Fechar Menu [x]
Se Mistura na Foto

Todos Nós Somos Machistas: O Caminho É Se Desconstruir

Audiovisual | Cultura Digital | Leonardo Cássio | Multicultural 08/03/17 - 12h Leonardo Cassio

51-igualdade-de-genero

Hoje é Dia Internacional da Mulheres. Toda mulher deve ser parabenizada apenas por ser mulher, ainda mais se pertencer a minorias marginalizadas, como as mulheres negras e as homossexuais. Dentre milhares de coisas que poderia abordar na data de hoje sobre o tema, escolhi um projeto excelente, um documentário chamado “Precisamos Falar Com os Homens? Uma Jornada Pela Igualdade de Gênero”, da ONU Mulheres e do portal Papo de Homem. É um projeto de importância fundamental para o estabelecimento de um diálogo empático entre homens e mulheres em busca da diminuição de desigualdades.

Em 2014, aproveitando ações da campanha global #ElesPorElas (HeForShe), a subsidiária brasileira da ONU Mulheres contatou o portal Papo de Homem, que tem um trabalho sério na desconstrução do machismo no país, com o seguinte questionamento: “Como Podemos Envolver Mais Homens Nesse Movimento?”. A premissa é muito simples: se os homens são o problema, eles devem também fazer parte da solução, afinal, a igualdade de entre gêneros deve ser relacional e não excludente.

Durante o ano de 2016, foram realizadas pesquisas qualitativas em todas as regiões do país e uma pesquisa online, com mais de 20 mil entrevistados, cuja análise dos resultados culminou no documentário. Em pouco mais de 50 minutos são apresentados depoimentos de homens e mulheres a respeito do machismo, dados quantitativos e qualitativos sobre os problemas enfrentados por homens e mulheres, além de iniciativas de combate ao problema.

O que me chamou a atenção neste documentário é o fato dele tratar a equidade de gênero através da desconstrução do arquétipo do homem, calcado no machismo mantido secularmente pela cultura patriarcal brasileira. Duas coisas que são importantes frisar: feminismo não é o contrário direto de machismo, assim como preconceito não é a mesma coisa que racismo; racismo e machismo pressupõe a subjugação de um grupo a outro, seja economicamente, seja fisicamente através da violência, etc. O feminismo busca eliminar a supressão masculina e não subjugá-los, assim como o preconceito se manifesta de diversas formas (contra deficientes, autistas, pessoas de outro estado e país, homossexuais, etc.), sendo o racismo uma das mais perversas, pois o negro é colocado em posições inferiores em todas as esferas sociais, sendo marginalizados. A segunda coisa é que não é só a mulher que é vítima do machismo, mas também o homem. A diferença é que a mulher sofre muito: ela morre, ela é controlada, ela é diminuída. O homem tem uma posição privilegiada, sendo que essa posição, o modo como ela é construída e imposta socialmente, é quase inconsciente, ela é hereditária e a desconstrução é um processo complicadíssimo.

Os homens no Brasil crescem aprendendo que devem ser fortes fisicamente, não podem expor sentimentos, principalmente chorar; devem controlar a mulher de diversas formas – saindo com o máximo que conseguir, traindo namorada/ esposa, saindo para trabalhar e obrigando-as a ficar em casa, não sendo um “pau mandado”, mandando ela cozinhar, cuidar da casa e, até mesmo, agredindo – deve beber muito e dirigir, de preferência. A questão da direção é muito peculiar: existe um contexto em que homens precisam dirigir de forma rápida e agressiva, como se fosse uma situação condicionada biologicamente. Chamo isso de “Síndrome de Ayrton Senna”. É muito curioso, também, como a principal forma de um amigo agredir o outro é o chamando de bicha e veado. Se você não fizer as coisas acima você automaticamente é taxado de gay – reforçando que isso é tido como uma humilhação máxima em grupos masculinos – e que a autoafirmação passa por reforçar preceitos machistas. Essa é a educação formal e cultural da família padrão brasileira com os homens.

Quantas vezes vocês, homens, perguntaram a uma colega de trabalho se ela estava de “chico” porque estava nervosa? Quantas vezes vocês, mulheres, consideram veados homens que usam roupas rosas? Por que piadas preconceituosas e a transmissão de imagens de mulheres nuas só incomodam quando se refere a algum parente nosso – e olhe lá? Veja: o machismo existe porque certos tipos de comportamento são tolerados e exaltados como normais, o que faz com que a reprodução perpetue. Eu tenho amigos gays. Um em particular é amigo de longa data e eu cresci ouvindo que eu era veado porque nunca escondi que fosse amigo dele. Aí vem a parte curiosa: algumas pessoas que me chamavam de gay davam em cima dele, mas se recusavam a manter conversas na frente dos outros…

Há muito o que fazer em prol das mulheres. Mesmo com avanços como a Lei Maria da Penha, a representatividade política feminina e a equiparação salarial estão muito aquém do ideal; a violência física, principalmente a doméstica, ainda está em patamares inaceitáveis e a objetificação das mulheres ainda é um problema social. Além da violência física, as mulheres sofrem violência sexual, psicológica – comum em ambientes de trabalho – e financeira ou patrimonial – veja a fala da Mônica Martelli sobre esse tópico na entrevista concedida à Thais, no nosso canal do Youtube. Quem produz tudo isso são os homens, embora haja conivência feminina em um percentual de casos.

Os homens, que são os principais agressores das mulheres, são a esmagadora maioria do falido sistema carcerário brasileiro, sustentam um percentual escandaloso com relação à taxa de homicídios, suicidam-se de forma alarmante no Brasil e bebem desgraçadamente, com a curiosidade de não considerarem o álcool uma droga e de nunca admitirem ter problemas com a bebida, mesmo tendo. Trocando em miúdos: os dados acima fornecidos pela pesquisa indicam uma sociedade masculina doente.

A desconstrução do machismo é uma tarefa árdua. Pense no seguinte: como mitigar algo em que não se acredita, culturalmente, haver? A concepção do papel masculino na sociedade, especialmente a brasileira, é completamente machista. Assim sendo, como apresenta a pesquisa da ONU Mulheres, muitos homens acreditam não serem machistas e, portanto, não há o que melhorar. O famoso “eu ajudo em casa” ou “ela trabalha fora” servem de muro para esconder pensamentos e atitudes machistas. Claro, dificilmente alguém dirá de forma seca que é machista. Admitir problemas não é fácil. O problema reside no fato de não se fazer uma reflexão e não se colocar no lugar do outro para, de maneira efetiva, perceber o grau de machismo e preconceito que se tem. Todo mundo é preconceituoso e todo homem é machista. Observe tudo o que você faz em um dia e o fato se evidenciará. O importante é abrir os olhos e buscar essa desconstrução para construção de uma sociedade melhor para homens e mulheres. Certamente o documentário ajudará nisso.

Photo credit: UN Women Gallery via Visual Hunt / CC BY-NC-ND

Tags: , , , , , ,