polonês Kieslowski.

Assista ao trailer e não deixe de conferir “Fragmentado”, um filme pequeno no orçamento e gigante no resultado.

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