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“Invocação do Mal” e a construção de um bom susto

Audiovisual | Leonardo Ribeiro 12/09/13 - 03h Leonardo Ribeiro

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Os filmes de terror sobre casas mal assombradas já se mostram saturados há algum tempo, sendo difícil encontrar uma produção que realmente traga alguma novidade sobre o tema. Desde os filmes da produtora de terror inglesa Hammer, passando pelos grandes exemplares dos anos 50 e 60 dirigidos por William Castle, como “A Casa dos Maus Espíritos” (House on Haunted Hills) com Vincent Price, “13 Fantasmas” ou clássicos como “Desafio ao Além” (The Haunting) de Robert Wise, esse subgênero do terror desperta um grande interesse do público. O assunto continuou a ser explorado nos anos 70 e 80 com grande sucesso em longas como “Poltergeist”, dirigido por Tobe Hooper e produzido por Steven Spielberg, e “Horror em Amityville” de Stuart Rosenberg, ambos ganhando diversas continuações. Já nos anos 90, esses filmes pareciam perder o fôlego, com remakes mal sucedidos, como “A Casa Amaldiçoada” (refilmagem de “The Haunting”) e “A Casa da Colina” (remake de “House on Haunted Hills”).

Um sopro de qualidade e criatividade para o subgênero só viria em 2001, com “Os Outros”, do espanhol Alejandro Amenábar. A aclamação de crítica e público do filme estrelado por Nicole Kidman fez com que sua receita fosse imitada à exaustão nos anos seguintes, mantendo os filmes de casas mal assombradas em uma zona de conforto que só seria quebrada recentemente com o enorme – e inesperado – sucesso da série “Atividade Paranormal”, que apostou em um tom documental de baixo orçamento e em uma ótima estratégia de marketing para conquistar as plateias do mundo todo.

Dentro desse panorama, “Invocação do Mal”, de James Wan, não foge muito à regra do que já foi estabelecido dentro de seu segmento cinematográfico, apresentando uma trama com diversos clichês já vistos em outros filmes. O que o diferencia da média das produções deste subgênero, é o modo como esses clichês são trabalhados. As sombras, os sons que surgem na madrugada, animais com comportamento estranho, relógios que param sem explicação, bonecas macabras, um porão que guarda segredos, espíritos e exorcismo. Todos esses elementos são utilizados pelo diretor para construir uma sólida atmosfera de suspense, e é a qualidade dessa construção que garante o sucesso do filme.

THE CONJURINGWan já havia demonstrado essa competência anteriormente em “Sobrenatural”, um grande sucesso de bilheteria de 2010, tendo custado pouco mais de R$ 1 milhão de dólares e faturado mais de R$ 50 milhões só nos EUA, e no primeiro (e único realmente relevante) filme da série “Jogos Mortais”, que, para o bem ou para o mal, conseguiu injetar alguma dose de vitalidade no gênero de terror na época de seu lançamento. O segredo de Wan é simples: elevar ao máximo a tensão antes de entregar ao público o que ele já espera: o susto. Sequências bem elaboradas, como a da brincadeira das palmas, conseguem ser extremamente eficientes, pois Wan as conduz sem pressa, empregando o timing exato em seus movimentos de câmera e no uso da trilha sonora para conseguir o resultado desejado. Os sustos não são gratuitos, são calculados com precisão.

Outro acerto de Wan é apostar mais no clima de terror do que no terror gráfico. Há algumas cenas de gore, com sangue e violência, mas elas ficam reservadas para o final, assim como o visual das criaturas demoníacas que assombram a casa. Dessa maneira, o diretor segue um dos principais itens da cartilha do suspense, que é fazer o público temer o desconhecido, trabalhando mais com a sugestão do que realmente mostrando.

the-conjuring-posterO bom elenco é outro fator que conta a favor do longa. Vera Farmiga e Patrick Wilson, que vivem o casal de especialistas no sobrenatural, dão credibilidade a seus papéis e merecem destaque, ao lado de Lili Taylor, que interpreta a mãe da família que vive na casa possuída por seres demoníacos. Seus personagens possuem arcos dramáticos que, dentro do possível, são bem trabalhados. A ambientação de época (nos anos 70) também contribui para a criação do clima gótico do filme, dando um ar retrô que ajuda o longa a se diferenciar um pouco mais de outros similares. O fato de se dizer baseado em uma história real, os personagens realmente existiram (os créditos finais incluem fotografias do casal Lorraine e Ed Warren, além de recortes de jornais com notícias sobre seus casos mais conhecidos) serve apenas como uma curiosidade, não influenciando diretamente no resultado final. E no meio de tudo, sobra espaço até para uma homenagem ao mestre do suspense, Alfred Hitchcock, e uma de suas obras-primas, “Os Pássaros”.

Sendo assim, mesmo sem ter uma trama inovadora, “Invocação do Mal” consegue ser extremamente eficiente, provocando tensão e sustos genuínos. Um filme acima da média para as produções do gênero, tendo provado isso em sua ótima bilheteria e aceitação da crítica. O fascínio do ser humano pelo sobrenatural e o prazer quase sádico causado pelo terror permanecem mais vivos do que nunca.

*O filme estreia nas salas de todo o Brasil na próxima sexta-feira 13.

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Leonardo Ribeiro

Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Um devoto de São Hitchcock, que tenta unir o prazer de escrever ao prazer de discutir e analisar a sétima arte. Facebook: https://www.facebook.com/leo.sp.ribeiro Twitter: @leospribeiro

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