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TVCult #6: Soft Power

Audiovisual | Cultura Digital | Leonardo Ribeiro | TVCULT 17/05/16 - 10h Leonardo Cassio

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A expressão Soft Power foi cunhada pela primeira vez por Joseph Nye, professor de Harvard e autor do livro “Soft Power: The Means to Success in World Politics” (Soft Power: Os Meios para o Sucesso na Política Mundial), de 2004. O “Poder Leve”, de acordo com Nye, é a possibilidade de uma nação, grupo político ou instituição representativa influenciar comportamentos e tendências por meio do viés ideológico e cultural, sem o uso de poder bélico. A ideia, portanto, é conseguir influência e poder utilizando o patrimônio intelectual e cultural que se tem em um país, por exemplo.

Países que possuem um traço cultural marcante, uma postura ideológica contundente e que investem em áreas como arte, cultura e educação, tendem a ter um poder de influência alto em certos campos, chegando a ser hegemônicos em alguns casos. O cinema, para os norte-americanos; a culinária, para os franceses; e o design, para os alemães, são alguns dos muitos exemplos de Soft Power. A contradição, neste caso, é que essas nações historicamente foram (ou são) marcadas pelo Hard Power, pelo belicismo, também. A Alemanha hoje possui postura mais enfática no campo econômico. A França, sim, está atualmente em ações militares, como no caso da intervenção no Mali, país do continente africano afundado na guerra civil, e os Estados Unidos, com os combates no Iraque, Afeganistão etc.

Neste contexto, o Brasil é uma das grandes apostas. Em primeiro lugar, por não ser considerada uma nação de poderio bélico. Suas poucas intervenções militares nos últimos tempos foram de caráter humanitário, como no caso do Haiti, a partir de 2004. Em segundo lugar, pela notória riqueza histórica e cultural do país, internacionalmente reconhecida, principalmente pelo binômio carnaval-futebol, mas que tem outras áreas de destaque global, como a música, a arquitetura e a propaganda.

Com os eventos de grandes proporções, como ocorreu com a Copa do Mundo de 2014 e acontecerá com as Olimpíadas no Rio de Janeiro, os holofotes estão em todos os setores do país. E é aí que temos um problema. Apesar dessas conquistas importantes para a diplomacia e imagem externa brasileira, há um buraco gigantesco para ser tapado visando o fortalecimento do Soft Power tupiniquim.

A começar pela base de tudo: a infraestrutura educacional e cultural fraca, para não dizer ridícula, do país. A mesma nação que pleiteia vaga permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, a mesma potência sul-americana que desponta como liderança no continente carrega consigo números irrisórios na evolução por uma educação de primeira linha. Basta ver o mais recente ranking global da consultoria britânica Economist Intelligence Unit, que colocou o Brasil na penúltima colocação na comparação entre 40 nações. É a mesma nação que nunca ganhou um Prêmio Nobel. Quando o assunto é cultura, o cenário é mais caótico. Apesar de o país ter cidades históricas, como Olinda (PE) e Ouro Preto (MG), tombadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, de recentemente termos o frevo reconhecido como patrimônio humano imaterial, entre outros exemplos, a boa exploração dessas riquezas é muito tímida, se comparada às ações de outras grandes nações.

Veja o trabalho internacional da Inglaterra com o British Council, da Alemanha com o Instituto Goethe, da França com a Aliança Francesa, de Portugal com o Instituto Camões e da China com o Instituto Confúcio. Esses instituições difundem, além da língua, o patrimônio cultural, artístico e ideológico de suas respectivas nações, criando intercâmbios nos países em que estão instaladas, aumentando de forma inteligente sua influência.

E o Brasil?
O país do carnaval e do futebol e dos grandes eventos mundiais tem em sua mão a possibilidade de se consolidar como grande expoente do Soft Power. Além das importantes efemérides dos grandes eventos, a cultura nacional precisa ser valorizada, de modo afirmativo, primeiro internamente e, depois, por meio de ações externas que a tornem tão reconhecida como o cinema norte-americano ou a gastronomia francesa. O Brasil é o país da Semana de 22, da Tropicália e da Bossa-Nova, do Aleijadinho, do Machado de Assis e do Fernando Meirelles.

Com uma educação ruim da pré-escola às universidades, a valorização histórica e cultural brasileira, baseada em um pluralismo, que, talvez, seja único no mundo, é inexistente. Não se ensina e valoriza no país o que temos de melhor. O nosso Soft Power é ainda trabalhado no campo do clichê (o binômio de sempre) e estereótipos em torno da matriz europeia-negra-indígena, uma vez que se apresentam os negros como um grupo e os índios como outro, sem contar a diversidade étnica existente dentro de cada um desses grupos e seus legados para a cultura nacional (afinal, havia centenas de grupos indígenas diferentes, assim como foram trazidos para o Brasil negros de diferentes tribos, o que culminou em um povo plural como o brasileiro).

É fundamental, portanto, uma ordenação em forma de políticas públicas de longo prazo, para se construir um plano estratégico global de valorização e exploração da cultura brasileira. É a hora, sim, de mostrar que nem só de samba e futebol os brasileiros vivem, mas, primeiro, nós brasileiros precisamos nos dar conta disso. E, de fato, parece que algo começou a acontecer. Vem, vem, vem pra cultura, vem.

Texto originalmente publicado no Jornalirismo

FICHA TÉCNICA TVCult | 6/2016
Direção, Captação de Som e Imagem: Igor Preciso, Bemdito Comunicação
Edição: André Cobra, da Bemdito Comunicação
Produção: Leonardo Cássio e Thais Polimeni, da Cult Cultura e Igor Preciso, da Bemdito Comunicação
Apresentação: Leonardo Cássio e Thais Polimeni
Locação: EMP – Rua Dona Maria Paula, 78 – 10º andar. Bela Vista. São Paulo – SP

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