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Hasta La Vista: Venha Como Você É

Audiovisual 13/06/12 - 05h Cult Cultura

Duas belas jovens correm pela praia. As garotas estão vestidas com roupas de academia, mas com generosos decotes. A câmera lenta que as acompanha realça ainda mais o movimento de seus fartos seios durante a caminhada, no melhor estilo Pamela Anderson. Da sacada de seu chalé, o jovem Philip (Robrecht Vanden Thoren) acompanha as garotas como se estivesse assistindo a um episódio de uma versão europeia de Baywatch. Assim é a cena dos créditos iniciais de “Hasta La Vista: Venha Como Você É” do belga Geoffrey Enthoven.

Filmes sobre a descoberta da sexualidade não são novidade, em especial no gênero comédia, onde o tema já foi abordado de diversas maneiras. Mas “Hasta La Vista” consegue se diferenciar dessas outras produções, pois apresenta um novo ponto de vista sobre as aventuras em busca da “primeira vez”: o ponto de vista dos deficientes físicos. Já na cena inicial, descrita anteriormente, é possível notar algo incomum no filme. A trilha sonora meio melancólica, os tons cinza da fotografia, o céu nublado e o clima frio são elementos que deixam no ar indícios de que também existe drama nessa história.

Ao voltar de seu final de semana no litoral, Philip (que é tetraplégico), reencontra seus amigos, Lars (Gilles de Schrijver) que perdeu o movimento das pernas em decorrência de um câncer, e Jozef (Tom Audenaert) que é praticamente cego, trazendo uma proposta: que os três façam uma viagem, sozinhos, para a Espanha. Lá eles poderão finalmente experimentar os prazeres do sexo em um bordel onde as prostitutas são especializadas em clientes “especiais” como eles, o famoso Club Cielo.
Os amigos resolvem então pedir a autorização – e o financiamento – dos pais, dizendo que pretendem viajar para fazer um circuito de degustação de vinhos durante duas semanas por diversos países, terminando na Espanha. Os pais acabam aceitando, encontram um guia/enfermeiro experiente para acompanhar os jovens, compram as passagens, fazem as reservas e acertam todos os detalhes. Mas na última hora, os exames de Lars revelam que seu câncer atingiu um estágio mais avançado, e que não existem mais possibilidades de cura.

Abalados pela notícia, os pais de Lars cancelam a viagem, mas os amigos resolvem seguir em frente. A viagem agora ganha novos significados e novos propósitos. Não se trata apenas de perder a virgindade, mas de realizar o que pode ser o último desejo de um grande amigo. Com esse objetivo, os três conseguem o contato de outro enfermeiro, Claude, que aceita acompanhá-los na viagem mesmo sem o consentimento dos seus responsáveis. Para a surpresa dos viajantes, eles descobrem que Claude é uma mulher (Isabelle de Hertogh). Dirigindo uma van avariada, a obesa e calada tutora acaba se tornando a guia dos amigos em sua jornada.

A grande virtude do jovem diretor Enthoven é conseguir um bom equilíbrio entre o drama e a comédia. Não há como negar que a deficiência física é um tema delicado, mas o cineasta consegue o feito de fugir do politicamente correto, sem nunca ofender os portadores de necessidades especiais. Um trabalho extremamente sensível, que consegue arrancar gargalhadas e lágrimas sem esforço, e que só apresenta alguns deslizes perto de seu desfecho. Ainda assim são falhas compreensíveis para um diretor em início de carreira.

A empatia que o filme gera vem diretamente da ótima construção de seus personagens. Aqui os deficientes nunca são retratados como coitados, ou pessoas isentas de imperfeições em sua personalidade. O principal exemplo disso é Philip, com seu temperamento explosivo, que por muitas vezes acaba magoando seus próprios amigos, fazendo piadas com eles ou com o peso avantajado de Claude. Enthoven faz questão de mostrar que Philip não é digno de pena devido a sua condição física, e que deve sim ser repreendido quando erra. Seus atos também têm consequências. Todos os personagens são mostrados como pessoas reais, com desejos comuns a todos nós, e o trabalho dos atores é extremamente competente para nos fazer acreditar nisso. Os destaques ficam por conta de Audenaert e de Hertogh, como Jozef e Claude, respectivamente. O ceguinho de bom coração tem as melhores piadas do longa, enquanto a atriz belga oferece uma interpretação simpática e comovente.

Filmando com segurança, o diretor é capaz de transmitir todas as dificuldades e incômodos da vida das pessoas que utilizam cadeiras de rodas, e também de proporcionar belos momentos de fantasia, como o a sequência dos três personagens principais no Club Cielo, chegando literalmente nas “portas do paraíso”. “Hasta La Vista” é uma obra diferente, que consegue fugir do rótulo de filme de arte sem cair no conceito mais banal de filme comercial. É divertido, emocionante e ainda traz uma mensagem de otimismo para o espectador. Embarcar nessa viagem é com certeza uma experiência prazerosa.

Por Leonardo Ribeiro

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