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#CultIndica: Mad Men na Netflix

Audiovisual | CultIndica | Leonardo Cássio 27/09/16 - 08h Leonardo Cassio

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A série Mad Men (2007-2015) é um dos grandes trunfos televisivos da atualidade. Em sete temporadas, conquistou uma bagatela de prêmios, com destaque para os quatros anos consecutivos de Melhor Série Dramática no Emmy Awards nos anos de 2008 a 2011 e a premiação de Melhor Ator no último ano do projeto. Mais do que isso: alçou carreira internacional para o quase desconhecido Jon Hamm, protagonista de Mad Men, e inseriu o canal AMC no panteão de grandes produtores de conteúdo original. Com um início complicado, como é possível explicar o sucesso estrondoso de MM?

Mad Men conta a história de Don Draper (Jon Hamm), diretor de criação na agência Sterling Cooper, sediada na Madison Avenue, em Nova York, na década 60. O nome da série, inclusive, é um trocadilho com o nome da avenida – mad é um diminutivo de Madison – e significa, também, “louco”. Draper é reconhecido no mundo da publicidade como um criativo ímpar, dono de um talento singular e peculiar. Porém, sua fama estende-se sobre seu jeito de ser: mulherengo, com o pezinho no alcoolismo, workaholic e egoísta. O ponto dramático da série é justamente mostrar como Draper, um sujeito genial, tem um comportamento tido como estranho, o que é explicado aos poucos devido ao seu conturbado passado.

Destrinchando a vida de Don Draper, Mad Men começa a tecer um retrato da cultura e da história norte-americana da época. Draper teve um passado miserável e violento, passou pela guerra da Coreia na década de 50 e após reviravoltas trocou de nome para esconder seu passado e se recriar como pessoa. Casou com uma mulher bonita, teve filhos e prosperou na vida, sendo o perfeito exemplo do American Way of Life. Inserido no mundo predatório da publicidade, que viveu um dos ciclos de apogeu nos anos 60, Draper ilustra o típico classe média americano em busca de ascensão profissional, deixando questões éticas e morais de lado se preciso, encarnando a perfeita faceta do businessman engravatado. A reconstrução dessa figura é um ponto alto da série: Draper, assim como seu sócio Roger Sterling (John Slattery) e outros personagens, bebem no escritório desgovernadamente, desde as 10h da manhã, hábito da época; fumam compulsoriamente em qualquer lugar, incluindo aviões, permitido até então, e fazem reuniões e jornadas de trabalho implacáveis, fato herdado por agências e recorrente hoje em dia.

O passado de Draper e seu estilo de vida começam a contrastar com as mudanças ocorridas no Estados Unidos. É quando o trabalho do criador da série, Matthew Weiner, mais se destaca. Draper termina seu casamento envolto e diversas traições, cuja mulher Betty (January Jones) sempre foi sufocada a ser dona de casa por ele. Ao mesmo tempo, em um período de alto sexismo e poucas oportunidades para as mulheres, o diretor de criação concede a uma secretária, Peggy Olson (Elisabeth Moss), um cargo de redatora e Joan (Cristina Hendricks), uma das personagens mais assediadas da história da TV, enfrentou bastante coisa até se tornar uma das sócias da agência. A homossexualidade, então, era um tópico tabu, considerada doença grave.

Os anos 60 são conhecidos pelo enfrentamento racial. Na etapa final da série, personagens negros começaram a fazer parte da agência, que passava por processos de fusão e consequente aumento, ao mesmo tempo que Martin Luther King. O primeiro computador é apresentado ao mundo um pouco antes do homem chegar à lua e o presidente Kennedy ser morto por um tiro fatal. Os hippies começam seu trajeto paralelamente à Guerra do Vietnã.

Todas essas contradições do contexto histórico norte-americano conversam com as contradições de Draper. Ao ter o próprio passado esmiuçado, o anti-herói inicia uma jornada de autoindulgência, tentando enfrentar fatos que havia soterrado e viver acontecimentos no presente, dos quais não pode se esquivar. Trafegando entre um cretino genial inescrupuloso e um ser frágil, solitário, buscando ser alguém melhor, Draper encarna a dicotomia da nova vida urbana que florescia no que viria ser a maior metrópole do mundo, NY: ser bem-sucedido profissionalmente e ter uma família padrão – não necessariamente feliz -, coisas que pareciam não mais conversar.

A força motriz de Mad Men está justamente no amplo perfil psicológico das personagens, com destaque, claro, para o protagonista. Os conflitos internos somados ao caótico cenário social da época nos EUA postulou o drama como uma das produções de época mais bem-sucedidas.

Apesar de todo esse reconhecimento, o início, como de muitos projetos, não teve glória alguma. Matthew Weiner, que trabalhou na premiada série “Os Sopranos”, teve recusa de canais que trabalhavam com conteúdo próprio, conseguindo abertura de seu projeto piloto no canal AMC, um patinho feio até então. O canal topou o projeto e, mesmo com um primeiro ano com audiência relativamente baixa, a série começou a cair no gosto do público e acabou por virar um fenômeno. A AMC encabeçou, ainda, dois outros grandes campeões de audiência: “Breaking Bad” e “The Walking Dead“, consolidando-se como grande produtora de seriados de alto nível em padrão internacional. Um fator que chama a atenção é o interesse do público por histórias lideradas por anti-heróis ou vilões (Mad Men, Breaking Bad, Narcos, House of Cards) e que não necessariamente terão o happy end tradicional.

Fora todas essas camadas de assuntos abordados na série, é muito interessante a presença de diversas marcas que efetivamente tiveram grandes campanhas criadas e veiculadas nos anos 60, inclusive uma feita pelo município do Rio de Janeiro para alavancar o turismo. Mad Men é uma obra coesa, histórica e artisticamente falando, cujo potencial encontra-se no drama existencial de cada personagem.

Todos os episódios de Mad Men estão disponíveis na Netflix.

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