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De Onde Vem “This Is America”?

Audiovisual | Cultura Digital | Música | Slider 09/05/18 - 12h Cult Cultura

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Vira e mexe, algum artista ou banda toma a internet de assalto e muita gente acaba conhecendo o trabalho da pessoa ou do grupo nesse fenômeno viral. Nos últimos dias, não importa a rede social da sua escolha, você não escapou de Childish Gambino e de seu último single, a provocativa “This Is America”. Mas quem é esse cara? E por que essa música é tão importante?

Nascido em 23 de setembro de 1983, Donald McKinley Glover é a mente por trás de Childish Gambino, mas o cara é muito mais do que um rapper. Donald Glover é ator, humorista, roteirista, diretor, produtor, compositor, DJ, cantor, rapper e com certeza deve ter mais algum talento escondido em sua manga. Após impressionar Tina Fey, ele foi convidado por ela e pelo produtor David Milner para integrar o time de roteiristas da já celebrada série americana 30 Rock, estrelada por Fey, Alec Baldwin, Tracy Morgan e outros atores e humoristas, incluindo o próprio Donald Glover, com aparições pontuais em alguns episódios.

Em 2008, após gerar seu nome artístico por um site chamado Wu-Tang Clan’s name generator, inspirado em letras do lendário grupo de hip hop americano, Childish Gambino ganhou vida e lançou sua primeira mixtape chamada Sick Boi, de forma totalmente independente. Ainda em 2008, Glover participou do Saturday Night Live e assim veio o convite para estrelar a série “Community”, que estrearia em 2009 e levaria o nome de Donald para as casas de milhões de pessoas ao redor do mundo. Entre Community (que já fazia considerável sucesso), apresentações de stand-up comedy e uma campanha na internet iniciada por fãs para que ele fosse o novo Peter Parker no próximo Homem Aranha (papel que acabou ficando com Andrew Garfield), o alter ego de Glover, Gambino, foi tomando força e mais mixtapes foram lançadas. “Poindexter”, as duas tapes “I Am a Rapper” e “I Am a Rapper 2” e “Culdesac” foram as formas que ele encontrou para preparar seus fãs para o primeiro álbum, que sairia em 2011, intitulado “Camp”. Recebendo, em sua maioria, críticas positivas, Glover já preparava o segundo trabalho com o nome de Childish Gambino, “Because The Internet”. “BTI”, como é chamado pelos fãs, assegurou um lugar de respeito dentro da nova escola de rappers dessa década, tanto entre seu público quanto dentro da crítica e veículos especializados no gênero. Entre os lançamentos do Gambino, o ator e roteirista Donald Glover não ficou parado, tendo participado de filmes como “Os Muppets” e “The To Do List”, com Aubrey Plaza, a April, de “Parks and Recreation”, e dado sequência à agora bem sucedida série “Community”.

Em 2015, porém, a carreira de ator de Glover deslanchou, de fato, tendo participado de 3 filmes somente nesse ano, sendo um deles “Perdido em Marte”, que foi indicado para o Oscar de melhor filme. Em 2015, a FX encomendou a Glover 10 episódios para sua nova criação chamada “Atlanta”, uma série que acompanha Earn Marks, um aluno de Princeton que deixa a faculdade e começa a agenciar seu primo, o rapper Paper Boi. Atlanta foi a última prova (se é que necessária) do talento para basicamente tudo que habita a mente de Donald Glover. Premiada, a série já está em sua segunda temporada e só melhora a cada episódio. A primeira temporada já está disponível para nós, brasileiros, na Netflix.

Em 2016, Gambino está de volta com “Awaken, My Love!”, indicado para álbum do ano no Grammy e um dos álbuns mais tocados de 2016. Muita coisa aconteceu na carreira do cara em 2017 e então, em 2018, após apresentar o Saturday Night Live e apresentar novos sons ao vivo no programa, ele solta o assunto principal do texto: o vídeo de “This Is America”.

Tá, mas e daí? O que significa isso tudo?
“This Is America” é o último single de Glover, ainda com o nome de Childish Gambino (que ele ameaçou abandonar no ano passado e ainda bem que essa ideia, aparentemente, foi adiada). Com uma mensagem tão impactante quanto o próprio vídeo, “This Is America” não poderia aparecer num momento melhor. Dirigido por seu parceiro de longa data e diretor da série “Atlanta”, Hiro Murai (que tem mais uma mão cheia de vídeos incríveis no currículo), o visual da música é um bombardeio de informações. Confira o vídeo abaixo:

Pegou tudo? Tudo bem, a gente também não. Mas vamos, juntos, tentar decifrar e absorver o máximo de informação que o cara tem pra nos oferecer:

Logo no começo, temos a questão da arma, problema muito atual não só nos EUA como no mundo todo, com a questão da legalização do porte de arma dividindo a nação norte-americana e animando um certo candidato que apresenta sinais bem visíveis de fascismo aqui no nosso país. Vocês sabem de quem eu estou falando, né? Enfim, seguindo… A arma no vídeo. Toda vez que alguém é assassinado por Glover no vídeo, uma criança recolhe a arma, a escondendo num pano e sai de cena. O pano e o cuidado da criança representam o zelo e até o carinho que algo tão letal recebe de seus entusiastas. E a pose de Gambino que precede o tiro no primeiro assassinato do filme também é uma mensagem e remete a Jim Crow. As leis de Jim Crow foram leis locais e estaduais, promulgadas nos estados do sul dos Estados Unidos, que institucionalizaram a segregação racial, afetando afro-americanos, asiáticos e outros grupos étnicos. Vigoraram entre 1876 e 1965.

JIM CROW-this-is-america

O coral da Igreja tem participação fundamental no vídeo, ainda que tenha passado despercebido por muitos. Tiroteios e chacinas em igrejas como em Sutherland Springs e Charleston provavelmente foram as influências para essa sequência no vídeo.

A dança, usada como distração no vídeo, simboliza exatamente isso: o entretenimento como distração. Ela nos tira o foco de tudo que acontece ao redor, assim como o entretenimento, e deixamos de notar coisas importantes ou apenas usamos de muleta para fazer vista grossa com tanta coisa que deveria ter a nossa atenção passando batido. O cavalo branco (que é o símbolo de um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, a Morte) é uma das coisas que a dança de Glover busca fazer para que passe despercebido por nós, o público.

DANÇA-this-is-america

Ontem, dois dias após o lançamento do vídeo de “This Is America”, a cantora SZA postou em seu Instagram uma foto de sua participação especial no vídeo com a legenda “Liberty”, o que sugere que o tempo todo ela representou a Estátua da Liberdade, apenas observando, sem interferir, todo o caos e violência ao seu redor, sendo assim uma crítica à tal da ideia de liberdade ou “liberdade” que alguns têm. Outra crítica que, apesar de ser feita por um americano para os americanos, nós, brasileiros, podemos muito bem ligar com o que tem acontecido com o nosso país. É só somar 2 com 2, se é que vocês me entendem.

Link para a publicação da @SZA https://www.instagram.com/p/BicwCD4jHeJ/

Tá, mas e a letra? Sobre o que é?
We just wanna party
Party just for you
We just want the money
Money just for you
I know you wanna party
Party just for me
Girl, you got me dancin’ (yeah, girl, you got me dancin’)
Dance and shake the frame

Aqui, temos Gambino dizendo o que esperam de um artista negro no cenário atual da música, especialmente do hip hop: festa, dança, dinheiro. Tirando MCs como Kendrick Lamar, J. Cole e alguns outros poucos, o hip hop (mais especificamente o trap), está estagnado num estado de glorificação de crime, festas e drogas. Childish Gambino ironicamente declara que ele, um rapper negro, e a cultura do hip hop, estão a serviço de nós, o público que não quer ser contestado, quer receber o que busca: nada além de diversão.

Look at how I’m livin’ now
Police be trippin’ now (woo)

Aqui uma clara referência à brutalidade policial para com negros nos Estados Unidos. Em 2016, 9 entre 10 pessoas assassinadas pela polícia americana eram afrodescendentes.

Guns in my area (word, my area)
I got the strap (ayy, ayy)
I gotta carry ’em

Donald faz a crítica à glorificação da arma na música e na arte em geral. Nessa parte, um ad-lib (que poderia ser definido como participações de improviso e espontâneas em músicas, especialmente no rap) feito pelo rapper 21 Savage, que fala “My area”, que pode ser uma referência específica ao passado violento do rapper na comunidade onde nasceu.

Look how I’m geekin’ out (hey)
I’m so fitted (I’m so fitted, woo)
I’m on Gucci (I’m on Gucci)
I’m so pretty (yeah, yeah)
I’m gon’ get it (ayy, I’m gon’ get it)
Watch me move (blaow)

Essa é uma grande referência de como as pessoas se distraem de problemas sociais ao dar mais importância e atenção a bens materiais ou a aparência.

This a celly (ha)
That’s a tool (yeah)

Em março de 2018, Stephon Clark foi assassinado com 8 tiros por um policial que acreditou que ele fosse responsável por uma série de roubos e que botava fé que Stephon estava armado. Tool (ferramenta) é um jeito de chamar uma arma de fogo. No final, a “ferramenta” de Clark era apenas o seu telefone. Nada mais foi encontrado em seu corpo.

I got the plug in Oaxaca (woah)
They gonna find you like blocka (blaow)

Aqui, Donald dá a entender de que tem seus contatos em Oaxaca, estado do México conhecido por cartéis e violência relacionados ao tráfico de droga. Crítica a todos os artistas de hip hop (mais especificamente do trap) que glorificam e exaltam o fato de “terem assassinos prontos para matar a partir de uma ordem”.

You just a Black man in this world
You just a barcode, ayy
You just a Black man in this world
Drivin’ expensive foreigns, ayy
You just a big dawg, yeah
I kenneled him in the backyard
No probably ain’t life to a dog
For a big dog

Aqui, quem toma conta da voz principal da música é o rapper Young Thug. Em seu verso, Thugga canta sobre como ainda é apenas um homem negro no mundo e que, apesar de seu carro caro (representando suas posses e dinheiro), continua sendo um código de barras, um produto, o homem negro usado para benefício monetário de terceiros. “You just a big dawg, yeah I kenneled him in the backyard” significa que, apesar de ser um grande cachorro (big dawg) ainda assim está sujeito a ficar preso em seu canil (kenneled him in the backyard), canil esse que simboliza a prisão. Young Thug faz crítica a como muitos de seus amigos e contemporâneos são presos, muitas vezes sem provas ou sem julgamento, como foi o caso de Meek Mill, rapper da Filadélfia, que foi preso por violar a condicional em um julgamento que, mais tarde, se provaria mal intencionado, se é que é essa a palavra a ser colocada aqui.

A verdade é que “This Is America” não poderia ter saído em um momento melhor e algo me diz que ainda tiraremos mais mensagens escondidas assim do vídeo e da música (e talvez até não tão escondidas, porque se aprendemos algo com o vídeo é que a distração é a maior arma deles contra nós). Que a mente inquieta de Donald Glover nunca pare e que possamos receber mais presentes como essa obra de arte que eles nos deu nesses últimos dias.

Euclides

Por Clids Ursulino. 30 anos. Música, cinema, futebol e política. E o que mais aparecer entre um café e outro.

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