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Uma Rússia Sem Firulas E Uma Amizade Sem Pieguices

Audiovisual | Leonardo Cássio 03/05/17 - 10h Leonardo Cassio

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Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival do Rio 2016, “Vermelho Russo” estreou no dia 27 de abril e conta a história de uma viagem feita pela atriz Martha Nowill com uma amiga à Rússia, para aperfeiçoar os estudos interpretativos do famoso e complexo método Stanislavski. Durante os passeios que fazem por Moscou e na pequena hospedagem que dividem quarto, as amigas acabam brigando e têm de enfrentar dias de difíceis aulas, as naturais barreiras com uma língua complexa e dilemas naturais de pessoas que convivem muito tempo juntas. A direção é de Charly Braun, que roteirizou o filme com Martha Nowill.

“Vermelho Russo” é baseado em um diário da Martha Nowill publicado na Revista Piauí, em 2009. Portanto, o filme é um misto de ficção biográfica com documentário, uma vez que a personagem Marta é interpretada pela própria Martha Nowill e sua amiga, Manu, é interpretada pela atriz Maria Manoella, que foi quem fez a viagem com Nowill.

Marta e Manu partem para Moscou a fim de passarem por um intensivo de interpretação em uma das escolas teatrais mais famosas, a de Constatin Stanislavski. Além dos estudos, a viagem serviu como válvula de escape para problemas existentes no Brasil, entre eles, a desesperança com a profissão e, no caso de Manu, a briga com o namorado. Lá, se envolvem com um grupo de portugueses e um argentino e começam a jornada de estudos. O argentino, vivido por Esteban Feune de Colombi, começa a coletar imagens do grupo para fazer um documentário. Esse personagem incorpora a ideia do diretor Braun, que conheceu Nowill e Manoella em um curso sobre o método teatral do russo, no Teatro-Escola Célia Helena, onde tiveram a ideia de fazer o intercâmbio. Braun desistiu, mas as meninas foram e o diretor, ao ler o diário publicado, pensou: “Por que eu não fui e gravei tudo isso?”. Daí a ideia do longa.

Na parte de apresentação individual na primeira aula de teatro, surgem as primeiras alfinetadas do filme. Marta diz ter ido fazer o curso porque estava cansada de se apresentar em peça onde havia mais pessoas no palco do que na plateia, fato recorrente, infelizmente, no Brasil. Marte e Manu são escolhidas para fazer uma cena juntas, que devem desenvolver até o final do curso. As duas descobrem que uma atriz famosíssima da televisão portuguesa, Soraia Chaves – interpretada pela própria -, fazia parte do grupo e as duas ficam ainda mais interessadas pelas aulas. A relação das duas estremece em uma noite em que saem para se divertir e conhecem um ator/ diretor teatral – vivido por Michel Melamed – que beija uma e, depois de um tempo, a outra, e começa uma série de brigas do famoso tipo lavação de roupa suja. Nowill mostra toda sua insegurança quando diz que a amiga é a bonitona que rouba tudo dela; a outra diz que a amiga é egoísta, pois sabia que ela estava mal por causa de um relacionamento ruim e não se deu ao trabalho de perguntar nada sobre e por aí vai. Junte-se a isso o fato de estarem em um país onde mal conseguem se comunicar com outras pessoas, o fato de terem de dividir um quarto pequeno e um estudo de cena até o final do curso e conclua o óbvio: a relação desmorona.

O filme é convincente justamente pela verdade que passa. Como as duas atrizes se autointerpretam, os sentimentos são muito verdadeiros, principalmente para quem sabe a história, como era meu caso. Elas são carismáticas e o filme não tenta passar nenhuma imagem sobre “a amizade é mais forte que tudo” ou “amigo é para sempre”; ele mostra apenas coisas que ocorrem entre amigos: momentos fraternos e brigas. A sutileza do filme está em colocar isso de forma metalinguística: o estudo interpretativo das duas envolve uma cena que as personagens estão brigadas. Durante as atuações, o tutor delas fala sobre essa questão que a personagem não deve personificar a pessoa, a atriz, e sim o contrário, a atriz deve conceber a personagem. Elas estavam interpretando na cena a si mesmas, os conflitos que as duas estavam vivendo. Extrapole isso e pense que Nowill e Manoella tiveram que interpretar a si (na vida real), interpretando-as a si novamente em uma cena (dentro do filme) em que elas não deveriam ser elas mesmas. Muita loucura.

Outro fator que não poderia deixar de ser interessante são as locações. É uma Rússia sem firulas. Você vê lá a Praça Vermelha, outros locais bonitos, tudo em favor das protagonistas. Não tem aquelas maracutaias de KGB, James Bond e espionagem. É só um local interessante de se visitar e que, por um caso, tem uma cultura literária, teatral e musical formidável.

“Vermelho Russo” é um filme sem sobressaltos. É honesto, simples, diverte e emociona em dosagens sutis. Não é o tipo de filme grandiloquente e, por isso mesmo, é bom. O filme tem seus problemas, como toda a amizade, e, como no caso da relação em questão, acaba bem, sem pieguices para estragá-lo.

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