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O Homem Duplicado

Audiovisual | Literatura 27/05/14 - 12h Leonardo Cassio

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Depois de praticamente quatro anos, ainda há muito luto a se prestar para o escritor português José Saramago. Único escritor em língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, Saramago possui uma bibliografia farta de obras-primas. São títulos do lusitano: “A Carverna” (2000), livro que trata sobre a perda do emprego, fazendo um retrato da atual e predatória sociedade de consumo; “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995), um dos mais conhecidos de Saramago, imortalizado nas telas do cinema pelas mãos do brasileiro Fernando Meirelles, que cria uma metáfora sobre a falta de visão da sociedade moderna e suas mazelas; “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991), um dos mais polêmicos, por humanizar a figura de Jesus (perda da divindade), criticando a religião de forma acentuada (Saramago era ateu), rendendo-lhe a perseguição e fortes críticas por parte dos católicos, sendo que, dos títulos que li dele, considero este o melhor.

Acabo agora a leitura de “O Homem Duplicado” (2002). E não poderia ser diferente: outra obra-prima. Neste livro, Saramago abordou a perda da identidade, criticando a homogenização das pessoas, a massificação das gentes, em um mundo, paradoxalmente, cada vez mais individualista, contando a incrível história do professor de História Tertuliano Máximo Afonso que, ao assistir a um filme indicado por um colega professor, descobre ter um sósia perfeito (que não é nenhum tipo clone ou experimento de laboratório).

O confronto dramático se dá no momento em que Tertuliano não mais consegue viver tranquilamente sabendo que há outro dele na cidade e resolve encontrar o ator Daniel Santa-Clara, seu duplicado. Essa escolha conduz a desdobramentos dramáticos na vida dos protagonistas e das pessoas a seus redores.

A crítica de Saramago é muito refinada. Durante a trama, Tertuliano Máximo Afonso é atordoado por sua “consciência”, nomeada não ao acaso de Senso Comum, que tenta convencer seu ouvinte a não conduzir esse encontro catastrófico. Só que o mundo está de ponta cabeça e quase ninguém segue a sensatez, o Senso Comum, e por isso as coisas estão como estão, um caos (uma das frases antes do início da trama apresentada no livro é: “O caos é uma ordem por decifrar / Livro dos Contrários“).

E, para minha surpresa, coincidentemente (e coincidências são sem quereres propositais) vi hoje o trailer do filme homônimo, que será lançado em junho e traz o ator Jake Gyllenhaal no papel dos duplicados (trailler abaixo).

E nada melhor do que uma passagem do livro para aguçar a sua curiosidade e fazer você ganhar (ou seria perder?) com uma boa leitura: “Olharam-se em silêncio, conscientes da total inutilidade de qualquer palavra que proferissem, presas de um sentimento confuso de humilhação e perda […] como se a chocante conformidade de um tivesse roubado alguma coisa à identidade própria do outro“.

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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