Fechar Menu [x]

Nouvelle Vague: 55 anos da nova onda francesa que mudou o cinema

Audiovisual | Leonardo Ribeiro 02/09/13 - 04h Leonardo Ribeiro

nv1

França, década de 1950. Um grupo de jovens críticos de cinema, liderados pelo teórico André Bazin, surge como uma voz contestadora, questionando o modelo do cinema comercial francês da época. As adaptações literárias, as biografias de grandes personalidades e os filmes de época eram os gêneros que dominavam a produção local. Dentro desses temas considerados “nobres” e regidos pela formalidade griffithiana (de D. W. Griffith, o norte-americano pai da linguagem cinematográfica, com “O Nascimento de Uma Nação”, 1914, e “Intolerância”, 1916), os jovens críticos não viam a realidade seu país, e tampouco sentiam alguma identificação com os temas abordados. Através de seus textos na Revista Cahiers du Cinema, o grupo formado por nomes, como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Pierre Kast, demonstrava esse inconformismo com o sistema de produção do cinema francês.

Uma das críticas mais contundentes e polêmicas do grupo a este modelo cinematográfico está no artigo-manifesto “Uma Certa Tendência do Cinema Francês”, escrito por Truffaut, em 1954. Nele, Truffaut contesta não só a forma dos filmes, como também o sistema de estúdios que praticamente impossibilitava o surgimento de novos diretores com novas ideias. O ensaio “A Política dos Autores”, escrito por Bazin, em 1957, traduz a visão do grupo sobre a arte de fazer cinema. Antes de tudo, os jovens críticos eram cinéfilos por excelência, fãs declarados de cineastas que, mesmo em meio ao sistema de estúdios, conseguiam impor seus traços autorais.

Nomes do cinema americano como Alfred Hitchock, Howard Hawks, John Ford, Robert Aldrich, Nicholas Ray e Orson Welles, os italianos Michelangelo Antonioni e Roberto Rossellini, o alemão Fritz Lang, os japoneses Akira Kurosawa e Yazujiro Ozu, além dos franceses Jean Renoir, Jean Vigo, Robert Bresson, Jean Cocteau e Jacques Tati, estavam entre os modelos e principais influências dos críticos da Cahiers. Para Truffaut, Godard e companhia, os filmes eram como livros ou quadros, e deveriam refletir a visão única de seus autores, suas personalidades. Utilizando todos os cineastas citados anteriormente, além de outros, como exemplo, o grupo combatia o que chamava de “Tradição de Qualidade do Cinema Francês”.

Após anos de contestação teórica, os jovens da Cahiers resolveram colocar a sua admiração pelos autores do cinema em prática. O primeiro deles foi Claude Chabrol, que em 1958 lançou “Nas Garras do Vício” (Le Beau Serge), considerado o marco inicial de um movimento cinematográfico, denominado pela jornalista Françoise Giroud, da revista L’Express, como Nouvelle Vague, a “Nova Onda” do cinema francês. O impacto foi imediato. O novo estilo, quase documental, de baixo orçamento e sem nomes famosos no elenco, conseguiu chamar a atenção de público e crítica, como um objeto não identificado em meio ao classicismo dominante no meio. No mesmo ano em que a voz da juventude da Cahiers começa a ecoar na França, o grupo perde o seu guru espiritual, André Bazin, falecido precocemente aos 40 anos de idade em decorrência da leucemia.

AcossadoApesar da grande perda, os “jovens turcos”, como eram conhecidos os críticos da Cahiers, não se abalam e em 1959 lançam duas obras fundamentais da Nouvelle Vague: “Acossado” (A Bout de Soufle), de Godard e “Os Incompreendidos” (Les Quatre-Cents Coups), de Truffaut, este último que representou a consagração do movimento, com Truffaut levando o prêmio de direção no Festival de Cannes de 59 e a indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Ambos os filmes são exemplos perfeitos da proposta dessa nova onda de cineastas, representando uma clara ruptura com a estrutura cinematográfica clássica, abandonando a lei da progressão dramática, que dividia a trama em exposição, intriga, clímax e desfecho.

Tanto “Acossado” quanto “Os Incompreendidos” adotam uma narrativa muito mais livre, por vezes fragmentada, onde não há heróis, mas anti-heróis. Eram figuras do cotidiano francês, que representavam os percalços, amarguras e alegrias do dia a dia da classe média e baixa do país. Esteticamente, os longas também se diferenciavam pelo uso da câmera na mão, das locações fora dos estúdios, da iluminação natural (elementos que os dinamarqueses do manifesto Dogma 95 pregariam como “novidade”, anos mais tarde), além de escolhas radicais de edição, como os jump cuts (cortes que quebram a continuidade, pulando de uma parte da ação para outra, separada da primeira por um breve intervalo de tempo).

Na esteira de Godard e Truffaut, os outros integrantes do grupo também lançam seus primeiros trabalhos, sem tanta repercussão, mas ajudando o movimento a ganhar corpo: Pierre Kast, com “Amores Fracassados”, Eric Rohmer, com “O Signo do Leão” e Jacques Rivette, com “Paris Nos Pertence”. Por questões diversas, tanto Rohmer quanto Rivette só alcançariam um maior reconhecimento alguns anos mais tarde, no final da década de 60 e início da de 70. Além dos egressos da Cahiers Du Cinema, outros cineastas franceses, experientes e novatos, foram influenciados pela nova onda, como Louis Malle (“Ascensor para o Cadafalso”, “Zazie no Metrô”), Jean-Pierre Melville (“Bob, Le Flambeur”, “O Samurai”), Agnès Varda (“Cléo das 5 às 7”), Alain Resnais (“Hiroshima Mon Amour”, “Ano Passado em Marienbad”) e Roger Vadim (“…E Deus Criou a Mulher”).

jules-et-jim_411893_9403Mesmo com tantos grandes nomes envolvidos, é inegável que a dupla principal da Nouvelle Vague era mesmo a formada por Godard e Truffaut. Os dois funcionavam como uma espécie de yin e yang do movimento, pois, mesmo com a mesma ideologia, seus estilos eram complementares. Truffaut era o lírico realista, com uma queda pelo romance, a comédia e pela ironia, algo que pode ser confirmado em seus maiores clássicos, como “Jules e Jim”, “Atirem no Pianista” e “Beijos Roubados”. Já a Godard cabia o papel de desconstrucionista, sempre apostando no experimentalismo para desafiar os limites da linguagem cinematográfica, além de ser mais politizado em seu discurso, como pode ser visto em “O Demônio das Onze Horas”, “Viver a Vida”, “Alphaville”, “O Desprezo” e tantos outros de sua extensa filmografia. Godard foi, e ainda é aos 83 anos, o mais prolífico dos cineastas de sua geração.

Jean_Seberg_8212E não só os diretores, como toda uma geração de atores também ficou marcada pela Nouvelle Vague. Galãs como Jean-Louis Trintignant, Jean-Paul Belmondo, Jean-Pierre Léaud e as musas dos cineastas da época, como Jean Seberg, Anna Karina e Brigitte Bardot, tornaram-se ícones do cinema mundial graças ao movimento.

Toda essa revolução causada pelo movimento da nova onda do cinema francês, gerou muito mais do que mudanças estéticas ou estilísticas. Ela causou uma mudança de pensamento sobre fazer cinema, sobre o papel do diretor, dos estúdios, etc. Pode-se dizer que o cinema independente das décadas posteriores deve quase tudo aos franceses dos anos 50. Sua influência culminou no surgimento de diversos outros movimentos pelo mundo inteiro, como:

– O Free Cinema na Inglaterra, do qual fizeram parte Tony Richardson (“As Aventuras de Tom Jones”, “The Loneliness of The Long Distance Runner”), Karel Reisz (“Tudo Começou Num Sábado”) e Lindsey Anderson (“Se…”)

– O Novo Cinema Alemão de Wim Wenders (“Asas do Desejo”, “Paris, Texas”, “O Amigo Americano”), Volker Schlöndorff (“O Tambor”, “A Hora Perdida de Katharina Blum”) e Werner Herzog (“Fitzcarraldo”, “O Enigma de Kaspar Hauser”, “Aguirre”).

– O Cinema Novo brasileiro com Glauber Rocha (“Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe”, “A Idade da Terra”) e Ruy Guerra (“Os Cafajestes”). O lema “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão” vem diretamente da revolução proposta pela Nouvelle Vague.

Isso sem falar em toda a geração norte-americana da década de 70, a chamada Nova Hollywood, com Woody Allen, Robert Altman, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, William Friedkin, Bob Rafelson, Michael Cimino, Hal Ashby, Monte Hellman, Dennis Hopper, Martin Scorsese, George Lucas e Steven Spielberg. Todos começaram suas carreiras com desejos de acabar com o sistema de estúdios hollywoodiano, buscando a liberdade criativa. A proximidade desses nomes norte-americanos com os franceses era tanta, que o próprio Truffaut chegou a atuar em “Contatos Imediatos do terceiro Grau” de Spielberg, por exemplo. É claro que não deixa de ser irônico que, anos mais tarde, Spielberg e Lucas tenham sido responsabilizados pela volta da ditadura dos estúdios e das bilheterias, com seus blockbusters: “E.T”, “Tubarão”, “Guerra nas Estrelas”, etc. Mas isso já é outra história.

O que é inegável é a importância histórica da Nouvelle Vague, capaz de exercer influência sobre os mais variados autores até os dias de hoje. Basta assistir a “Os Sonhadores” do italiano Bernardo Bertolucci, repleto de referências e homenagens aos filmes de Truffaut e Godard, ou a “Cães de Aluguel”, de Quentin Tarantino, com sua narrativa fragmentada. Tarantino também homenageou o movimento no nome de sua produtora, “A Band Apart”, tirando-o do título de “Bande à Part”, de Godard.

E para celebrar os 55 anos da Nouvelle Vague, o MIS – Museu da Imagem e do Som de São Paulo está organizando uma mostra com 17 dos mais importantes títulos do movimento. A mostra que começa amanhã (03/09) vai até o dia 08/09. Uma excelente oportunidade para ver ou rever grandes clássicos dessa verdadeira revolução artística.

55 Anos da Nouvelle Vague
De 3 a 8 de setembro
R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia)
À venda na Recepção MIS e pelo site www.ingressorapido.com.br

Museu da Imagem e do Som – MIS
Auditório (172 lugares)
Av. Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo/SP
Informações: 11 2117-4777 / www.mis-sp.org.br

Tags: , , , , ,

COMPARTILHE ESTE POST

COMPARTILHE

COMPARTILHE

Leonardo Ribeiro

Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Um devoto de São Hitchcock, que tenta unir o prazer de escrever ao prazer de discutir e analisar a sétima arte. Facebook: https://www.facebook.com/leo.sp.ribeiro Twitter: @leospribeiro

RELACIONADOS