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Stanley Kubrick: o perfeccionismo além dos gêneros

Audiovisual | Leonardo Ribeiro 09/12/13 - 01h Leonardo Ribeiro

Iluminado

Ao lado de Alfred Hitchcock, o nome de Stanley Kubrick talvez seja a referência mais popular do que se tem por bom cinema. Sua obra relativamente pouco extensa, composta por treze longas e três curtas, há algum tempo já é considerada fundamental para a formação de qualquer cinéfilo. Famoso não só por suas qualidades técnicas, como também por suas obras quase sempre com teor capaz de gerar polêmicas e discussões aprofundadas, além de sua personalidade considerada difícil, uma característica que parece inerente a quase todos os grandes artistas, Kubrick e seu estilo perfeccionista contribuíram de forma direta para a evolução da linguagem e da tecnologia utilizada na produção cinematográfica.

Nascido no dia 26 de julho de 1928, no bairro do Bronx, em Nova York, Stanley Kubrick sempre demonstrou uma predileção para as artes, algo que era incentivado por seu pai, que presenteou o filho com sua primeira câmera fotográfica. Na adolescência, Kubrick conseguiu emprego como fotógrafo da Look Magazine, desenvolvendo sua paixão pela composição de imagens. Em pouco tempo, o jovem Kubrick trocou as câmeras fotográficas pelas filmadoras e, entre 1951 e 1953, realizou três curtas-metragens documentais: “Flying Padre: An RKO-Pathe Screenliner”, “Day of The Flight” e “The Seafarers”.

kubrickAinda em 1953, Kubrick realiza o seu primeiro longa, “Medo e Desejo”, um drama sobre quatro soldados encurralados nas linhas inimigas, durante uma guerra fictícia. O resultado não agradou ao jovem cineasta, que considerou o trabalho amador e retirou pessoalmente as cópias de circulação, proibindo que o filme fosse liberado para a distribuição em qualquer formato. “Medo e Desejo” só voltaria a ser exibido após a morte de Kubrick, e sua versão restaurada foi lançada recentemente em DVD e Blu-Ray.

Dois anos após o fracasso de sua estreia, o diretor lança o film noir “A Morte Passou Por Perto” (Killer’s Kiss). Já demonstrando uma técnica mais apurada, Kubrick dava os primeiros passos para amadurecer o seu estilo refinado e milimetricamente calculado de filmar, algo que aconteceria já em 1956, quando realiza o seu primeiro grande filme “O Grande Golpe” (The Killing). Ainda enveredando pelos caminhos do noir e do suspense, a trama segue um ladrão recém-libertado da prisão, que planeja um novo e arriscado golpe, assaltar uma pista de corridas de cavalos. O apuro estético de Kubrick já se mostrava presente, assim como seu desejo de produzir um cinema autoral, que fugisse dos padrões. Esse desejo fica claro na opção do diretor por uma montagem de narrativa não-linear (algo rejeitado pelos produtores, que no final acabaram cedendo ao desejo de Kubrick) e que se tornaria uma influência para muitos cineastas contemporâneos, como Tarantino, por exemplo.

A boa recepção da crítica com “O Grande Golpe” levou Kubrick a realizar a sua primeira produção para um grande estúdio, que viria a ser a obra-prima sobre a Primeira Guerra Mundial, “Glória Feita de Sangue”, que marcaria o início da amizade do diretor com o astro Kirk Douglas. Baseado em um fato real ocorrido no exército francês, quando um grupo de soldados se recusou a enfrentar uma missão suicida, o longa começa como um filme de batalha e aos poucos se transforma em um drama de tribunal, com mensagem claramente anti-guerra. Repleto de cenas de esmero técnico, como os planos-sequência mostrando os soldados nas trincheiras, momentos antes das batalhas, o filme se tornou o primeiro grande sucesso da carreira de Kubrick.

No ano seguinte, 1960, Kirk Douglas estava produzindo e estrelando o épico “Spartacus”, quando se desentendeu com o diretor original, Anthony Mann. Mann foi demitido e, para substituí-lo, Douglas chamou seu amigo Kubrick. O cineasta assumiu o projeto conturbado, onde não teve o controle sobre a produção ou roteiro e também teve desentendimentos com vários membros da equipe técnica, inclusive o próprio Douglas, que nunca mais trabalhou com Kubrick. Apesar do excelente resultado e do sucesso de “Spartacus”, o diretor considerou desastrosa a experiência de ser privado de sua liberdade criativa. Por esse motivo, Kubrick erradicou-se na Inglaterra, fugindo do “Studio System” hollywoodiano.

LolitaO primeiro projeto de sua fase inglesa é “Lolita”, adaptação do best seller de Vladimir Nabokov. O longa dividiu opiniões de público e crítica, ao tratar do polêmico relacionamento entre um homem de meia-idade e uma adolescente, ainda que a atriz Sue Lyon fosse mais velha do que a personagem do livro. Kubrick filma o desabrochar sexual da garota com extrema sensualidade, mas nunca de forma vulgar.

Na sequência, veio a incursão de Kubrick pela comédia, com o genial “Dr. Fantástico” (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb), lançado em 1964, uma irônica e ácida paródia sobre a política mundial nos anos 60, especialmente o conflito entre EUA e União Soviética, e o episódio da Crise dos Mísseis de Cuba. Com atuação genial de Peter Sellers em três papéis diferentes, o filme representa mais uma amostra do poder crítico de Kubrick e de seu posicionamento político.

Após um hiato de cinco anos, o cineasta retorna com uma das maiores obras-primas da ficção científica, “2001 – Uma Odisseia no Espaço”. Elevando o seu refinamento técnico ao máximo, Kubrick cria, a partir da obra do escritor Arthur C. Clarke, uma reflexão sobre a evolução da humanidade, investigando suas origens e fazendo uma análise profunda sobre a relação entre homem e tecnologia. A figura do computador Hal-9000 é emblemática nesse aspecto, e mais do que buscar respostas para as questões filosóficas propostas, Kubrick as deixa abertas para as mais diversas interpretações, sejam racionais ou metafísicas. Novamente, os aspectos técnicos impressionam. Os efeitos especiais de “2001” revolucionaram a indústria, e os planos construídos pelo diretor são primorosos, como as elipses que servem de transição para as sequências – a elipse que transforma o osso atirado pelo macaco em uma nave espacial é a mais clássica.

Laranja MecanicaEm 1971, o cineasta embarca em uma nova adaptação de uma obra polêmica, “Laranja Mecânica” (A Clockwork Orange), do britânico Anthony Burgess. Com sua trama passada em um futuro distópico, dominado por gangues, o longa chocou por seu tom subversivo, carregado de crítica social e por suas cenas de violência e sexo, gerando sua censura e proibição em diversos países, como o Brasil. O longa marcou para sempre a carreira do ator Malcolm McDowell, intérprete do protagonista Alex DeLarge. Cenas inesquecíveis como a versão de Alex para a canção “Cantando na Chuva” ou a do tratamento pelo método Ludovico, estão entre as mais lembradas da carreira do diretor. Outros destaques do filme são as gírias utilizadas pelos personagens e o visual do longa, que mistura elementos retrô com outros futuristas e cleans.

BarryLyndon

O impacto de “Laranja Mecânica” na sociedade foi enorme, permanecendo como parte do universo da cultura pop até hoje e, como seu sucessor, Kubrick escolheu o seu projeto mais pessoal: “Barry Lyndon”, de 1974. O drama de época sobre nobres cavaleiros britânicos foi, acima de tudo, um experimento técnico para Kubrick, que resolveu filmar todo o longa utilizando iluminação natural ou de velas. Essa escolha, tomada para dar mais veracidade e imprimir realismo à trama, se mostrou um enorme desafio e resultou em novos avanços tecnológicos, com o desenvolvimento de lentes especiais para que as câmeras pudessem captar as imagens noturnas sem iluminação artificial. Mal recebido na época por sua estética e ritmo lento, “Barry Lyndon” vem se transformando de incompreendido a obra cult, com o passar dos anos.

A cada trabalho, Kubrick se tornava ainda mais meticuloso, estudando e pesquisando sobre todo e qualquer elemento que pudesse fazer parte de seu próximo filme. Com isso, o intervalo entre suas obras foi aumentando, e somente seis anos após o lançamento de “Barry Lyndon”, o cineasta voltou a filmar. O resultado foi “O Iluminado” (The Shining) – foto do banner, de 1980. A adaptação da obra de Stephen King tornou-se um clássico instantâneo do cinema de terror e novamente trouxe novidades técnicas que mudaram o modo de filmar, no caso, o uso da steadycam, um aparato com trilhos que possibilitava longos movimentos de câmera sem que a imagem saísse trêmula. Essa técnica foi essencial para o longa, em especial nas cenas em que o garoto Danny pedala em seu triciclo pelos corredores do hotel. Novamente, polêmicas envolveram a produção, como a rejeição de King ao filme, devido às liberdades tomadas por Kubrick em relação ao livro, e também dos problemas do diretor com seu elenco. A atriz Shelley Duvall saiu traumatizada das filmagens devido à rigidez de Kubrick na condução das cenas, e até mesmo o astro Jack Nicholson declarou que as excessivas repetições de takes em busca pela perfeição tornavam o processo de criação exaustivo.

Em 1987, Kubrick voltou a abordar o tema da guerra em “Nascido Para Matar” (Full Metal Jacket). Dividido claramente em dois segmentos (o treinamento e a batalha nos fronts), o filme novamente critica a cultura bélica e armamentista norte-americana, mostrando como a Guerra do Vietnã teve consequências irreparáveis para a juventude dos EUA nos anos 70. A constante busca de Kubrick pelo realismo pode ser sentida novamente, na recriação do Vietnã feita em estúdios londrinos e até mesmo na escalação de R. Lee Ermey, um militar e veterano na vida real, que assume o papel do insano Sargento Hartman, com seus insultos mirabolantes, de forma marcante. Ainda no elenco, destaques para Matthew Modine e Vincent D’Onofrio. Some-se a tudo isso o uso perfeito da trilha sonora, como “Paint It Black” do Rolling Stones nos créditos finais, e “Nascido Para Matar” entra para o hall de grandes obras sobre a Guerra do Vietnã, ao lado de “O Franco Atirador”, de Michael Cimino e “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola.

DeOlhosBemFechadosForam 12 anos de desenvolvimento para que o derradeiro projeto de Kubrick chegasse às telas: “De Olhos Bem Fechados” (Eyes Wide Shut), de 1999. Tendo como base o romance “Traumnovelle” de Arthur Schnitzler, o longa possui uma aura de mistério e surrealismo que envolve sua trama e seus personagens, que o transforma no longa mais idiossincrático do cineasta, criando um quebra-cabeças que abre possibilidades para diversas interpretações sobre os relacionamentos e os desejos humanos. O filme, que já tinha ganhado grande notoriedade antes de seu lançamento devido à presença do casal Tom Cruise e Nicole Kidman (juntos na vida real, na época), se tornou ainda mais icônico com a morte do diretor, pouco antes da pós-produção ser finalizada. Um filme-testamento à altura de seu realizador.

Ao longo de sua carreira, Kubrick abandonou alguns projetos, deixando-os inacabados, como um épico sobre Napoleão e “Aryan Papers”, um drama sobre o holocausto, que chegou a entrar em pré-produção, mas foi cancelado pelo diretor, quando esse soube que “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg, estava mais adiantado.

AICoincidentemente, o próprio Spielberg assumiu, com a benção de Kubrick, outro projeto inacabado, “A.I: Inteligência Artificial”, lançado em 2001. Os dois trabalharam juntos em cima do roteiro antes da morte de Kubrick e o filme, que apresenta traços evidentes das obras dos dois, foi dedicado à sua memória.

O legado de Kubrick é riquíssimo e impressiona não só por seu virtuosismo estético, mas também por sua a habilidade em transitar pelos mais diversos gêneros (comédia, terror, guerra, romance, ficção científica), sempre acompanhando as transformações que aconteceram na sociedade ao longo dos anos. A revolução sexual e movimento hippie dos anos 60 representados por “Lolita”, a Guerra Fria em “Dr. Fantástico”, a rebeldia da juventude em “Laranja Mecânica”, os efeitos da era Reagan revividos através da Guerra do Vietnã em “Nascido Para Matar” e até mesmo a sociedade cada vez mais vigiada e reprimida, através do voyeurismo de “De Olhos Bem Fechados”.

Como todo gênio, Kubrick foi taxado de excêntrico e megalomaníaco. Mas seu perfeccionismo transcende qualquer rótulo, algo que o transformou em uma das personalidades mais influentes da história do cinema.

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Leonardo Ribeiro

Leonardo Ribeiro

Redator publicitário desde 2007 e cinéfilo desde sempre. Um devoto de São Hitchcock, que tenta unir o prazer de escrever ao prazer de discutir e analisar a sétima arte. Facebook: https://www.facebook.com/leo.sp.ribeiro Twitter: @leospribeiro

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