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A Cabeçada Da NFL

Audiovisual | Leonardo Cássio | Slider 12/03/19 - 06h Leonardo Cassio

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Todo mundo que conheço, da noite para o dia, virou fã de esportes americanos. E a maioria que diz que já gostava de futebol americano ou basquete da NBA está mentindo: estão surfando no hype de popularidade crescente destes esportes. Eu assisti a alguns jogos da NBA após descobrir o trabalho do narrador Rômulo Mendonça, da ESPN Brasil, cheio de bordões engraçados e comentários hilários, diferenciando-se da mesmice de narração televisiva que temos no futebol brasileiro.

A final da NFL (National Football League), a liga de futebol americano, aconteceu no começo de fevereiro, dia 3 para ser mais exato. A bolha do Facebook e Instagram estava alvoroçada com a final e eu comecei a pensar cá com meus botões se isso era histeria passageira ou é algo que veio para ficar. A saber.

Por uma ironia do destino, esse safadinho, eu comecei a assistir ao filme “Um Homem Entre Gigantes” no exato momento da final do Super Bowl (não, eu não assisto e não tenho interesse em acompanhar a NFL). O filme conta a história real de um patologista nigeriano, Bennet Omalu (Will Smith), que após realizar a autópsia de Mike Webster, ídolo do time Pittsburgh Steelers e pertencente ao Hall da Fama do esporte, morto aos 50 anos com sérios problemas mentais, formula a tese de que as sucessivas pancadas que um atleta de futebol americano recebe por anos podem debilitá-lo a ponto da pessoa ficar completamente louca.

Como um cientista responsável, ele precisou comprovar empiricamente que os seres humanos não foram projetados para aguentar tais condições adversas de impactos sucessivos e que o esporte estaria sendo responsável por matar os atletas. Resultado: comprou briga com uma corporação bilionária que não mediu esforços para destruí-lo.

Sem entrar no mérito artístico do filme (poderia ser muito melhor, mas não é ruim), o importante é existir uma obra que mostre a faceta perversa de uma corporação esportiva e de entretenimento. A epopeia de Bennet Omalu não é só digna de filme, é um feito humano praticamente irrealizável por outra pessoa. Imagine você, apoiado (a) por mais duas ou três pessoas, lutando contra uma corporação que transmite jogos em quase todos os cantos do planeta, sendo que o motivo da “briga” é mostrar que o esporte está matando os próprios atletas. É surreal.

Histórias envolvendo pessoas que travaram disputas homéricas com corporações já se transformaram em filmes de sucesso. Um dos que mais gosto é “O Informante”, dirigido por Michael Mann, com Al Pacino e Russel Crowe, que mostra como a indústria do tabaco por anos negou os malefícios do “produto”, até um ex-funcionário resolver denunciar toda a patifaria. Inclusive esta história é citada no filme. “Erin Brockovich”, estrelado por Julia Roberts, é outro longa que mostra a luta da personagem que dá nome ao longa contra a Pacific Gas and Electric Company, que basicamente contaminou a água de um local nos EUA e envenenou centenas de pessoas.

A diferença principal entre as histórias dos filmes acima e de “Um Homem Entre Gigantes” é que o médico Bennet Omalu entrou em conflito com o esporte mais amado dos norte-americanos. Ele teve que brigar contra uma corporação, contra os jogadores milionários que prestam serviços para a esta corporação e contra a paixão de milhões de pessoas que gostam mais de futebol americano do que de qualquer outra coisa. Ah, mais um elemento: Omalu é negro e nem era afro-americano, então imagina o inferno em que se transformou a vida dele.

Isso me fez pensar se as pessoas que agora amam NFL sabem da história. Não darei spoilers, apesar de ser tudo público, mas a questão é que ao invés de ouvir o médico, a NFL agiu como age qualquer grande empresa: negando, destruindo a vida da pessoa que quer resolver um problema e tentando corromper grupos de pessoas para abafar o caso, entre outras táticas nada louváveis. Com isso, quero dizer que devemos parar de assistir aos jogos por conta do passado? Negativo. Mas não deveríamos nos preocupar em como agem essas empresas e entidades que cuidam do esporte?

Pense na CBF. É uma das entidades mais imundas que existe na face da Terra. Os dirigentes estão presos nos EUA ou não podem sair aqui do Brasil (deveriam estar presos aqui, principalmente…), o histórico de corrupção é de décadas, o conchavo para troca de favores entre ela, as federações e os clubes mais ricos é de dar nojo e continua tudo igual: estádios sucateados, estrutura péssima para o esporte, campeonatos assolados pela violência e ingerência, desordem, futebol feminino pífio, entre outros problemas que, se elencados, teriam 10 vezes o tamanho deste texto. As pessoas não irão simplesmente parar de ver futebol, mas o que precisará acontecer para que a CBF seja punida, como foi a NFL, para que as coisas sejam tratadas da maneira correta? Os jogadores, dirigentes e o público não têm, também, responsabilidades nesse cenário?

A responsabilidade pela morte dos garotos nos containers do Flamengo será creditada ao acaso, assim como parecem ser tratados os casos da Vale. Foi uma fatalidade. Fatalidade uma ova: negligência pura e simples. Não foi um tsunami que matou pessoas. Uma barragem rompeu e garotos morreram queimados em containers, assim como jogadores de futebol americano perderam a vida após terem seus cérebros debilitados por anos e anos de pancadas. Alguém fez algo errado ou deixou de fazer algo certo.

Fatos assim mostram como é importante manter o passado vivo, para que nos lembremos diariamente como não podemos tolerar abusos e atos desorientados de empresas irresponsáveis, ainda mais de empresas que mexem com esporte e com a paixão das pessoas. E não podemos esperar que surjam heróis para solucionar os problemas. É necessário, cada vez mais, que as pessoas se mobilizem politicamente para combater injustiças, por mais que uma ou outra pessoa pública diga que não se deve misturar esporte com política (veja vídeo abaixo). É justamente quando dizem o que não se deve fazer que devemos ficar atentos.

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Leonardo Cassio

Leonardo Cassio

Sócio-diretor da Carbono 60 - Economia Criativa, Leonardo Cassio é publicitário, jornalista e amante da sétima arte. Lê de mangá a física quântica e tem uma tatuagem do Pearl Jam.

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