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Luz nas Trevas

Audiovisual 25/05/12 - 05h Cult Cultura

Os letreiros luminosos do cinema avisam: esse filme é um melodrama e seu protagonista é infinito. “Todo romance é uma farsa”, afirma Luz Vermelha (Ney Matogrosso) logo na sequência. Esses primeiros minutos servem como um aviso ao espectador sobre o tom que irá dominar toda a projeção. Um tom farsesco, satírico e irreverente. “Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha”, de Helena Ignez e Ícaro Martins, é uma continuação – bem diferente do que estamos acostumados, é verdade – de “O Bandido da Luz Vermelha”, obra fundamental do cinema nacional, dirigida por Rogério Sganzerla. “Luz nas Trevas” é antes de tudo um projeto bem pessoal, um sonho que Sganzerla não conseguiu tirar do papel antes de sua morte em 2004. Com o roteiro pronto deixado pelo marido, Helena Ignez (protagonista do filme original) resolveu dar vida ao filme com a participação de amigos e da família. A filha do casal, Djin Sganzerla, interpreta a prostituta Jane e o genro, André Guerreiro Lopes, interpreta o co-protagonista do longa, o bandido Tudo-ou-Nada.

O filme acompanha paralelamente a história do Bandido da Luz Vermelha, preso em uma cela particular de um presídio de segurança máxima, onde vive com algumas regalias por ter assumido a autoria de crimes que não cometeu, e de seu filho Tudo-ou-Nada (nome que é uma ótima sacada, diga-se de passagem), que após descobrir a identidade do pai, resolve emular o estilo de seus crimes, utilizando sempre o icônico lenço vermelho para cobrir o rosto e a lanterna de luz vermelha durante seus assaltos. Como não poderia deixar de ser, Ignez e Martins procuram filmar com o estilo Sganzerla, e são bem sucedidos nessa tentativa. A montagem fragmentada, o uso da trilha sonora, citações a Godard, a narração jocosa e com trechos radiofônicos, as inserções de imagens de arquivo e do filme original de 1968, além de outras referências a obra de Sganzerla, como “O Signo do Caos”, conseguem preservar o espírito crítico e revolucionário que marcaram as produções do ícone do cinema marginal. A história não linear, na verdade, não importa muito. A intenção de “Luz Nas Trevas” é mostrar que muita coisa permanece a mesma desde o lançamento do primeiro filme. A criminalidade, a corrupção policial e política, a situação carcerária precária, tudo isso é retratado no filme sempre com um tom de escracho, de ironia.

Muitas dessas críticas podem parecer primárias e até infantis, mas elas estão completamente de acordo com a proposta do filme, assim como as interpretações caricatas dos atores para todos os personagens. O carcereiro sádico, o policial inescrupuloso, o político ladrão, todas essas figuras são apresentadas de forma propositalmente exagerada. O filme cria um universo próprio, uma realidade alternativa torta – algo que é reforçado pelo uso constante de planos com o ângulo oblíquo (ou ângulo holandês), para mostrar o desequilíbrio dos personagens e da sociedade apresentada no filme – e assume também, sem nenhum medo, a metalinguagem. Os personagens quebram a quarta parede por diversas vezes, falando diretamente para o público e até interferindo na narração.

Contando com mais recursos que seu marido, Ignez filma com grande talento e insere mais “modernismos” no filme. Toda a sequência que mostra a entrada de Tudo-ou-Nada no mundo crime, contada através de ilustrações de histórias em quadrinhos famosas (como Zorro, Tarzan, entre outras) é magnífica, uma prova do grande apuro estético da diretora e seu parceiro. A fotografia, a direção de arte e toda a parte técnica do filme também merecem destaque.

No papel principal, Ney Matogrosso se mostra uma escolha inusitada, mas que funciona perfeitamente. O cantor possui uma presença interessante e carismática, e mesmo que “declame” as suas falas com tom teatral, isso ajuda a reforçar as intenções dos cineastas. André Guerreiro Lopes também segue a mesma linha, e Djin Sganzerla empresta seu talento e beleza à personagem, para deleite dos espectadores. Vale ressaltar também todas as pequenas participações especiais do filme, que vão de Paulo Goulart a Thunderbird, de Criolo a Zé do Caixão, mostrando todo prestígio do nome de Sganzerla e dando um toque ainda mais divertido para o filme.

Fazer dessa grande colagem de referências algo com significado e sentido dentro de seu universo, é o grande mérito do filme, que conserva a sua proposta até a cena final, que mostra as imagens de Ney Matogrosso vestido de cowboy moderno, interpretando sua própria música, “Sangue Latino”, mescladas com cenas da rebelião no presídio e de discos voadores! Exemplo perfeito da transgressão pretendida pelos realizadores. Até a própria letra da música (“Minha vida, meus mortos. Meus caminhos tortos”) ganha mais força e sentido dentro desse cenário, sem soar como um “agrado” gratuito ao cantor.

“Luz nas Trevas” é único, é anárquico, um produto que foge a todos os padrões da produção cinematográfica atual brasileira. Dizer isso não é apenas fazer um grande elogio, mas também afirmar que essa é a melhor homenagem que Rogério Sganzerla poderia receber.

Por Leonardo Ribeiro

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