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O Final com o Fim do Dexter

Audiovisual 21/10/13 - 03h Leonardo Cassio

dexter

Umas das mais prestigiadas séries já feitas, Dexter, chegou ao seu final no dia 22 de setembro. O final da série deu fim (acabou) com um dos mais bem sucedidos personagens da televisão mundial. Não era de agora, desta última temporada. Mas ela particularmente e, em especial o último episódio, praticamente conseguiu descaracterizar e destroçar uma brilhante obra.

Dexter foi uma produção transmitida pelo canal Showtime e teve um total de oito temporadas. Começou em 2005 com uma recepção para lá de excelente. Em pouco tempo ganhou público e crítica, fato que se comprovou com o aumento vertiginoso de audiência e com as premiações seguidas ano após ano (11 Emmys, 7 Globos de Ouro, entre outros). Com um argumento simples e bárbaro, extraído do livro “Darkly Dreaming Dexter”, de Jeff Lindsay, arrebanhou uma multidão de fãs: um policial, percebendo que o filho se transformaria em um serial killer, decide tomar uma atitude drástica, dando-lhe um “código” para assassinar outros serial killers e proteger cidadãos de bem. Dexter, então, segue fielmente o código, sendo um analista forense especializado em sangue, o que lhe dá possibilidades amplas de ter contato com as piores espécies de assassinos.

O ápice criativo da série foi na quarta temporada, com o principal e melhor vilão aqui apresentado. Até este ponto trata-se de uma obra impecável, com roteiros instigantes, bem definidos e uma virada importante para o anti-herói homônimo da série.

Daí em diante o projeto começou a perder o fôlego. Com exceção de um vilão, todos os outros foram fracos, o protagonista começou a ter atitudes levianas que contradiziam os argumentos das quatro temporadas e os personagens secundários que rondaram a vida protagonista simplesmente não se encaixaram, tendo ligações rasas e desconexas.

DEXTER (Season 2)Dexter ganhou vida nas mãos de Michael C Hall, sendo também um dos produtores da série. A temporada de abertura e de apresentação da emblemática personagem trouxe excelentes perspectivas. Junto a Dexter, no núcleo principal da trama está sua irmã Debra (foto), ou Deb, vivida por Jennifer Carpenter que, só por curiosidade, é ex-mulher de Hall. Dexter é irmão adotivo de Debra.

Além desses dois, há Maria LaGuerta (Lauren Vélez), tenente da divisão de homicídios onde trabalham Dexter e Debra; Angel Batista (David Zayas) detetive; Vince Masouka (C. S. Lee), investigador forense, par de Dexter; Joey Quinn (Desmond Harrington), detetive transferido para a divisão de homicídios em questão, e Harry Morgan (James Remar), pai falecido de Dexter que aparece em forma de fantasma.

Deste ponto em diante do texto teremos uma série de spoilers.

A vinheta de abertura do seriado faz uma alusão provocativa ao “espírito” do protagonista. Apresenta-o cozinhando e se arrumando antes de sair de seu apartamento, com imagens dúbias do que está sendo cortado, triturado, misturado, etc. Belezinha.

A estrutura criativa do seriado optou por se ter um vilão por temporada (didatismo um pouco exagerado) e alguns outros pequenos malfeitores que “preencheram” pequenas lacunas do roteiro. Tivemos como principais vilões: Ice Truck Killer ou Brian Moser (Rudy Cooper), irmão biolóigico de Dexter; Lila West (Jamie Murray); Miguel Prado (Jimmy Smits); Trinity ou Arthur Mitchell (John Lithgow) – esse, o melhor vilão -; Jordan Chase (Jonny Lee Miller); Travis Marshall (Colin Hanks); Isaak Sirko (Ray Stevenson) e Oliver Saxon (Darri Ingolfsson).

Os roteiristas e produtores passaram quatro temporadas lapidando e construindo cuidadosamente um anti-herói denso, forte, que conseguia a cada execução cativar o público. A atuação contundente de Hall estigmatizou seu personagem como um benfeitor, contradição clara proposta pela série, uma vez que ele, por ser um assassino frio e calculista, acabava por “prestar um serviço de limpeza social”, eliminando “monstros” que aniquilavam pessoas inocentes.

A inteligência acima da média de Dexter e sua disciplina para manter sua dupla personalidade debatiam-se com a necessidade de se normalizar no dia a dia, buscando amigos, namoradas e uma relação familiar com sua irmã. Acontece que por mais que fosse metódico em cada assassinato que cometia e por mais que fosse uma pessoa discreta, ele trabalhava no principal núcleo de investigações de crimes de Miami e mais hora ou menos hora alguém iria suspeitar sobre sua real persona.

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A produção criou um equilíbrio perfeito entre a tríade Dexter – Vilões – Controle Social até a quarta temporada. Nestes quatro anos, a personagem evolui gradativamente, tendo combatentes à altura, aumentando gradativamente o grau de perspicácia de cada núcleo, dando inteligência, suspense e ação em níveis homeopaticamente corretos. Dexter, levantando desconfiança de pessoas próximas a si, conseguia, de forma, coerente manter seu disfarce e perseguir seus desafetos.

Só que aí na quinta temporada o anti-herói sofreu um trauma (morte de sua esposa Rita) que o tornou menos calculista e, pelo que vimos daí em diante, a equipe toda de produção do projeto sofreu o trauma junto. Quinta e sexta temporadas foram mornas, para não dizer outra coisa, e nem a participação especial de Julie Stiles deu grandiloquência aos episódios.

A sétima temporada teve um bom vilão: Isaak Sirko, The Wolf, mas já dava indícios de que o núcleo criativo cedia às pressões do núcleo econômico, dando mais ênfase à ação do que à profundidade psicológica do protagonista. Neste período da série, é perceptível que ela deveria ter acabado já há algum tempo e ficou uma questão no ar: a oitava temporada final salvará ou comprometerá o projeto?

Eis que veio ela e o trem descarrilado tombou de vez. Aconteceu de tudo na última temporada, menos o que deveria ter acontecido. Ela tornou-se óbvia, conceitualmente contraditória, desconexa e chata.

Apareceu a mentora do “código” e descobrimos que seu pai relutava sobre ele. A irmã, que cometeu um crime para salvá-lo, parecia não ter problema algum em ter se tornado uma assassina. Aí vem um vilão de olhos arregalados. Aí volta seu ex-amor, a serial killer Hannah McKay (Yvonne Strahovski). Surge um garoto assassino que Dexter tenta passar o código, Zach Hamilton (Sam Underwood). Quinn, que um dia teve certeza que Dexter era assassino, esquece-se disso. Batista, um dos personagens principais, nem imagina. Masouka descobre uma coisa que não serve para nada na série. Mal se sabe se seu papel serviu. Enfim, tudo fica muito solto. O episódio final, então, evidencia uma preguiça vertiginosa em desafiar os espectadores. Tudo é feito para terminar logo e rola uma decepção, infelizmente.

Desabona o projeto? De forma alguma, mas ele deixa de ser icônico para ser bom. Claro, quem é fã de cinema e séries precisa assistir Dexter. Mas esse mesmo fã que comprará o projeto cobrará mais à frente a queda qualitativa dele. Entre altos e baixos, fez história. Pena que deram uma amputada no assassino.

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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