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Selvagens

Audiovisual 09/11/12 - 02h Cult Cultura

Em “Selvagens”, o mais recente trabalho do diretor Oliver Stone, dois amigos de infância administram um lucrativo negócio de produção e comercialização de maconha na região de Laguna Beach, Califórnia. Um é Chon (Taylor Kitsch), veterano de guerra de pavio curto, que combateu no Iraque e no Afeganistão, e de lá trouxe as melhores sementes de maconha do mundo. O outro é Ben (Aaron Johnson), especialista em botânica, que nos momentos de folga da supervisão do cultivo da “erva mais pura dos EUA”, encontra tempo para obras de caridade, ajudando crianças na África e na Ásia. Além de dividirem o comando das operações e uma bela mansão na praia, os amigos dividem também a mesma mulher, Ophelia (Blake Lively). Esse triângulo amoroso regado a drogas, dinheiro e belas paisagens litorâneas é abalado quando Ben e Chon recusam a oferta de trabalharem como associados do Cartel de Baja, liderado pela matriarca mexicana Elena (Salma Hayek). Em resposta a essa atitude dos jovens produtores independentes, Elena manda sequestrar O (como Ophelia é chamada por seus amantes, e que também seria uma sigla para “orgasmo”). A partir daí o filme torna-se uma história de vingança, com Ben e Chon fazendo de tudo para resgatar sua amada.

Com uma carreira considerada irregular por grande parcela da crítica, que ovacionou muitos de seus filmes na década de 80 e início da de 90 (“Platoon”, “Wall Street”, “Nascido em Quatro de Julho”), mas vem sendo dura com seus trabalhos mais recentes (“Alexandre”, “W”, “As Torres Gêmeas”), Stone possui um estilo facilmente identificável, ancorado em diversos maneirismo e tiques visuais. Os filtros de cor saturados em contraste com cenas filmadas em preto e branco, o uso de múltiplos formatos de lentes, ângulos inusitados, a edição acelerada, etc. Todos esses elementos característicos da obra do cineasta estão presentes aqui, e da forma mais exagerada possível. Isso distancia “Selvagens” dos filmes mais politizados de Stone, como “JFK” e “Nixon” e o aproxima muito mais de suas criações mais insanas, como “Assassinos Por Natureza” e “Reviravolta”. A mistura de violência que beira a caricatura, o humor negro, as paisagens desérticas e os personagens latinos também contribuem para essa identificação.

Essa insanidade adotada no filme traz também certa liberdade para o cineasta. Sem estar amarrado aos temas históricos e considerados mais sérios, o diretor parece se divertir com todos os seus exageros, e isso acaba sendo transmitido para o público. Goste-se ou não de seu estilo, Stone sabe como conduzir bem suas cenas de ação e dar ritmo a seu filme, mesmo com uma longa duração de mais de duas horas, e isso o torna fácil de ser assistido. O fotogênico trio protagonista, apesar de não demonstrar grande talento dramático, cumpre bem o seu papel e é ajudado pelo bom elenco coadjuvante. O que acaba sendo realmente interessante em “Selvagens”, muito mais do que seu roteiro por vezes confuso e com reviravoltas nem sempre plausíveis, é notar o tom até certo ponto contraditório do diretor ao contar sua história. Stone parece querer realizar uma obra liberal, mostrando seus heróis como “criminosos que não são tão maus”, como se fossem “Butch Cassidy e Sundance Kid” modernos (uma referência citada literalmente durante o longa) e afirmando que uma relação amorosa não convencional envolvendo três pessoas não tem nada demais, mas ao mesmo tempo se mostra conservador. Os personagens principais consomem e vendem drogas, mas no fim querem abandonar essa vida. Eles praticam sexo o tempo todo, mas mesmo que tente demonstrar ousadia nessas cenas, Stone nunca revela uma nudez completa, aliás, Blake Lively está sempre parcialmente vestida em todas essas sequências, inclusive na banheira. As mulheres de “Selvagens” possuem papéis fundamentais para a trama, mas na hora de resolver seus problemas, são mesmo os homens que partem para a ação.

Esse contraste se repete na maneira como o filme trata a instituição familiar. Mesmo sendo a comandante de um cartel, a maior preocupação de Elena está em defender o pouco que restou de sua estrutura familiar, no caso sua filha. O mesmo acontece com o agente do FBI corrupto vivido por John Travolta e até mesmo o advogado de Elena, interpretado por Demián Bichir. Ophelia também tem a preocupação de tentar tranquilizar sua mãe enquanto está sendo mantida como refém. Não é por acaso que o verdadeiro vilão da história, o personagem mais repugnante, seja Lado (Benicio Del Toro), o capanga de Elena, que não demonstra nenhum apreço pela família. E até no momento em que isso ocorre, descobrimos que a situação não era real.

Esse impasse entre defender uma posição liberalista e não deixar o moralismo de lado, pode até ser interpretado como uma visão do diretor do pensamento conflitante da juventude de seu país e também sobre a própria indústria do cinema hollywoodiano, já que as imposições dos estúdios e até mesmo do público americano em geral, acabam podando a liberdade dos autores. É uma mensagem que em meio a tantas explosões, tiros, sangue e viagens sob os efeitos de entorpecentes poderá não tem grande força, mas de qualquer forma, mesmo ao realizar um filme totalmente comercial e descompromissado, quem sabe Stone tenha algo a dizer sobre a sociedade norte-americana. Talvez até mais do que se escolhesse realizar outra cinebiografia sobre algum presidente de seu país. Ou talvez não passe mesmo de mais uma viagem do diretor. O tempo responderá.

Por Leonardo Ribeiro

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