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#CultIndica Snowden – Herói ou Traidor?

Audiovisual | CultIndica | Cultura Digital | Leonardo Cássio 27/04/17 - 10h Leonardo Cassio

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Quando cientistas sociais analisarem, daqui a cem anos, os grandes acontecimentos das duas primeiras décadas do século XXI, certamente a história de Edward Snowden estará entre os fatos mais surpreendes e relevantes. O ex-agente da CIA tinha 29 anos em 2013, quando revelou segredos de um superprojeto estadunidense de vigilância em nível mundial, alterando uma série de relações diplomáticas entre nações, obrigando o governo dos Estados Unidos a modificar procedimentos da Agência Nacional de Segurança (NSA, sigla em inglês) e a mudar o Ato Patriota, medida legal adotada após o 11 de setembro de 2001 que dá ao governo acesso a registros telefônicos, e-mails e outros fontes de comunicação utilizadas por cidadãos com o objetivo (ou desculpa) de combater o terrorismo.

A espionagem do governo norte-americano não se restringia apenas às pessoas. Invadindo servidores de gigantes da informação, entre elas Google, Apple e Facebook, a ANS vasculhou informações do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI), dados governamentais da União Europeia, Venezuela, Equador, Alemanha e Brasil, entre outros, incluindo um capítulo à parte envolvendo a Petrobrás, à época uma gigante com objetivos selvagens de ampliação no mercado energético.

Toda essa história maluca foi contada no excelente documentário Citizenfour (2014), de Laura Poitras. É um trabalho amplo, profundo e que apresenta muitos dados sobre o caso. Já em 2016, chegou aos cinemas a cinebiografia “Snowden”, do premiado diretor Oliver Stone. Apesar de não acrescentar fatos novos ao que já se sabia publicamente, o longa apresenta, pela perspectiva do diretor, a história de Snowden. Os temas políticos e a tomada de opinião explícita são as principais características de Stone, que ganhou Oscar de Melhor Diretor por “Platoon” (1987) e “Nascido em Quatro de Junho” (1990).

Desde o início de “Snowden – Herói ou Traidor” percebemos que o primeiro adjetivo é o escolhido pelo diretor. O filme mostra os primeiros anos de serviço militar de Snowden (Joseph Gordon-Levitt), quando ele fratura a perna e fica impedido de prosseguir como oficial de campo. Ele passa, então, em um teste da inteligência americana – ele completou os exercícios em 1/3 do tempo médio das melhores cabeças do país – e tornou-se um dos responsáveis pela segurança dos EUA. Durante os serviços, ele descobre um projeto de vigilância em escala global, que simplesmente consegue vigiar qualquer um – qualquer um, mesmo – através de smartphones, notebooks, câmeras de vigilância, contas bancárias, etc., e, não concordando com esse poder todo do governo escondido das pessoas, resolve surrupiar dados e vazá-los através da mídia. A reunião entre ele e os jornalistas do “The Guardian”, Gleen Greenwald (Zachary Quinto), MacAskill (Tom Wilkinson) e a escritora Laura Poitras (Melissa Leo) – sim, a mesma Laura Poitras que fez o documentário Citizenfour – em Hong Kong é de uma tensão impressionante.

Imagine o seguinte: você está frente a frente com rapaz de 29 anos, que se apossou de dados da nação mais rica e poderosa do mundo, montando uma quebra-cabeça complexo de dados, tendo que convencer um dos principais jornais do mundo a revelar informações sobre vigilância praticadas de forma ilegal sobre governos, corporações e pessoas de qualquer lugar do mundo, sendo que, a qualquer minuto, alguém pode chegar lá e matá-lo sem hesitar. Com os dados vazados, inicia-se o corre-corre para asilar Snowden e acompanhar os desdobramentos ocasionados pelas revelações. A fuga dele de Hong Kong para a Rússia contou com a ajuda de um colaborador do WikiLeaks, de Julian Assange, conhecido por vazar documentos secretos, e foi bem tensa, pois ele teve de ficar escondido por 40 dias até que a documentação legal de asilo saísse.

Oliver Stone fez um longa-metragem à altura de outros grandes que realizou, como os dois oscarizados comentados no texto. Fazer um filme cuja a história é conhecida, sem reviravoltas, não é fácil. Stone viajou muitas vezes à Rússia, onde Snowden está escondido, para entrevistá-lo e destrinchar pormenores da história. Em uma das viagens, levou Gordon-Levitt para conhecê-lo e o encontro fez bem ao ator, que teve uma atuação bem competente. Algumas partes da história são contadas de forma resumida, por exemplo, a parte em que se relaciona com um professor, interpretado por Nicolas Cage, ou mesmo os trechos que mostram a relação com a parceira, vivida por Shailene Woodley, que na tentativa de humanizá-lo, acaba montando cenas que não conversam tanto com a tensão do filme.

Cenas reais como as de Dilma Rousseff e da Petrobrás ajudam a martelar na cabeça do espectador que isso aconteceu há pouco tempo e, ainda que de maneira reduzida, ainda ocorre. Ou será que o lunático do Donald Trump, em meio às tensões com o norte-coreano Kim Jong-un, o sírio Bashar al-Assad e mesmo o russo Vladimir Putin, simplesmente não vai vasculhar coisas por aí? A diminuição da espionagem devido à repercussão negativa do escândalo não impossibilita a viabilidade de se continuar com a prática. Com relação ao Putin, o mundo passa por um momento delicado, pois Snowden está asilado na Rússia, país que apoia o Governo Sírio, que sofreu ataques dos Estados Unidos… O caso Snowden ocorreu durante o Governo Obama, um presidente que quebrou muitos paradigmas, mas que se meteu em guerras como qualquer outro, pois esse é o modus operandi da política externa dos EUA, reflexo de políticas como a do Big Stick e de teses como a do Destino Manifesto, abordada no texto sobre Watchmen (leia aqui). Uma das passagens com cenas reais, inclusive, é um depoimento do Obama dizendo que não haveria motivos para se preocupar com um hacker. Depois do rombo que Snowden causou na inteligência americana, ele precisou rever sua opinião.

Assistir a “Snowden – Herói ou Traidor” é imergir nessa intrigante história que está longe de acabar. Escondido em terras russas, em um período conturbado geopoliticamente falando, não há pistas concretas do que poderá ocorrer com Snowden. Até quando ele conseguirá esconder-se na Rússia? Até que ponto sua vida está segura por lá? Ele poderá ser extraditado em uma possível – ainda que improvável – aproximação entre Putin e Trump? Há mais para sabermos? Perguntas ainda sem respostas. O que o filme apresenta como mais aterrador é a constatação de que – e de forma inquestionável – não existe privacidade e segurança em absolutamente nada do que utilizamos para nos comunicar.

“Snowden – Herói ou Traidor” está disponível no serviço de streaming da operadora NET, NOW.

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