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Jogos Vorazes: Em Chamas – Um blockbuster de alma política

Audiovisual | Leonardo Ribeiro 25/11/13 - 10h Leonardo Ribeiro

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Lançado em 2012, “Jogos Vorazes”, a primeira parte da adaptação cinematográfica da obra literária de Suzanne Collins, surgiu como um bom cartão de visitas para a potencial nova franquia adolescente do momento. Passado pouco mais de um ano, a sua continuação, “Jogos Vorazes: Em Chamas”, não só solidifica o posto da franquia, como amplia o apelo e a importância da jornada da jovem Katniss Everdeen, sua personagem principal.

Apesar de suas falhas, o primeiro longa da série já havia conseguido estabelecer com sucesso o universo criado por Collins, de um futuro distópico dominado por um governo totalitário, com influências claras e conhecidas, que vão de “1984” e “Fahrenheit 451” até “Metrópolis” e “The Most Dangerous Game”.

O contexto político e social já estava presente neste capítulo inicial da série, mas por se tratar de uma introdução de história e personagens, ainda não havia sido tão bem explorado, algo que muda radicalmente nesta sequência, onde se transforma em seu fio condutor. Na trama, após vencerem os 74º Jogos Vorazes, utilizando uma manobra que apelava para um romance juvenil, Katniss (Jennifer Lawrence) e Peeta (Josh Hutcherson) tornam-se, ainda que inconscientemente, símbolos de contestação ao governo por desafiarem as regras pré-estabelecidas do torneio. Ao mesmo tempo em que são vistos pela população como uma chama de esperança adormecida há muito tempo, o jovem casal, por consequência, é visto pelos governantes da Capital, liderados pelo presidente Snow (Donald Sutherland), como uma ameaça real ao sistema.

jogosvorazesEm tempos de levantes rebeldes e conflitos constantes em países como Síria e Egito, e mesmo das diversas manifestações recentes ocorridas no Brasil, este cenário da ficção de Collins ganha uma ligação muito forte com o público, soando extremamente real e atual. Temas como a luta de classes, desigualdade social, abuso de poder político e manipulação da mídia estão presentes no cotidiano da população dos dias de hoje, e todos estes temas têm o seu reflexo nas telas com “Jogos Vorazes”, fazendo com que a obra ganhe um significado que vai além do mero entretenimento. “Lembre-se de quem é o verdadeiro inimigo”, a frase repetida ao longo projeção, e utilizada como slogan nos cartazes, representa o verdadeiro espírito da produção.

É claro que entreter e gerar lucro continuam sendo o objetivo principal da série. Por isso mesmo, nem sempre esse contexto político é aprofundado. Ainda assim, ele é apresentado de forma bastante contundente, a ponto de conseguir fugir da banalidade que geralmente domina este tipo de produção, gerando o interesse de quem procura uma diversão com algum nível de conteúdo.

Este clima de revolução política permeia todo o longa, afetando as ações dos personagens e causando novas consequências. Os conflitos morais de Katniss, por exemplo, são influenciados por este contexto, à medida que a garota se vê no dilema de não incitar o espírito rebelde da população em função das represálias do governo. A identificação entre a população dos 12 Distritos e Katniss é também a mesma entre o público e a história do filme. É impossível não ver o personagem (caricato, é verdade) do chefe da polícia pacificadora do governo da Capital e não se lembrar dos abusos de violência dos oficiais da PM no Brasil durante os protestos recentes. Através dessa aproximação com o público, o novo capítulo da saga consegue ampliar sua abrangência.

O filme também trabalha bem o conceito da criação de um símbolo, seja no gesto de protesto feito com as mãos, na figura do Tordo ou na própria Katniss, uma espécie de ídolo ideológico, como se fosse uma “Che Guevara com arco e flecha”.

Para conseguir cativar seu público, um dos trunfos de “Jogos Vorazes” é o seu excelente elenco. Jennifer Lawrence, agora vencedora do Oscar, reafirma aqui o seu talento e carisma para carregar uma grande franquia. A bela atriz é acompanhada por um ótimo elenco coadjuvante, que além dos citados Hutcherson e Sutherland, ainda inclui Woody Harrelson, Stanley Tucci, Jeffrey Wright, Amanda Plummer e Philip Seymour Hoffman. Este último em um papel sempre dúbio e misterioso, que terá importância fundamental para o desenrolar da série, sem dúvidas uma grande adesão ao elenco original. E até mesmo personagens menores, como os de Lenny Kravitz e Elizabeth Banks, ganham mais espaço e importância.

jogosvorazes3Sem esquecer que estamos dentro da indústria hollywoodiana, o longa também reserva a sua dose de romance, com direito a um triângulo amoroso complicado, e de ação. Neste último quesito, o filme também pode ser considerado uma evolução em relação ao primeiro. O novo diretor, Francis Lawrence (“Constantine” e “Eu Sou Lenda”) demonstra mais desenvoltura para as sequências de ação do que o cineasta anterior, Gary Ross (“Seabiscuit”, “A Vida em Preto e Branco”), que se utilizava em demasia do artifício da câmera na mão. Lawrence consegue dar uma fluência melhor às cenas mais movimentadas, com boas doses de tensão e aventura, como no ataque dos macacos. O orçamento maior da nova aventura também pode ser percebido na tela, com o aumento da escala dos eventos e dos valores de produção (efeitos especiais, cenários, figurinos). Mas a ação, reservada para o terceiro ato, é mesmo eclipsada pelo pano de fundo político do longa, e quando isso acontece em uma produção tão comercial, sabemos que estamos diante de um produto diferenciado.

Com essa boa mescla de gêneros e elementos, “Jogos Vorazes: Em Chamas” supera as expectativas deixadas pelo filme anterior e também as dificuldades de ser um longa intermediário, de transição, dentro de uma tetralogia, começando diretamente após os eventos ocorridos anteriormente e sem possuir uma conclusão. Mesmo que o conhecimento prévio seja necessário, o longa funciona bem isoladamente.

Assim, depois de várias outras adaptações de livros de fantasia que não obtiveram o sucesso esperado, a franquia “Jogos Vorazes” consegue preencher uma lacuna do mercado, vazia desde o fim da saga “Harry Potter”. E, com o perdão dos fãs dos livros de J.K. Rowling e suas competentes adaptações para o cinema, as aventuras de Katniss ainda acrescentam uma relevância para o panorama do mundo atual ausente nas histórias do bruxo de Hogwarts.

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Leonardo Ribeiro

Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Um devoto de São Hitchcock, que tenta unir o prazer de escrever ao prazer de discutir e analisar a sétima arte. Facebook: https://www.facebook.com/leo.sp.ribeiro Twitter: @leospribeiro

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